sábado, 27 de agosto de 2016

UMA PORTA PARA A HISTÓRIA

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Na navegação dos dias pela cidade, há instantes que nos ajudam a conhecer melhor a identificação da urbe, num conhecimento que, diria o Professor José Mattoso, é essencial para identificar também a região e o país. Esses momentos, que ampliam o olhar sobre as coisas e os lugares, abrem horizontes temporais que não são outra coisa senão o registo de longa duração da História.

Foi o que aconteceu um dia destes. Num encontro ocasional com a Professora Maria José Tavares, que adoptou há anos a Covilhã como pequena pátria afectiva de residência, as questões da História surgem sempre à flor da conversa. A historiadora abriu-me uma porta para a história local, que se articula com uma geografia bem mais ampla do conhecimento. Levou-me ao número 80 da Rua António Augusto de Aguiar, aquela artéria central que, saindo da Praça do Município, olha para o alto das Portas do Sol e nos conduz à Praça, lugar de troca por excelência de produtos das quintas, a fazer lembrar o envolvimento rural da cidade operária, ou outros modernos universos do consumo.

O número 80 é uma porta aberta, alta, debruada de granito, onde se abre um passadiço, com escadaria íngreme, que dá acesso a umas ruelas estreitas de casas de pedra, a que a cor do tempo dá certidão de antiquíssimas, velhas casas da Covilhã velha. A Professora Maria José Tavares aponta a topografia do lugar e explica que a zona era parte inteira da Judiaria da Covilhã, espaço configurado à delimitação de várias igrejas. De facto, percorremos as tais velhas e estreitas ruas e vamos dar às imediações da Igreja de S. Tiago.

A porta do número 80 está ali, à beira do nosso olhar, abrindo um mundo de possibilidades para a descoberta da história oculta da cidade. É verdade que a Professora Maria José Tavares, reputadíssima investigadora desta e doutras áreas da História, fez, há dois anos, uma conferência sobre esta temática. Quem a ouviu?

Digo isto para manifestar a minha gratidão à historiadora pela porta da História que me abriu. E penso que uma cidade como a Covilhã, universidade incluída (e isto é válido também para a territorialidade mais vasta da região), não podem ignorar o contributo que uma historiadora com tal estatura científica e académica oferece como dádiva de saber.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

UMA FLOR DE SAUDADE PARA O DAVID!


 

 Na aventura cósmica que é a vida, talvez nada nos confronte tanto, no plano interior, como a morte de um jovem que, pela sua própria natureza, por uma maneira de ser superior, abraçava o percurso existencial como uma dádiva que ele vivia com plenitude esfusiante, feita de alegria e despojamento, numa pedagogia do viver que parecia a razão de todos os seus instantes. Foi isso, essa comunhão com o respirar da vida, que me povoou o pensamento, quando um amigo, pela manhã, me informou que o David Vaz, ele que fez sempre tantas viagens, próximas e longínquas, tinha partido para a última e derradeira, aquela tão longa e definitiva em que uma pessoa deixa de ser vista.

Estas notícias, surgindo embora com o carimbo de esperadas, deixam-nos sempre atónitos, e, quando as interiorizamos, apetece-nos porventura gritar que o destino ou lá o que for pode ser, afinal, uma brutal injustiça. Uma pessoa não nasceu para isto! É por isso que a invenção da ideia de que morrem cedo aqueles que os deuses amam, me pareceu sempre um relativismo excessivamente fácil em relação à vida ou uma desculpa pouco convincente para os que gostam de acreditar em deuses loucos manipuladores de destinos comuns.

Mas o David, da geração dos meus filhos, foi sempre um jovem muito especial, que trocou a formação universitária que alcançou com brilhantismo, por uma paixão que nele foi sempre a vivência feliz dos dias que andou. Tinha, sobre desporto, uma informação tão ampla quanto é possível ter, sabia tudo o que havia a saber sobre o Triatlo ou o ciclismo, era especialista e assessor de Federações e comentador dos grandes acontecimentos desportivos nessas disciplinas, nas televisões e nos jornais, designadamente na RTP e na Sportv. Aí o víamos, com o seu ar descontraído e feliz, a explicar o desporto por dentro, a fazer uma certa pedagogia da festa que o desporto pode e deve ser. Andou pelos Jogos Olímpicos e por Campeonatos Mundiais, gostava, acima de tudo, da Volta a França, onde foi já doente, como se quisesse despedir-se do Alpe d’Huez. Há meses, contou-me o pai, o querido amigo Álvaro Roxo Vaz, ainda fazia planos de lá voltar, este ano! Mas nos últimos meses, o cerco da doença, tornou-se lâmina e o David, conhecendo-se a si próprio, começou a desistir da sua longa batalha de resistência.

Volto atrás no tempo. Foi nas alturas da Serra da Estrela, onde gostava de subir pedalando a sua bicicleta, que o sintoma fatal de um tumor no cérebro se revelou. O David iniciou então, nos labirintos hospitalares, um tempo em que parecia suplantar o drama que estava dentro dele e dos mais próximos e dos amigos, que tinha muitos, com uma coragem extrema, quase a dizer aos outros que não se preocupassem.

Passei a falar muito com ele, quando vinha ao Fundão matar saudades da terra que ele amava como poucos, e a conversa de café e de esplanada, girava muito, numa cumplicidade activa, sobre a complexidade da vida e as suas sombras, sobre as partidas que o corpo, o nosso fiel companheiro, nos prega surpreendentemente. Havia tempo para sorrisos, e lembro-me bem: o David despedia-se sempre com um aceno de esperança, que eu olhava como vontade insólita de resistir.


Agora, que ele nos deixou (fica a memória boa), imagino o David Vaz nas suas viagens por montes e vales, enchendo os olhos de paisagens, vivendo e respirando momentos que o acompanharam, imagino-o nos grandes areópagos do desporto mundial a compartilhar a festa, e vejo-o, muito nitidamente, a recordar-se do Fundão, que era o seu essencial universo de afectos.