sábado, 20 de agosto de 2016

MISTÉRIOS DA LITERATURA: OUTRAS HISTÓRIAS DE LUIS SEPÚLVEDA

São duas histórias curiosas, até porque uma delas tem o grande Cortázar no centro, outras que o escritor Luís Sepúlveda contou na jornada da Guarda, e que têm a ver com o mistério da escrita – a interrogação ou a perplexidade da razão de ser da Literatura, essa aventura intimista que é o acto de respirar com palavras. A literatura é sempre um tempo de histórias que a alquimia da vida oferece e talvez tenha sido isso que levou Alberto Manguel, o grande historiador da leitura, a confessar: “Concebia o futuro como lugar que reunia as pontas de todas as histórias”.
Luís Sepúlveda também reúne no fio da sua conversa, como aconteceu na Biblioteca Eduardo Lourenço, muitas pontas de histórias que não são outra coisa senão imagens do seu percurso biográfico. Sobre esta questão da literatura ou da poesia, melhor dizendo sobre o nascimento desta, que é sempre alguma coisa que nos toca como uma brisa do mar ou uma estrela cadente transformando os desejos em versos, o autor de “O Velho Que Lia Romances de Amor” contou que era um jovem adolescente e um dia vira chegar ao seu bairro uma família que ali se vinha instalar. Nessa família, vinha uma menina muito bonita, e ele logo correu a ajudar a descarregar as coisas, mobílias e tralhas de mudança. ”Carreguei muita coisa e fui tão eficaz que a mãe da miúda sugeriu: “Convida o teu amigo para os teus anos!” “Ela assim fez e eu fiquei tão delirante”, contou o escritor, “que andei uma semana a pensar no tesouro para lhe oferecer como prenda.”
E Luís Sepúlveda: “Encontrei um, que lhe levei muito bem embrulhadinho, para a festa de aniversário. Entreguei-lho e ela segurou-o com a ponta dos dedos, pouco interessada. Era o meu tesouro, a coisa mais valiosa que eu tinha: a fotografia da selecção de futebol do Chile assinada pelos craques. Ela olhou desinteressada para o presente.
-- No te gusta? – perguntei.
-- No me gusta futebol… -- respondeu com indiferença.
-- Que raio te gusta?
-- Poesia!”
Luís Sepúlveda, confessou então ter começado a pensar que a Poesia tinha de entrar na sua vida, e de tal forma fez que aos dezasseis anos publicou um livro de versos a que chamou “Crepusculário Nostálgico” (“Que título horrible!”, diz agora o escritor). E como se pusesse um ponto final na história: “Nunca mais vi a menina bonita!”
Mas sobre a Literatura, o autor de ”As Rosas de Atacama” falou dos seus encontros e desencontros com Júlio Cortázar. Muito jovem, num Congresso de Escritores do Chile, Sepúlveda foi encarregado de receber os escritores estrangeiros, entre os quais estaria Cortázar, célebre autor de “La Rayuella”. Preparou longamente as palavras que na circunstância lhe poderia dirigir, mas quando o momento surgiu foi tudo tão rápido, tão apressado, que não disse palavra alguma. Pouco mais do que um cumprimento, e alguém que, apontando para ele, o definiu como “uma jovem promessa”. Cortázar voltou uns metros atrás para lhe dizer: nunca deixes chamar-te uma jovem promessa…
O mundo deu voltas e muitos anos depois, após outros encontros-desencontros, na Nicarágua em tempo de revolução, a jovem promessa chegou à fala com o Mestre. Acabaria muitos anos depois por frequentar na Europa a casa do escritor argentino. Bebiam e conversavam. Contou Luís Sepúlveda: “Um dia, já a noite envolvia a cidade e a luz recortava mais nitidamente os lugares e as coisas, aconteceu um momento extraordinário. A casa de Cortázar dava para um pátio interior e da sua sala víamos uma mulher a sacudir um lençol, emoldurada pela luz. Cortázar perguntou-me:
-- Que estás vendo?
-- Uma mulher sacudindo o lençol… -- respondi.
-- E mais, que vês mais, além disso?
-- Mais nada… -- respondi, atónito.
Então, Cortázar explicou:
-- Há mais, muito mais, nos gestos daquela mulher sacudindo o lençol. Há pedaços de pele, há cabelos, há sonhos que se estilhaçam como cacos, quando caem lá em baixo. A função do escritor é ir recolhê-los e tentar colá-los". A Literatura é isso!

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

UMA HISTÓRIA DE LUÍS SEPÚLVEDA

Na memorável sessão da entrega do Prémio Eduardo Lourenço a Luís Sepúlveda (ver Notícias do Bloqueio) e da conversa de duas horas que, à noite, na Biblioteca Eduardo Lourenço, perante um público a um tempo entusiasmado e surpreso, mantive com o escritor, duas histórias registei para o arquivo da memória. Hoje, quero oferecer a primeira aos meus Leitores. Depois contarei a outra, que é sobre o mistério da Literatura.
Na primeira, o diálogo girava à volta daquele triste mês de Setembro de 1973, no Chile, que se tornaria ano de todos os terrores. O autor de “O Velho Que Lia Romances de Amor” contou então que, depois do golpe de Pinochet, esteve longos meses preso, com mais de mil companheiros num daqueles campos de concentração do ditador, afastado q.b. da cidade de Santiago, onde continuava a “chover” violência, tortura e morte.
O calendário continuava a rodar, o tempo parecia suspenso para quem sofria o martírio das grades, os dias indicavam Abril e promessas de Primavera, lá fora. Contou, então, Luís Sepúlveda: “Um dia, ao contrário do que era regra, os oficiais e soldados que vigiavam o campo não tinham vindo infernizar a vida dos prisioneiros, não havia “trabalhos especiais”, ameaças e gritos de comando, aquilo que nesses lugares não são outra coisa senão redutos de ignomínia, contra a dignidade humana. As horas passavam e persistia uma estranha serenidade, quase um silêncio, uma calma que causava em nós uma grande curiosidade”.
Isto lembrou o escritor, que depois acrescentou o capítulo final à sua história. ”Quando falei com um graduado mais razoável, perguntei-lhe:
-- Qué pasa?
Muito seco, respondeu:
-- Vos otros hábeis ganado. Hay una revolución en Portugal!

Era o 25 de Abril. E Luís Sepúlveda: “Noutro continente, lá longe, a muitas milhas de distância, uma ténue luz de esperança se abria para a nossa condição de prisioneiros”.