quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O UNIVERSO DE CAMILO EM SEIDE

Subimos a S. Miguel de Seide, à casa de Camilo, para perscrutar a dimensão de tragédia do lugar, perceber os passos do seu dramático universo, olhar de perto, quanto se pode olhar, a finalidade de um destino de morte, que ele dizia persegui-lo desde os trinta anos. Fomos lá como quem cumpre uma promessa. Para parar e ver, e rever na memória dos seus livros um mundo edificado por um gigante, com uma vida que foi ela própria um grande romance, como Aquilino nos três fabulosos volumes de “O Romance de Camilo” tão bem foi capaz de analisar. E quando estávamos ali, na emoção de viver a casa amarela, recortei na memória a imponência da árvore, à entrada, de tão elevada carga simbólica, subi a escadaria de pedra e imaginei Camilo, ainda sem os olhos tolhidos de sombras, a olhar os horizontes de paisagens intactas, fixando-se porventura na solidão dos campos, quebrada apenas pelo canto das aves, ou pastoreando a vista até à Serra, que é referência da sua topografia literária. 

É dentro das quatro paredes da casa, apesar das inevitáveis sequelas temporais e do incêndio que o imóvel sofreu, que se pode respirar alguma densidade das fatalidades camilianas ou captar a soturnidade do ambiente que, em Seide, foi quase sempre uma inevitabilidade. Também ele, como Nietzche, poderia ter dito: “Sou a solidão feita sombra”. É por isso necessário, nestes casos de regresso a lugares de tão fundas memórias, e aqui ainda mais, recorrer ao mesmo tempo à imaginação e à visualidade biográfica dos protagonistas para lograrmos a introspecção mínima a um universo de tantas pulsões interiores e exteriores. 

É nessa dimensão que a visita a Seide se transforma numa viagem em que cada um, conhecendo a tumultuosa vida do autor de “O Amor de Perdição” (o livro mais triste que se escreveu na Ibéria, segundo Unamuno), vai à procura de um mundo perdido na esperança de o reencontrar, ou pelo menos, pedaços dele e dos dilaceramentos afluentes. Lá estão os espaços compartilhados com Ana Plácido, outro amor de perdição, os quartos comunicantes, e, com maior expressão expositiva, os lugares que, na casa, foram os de produção de escrita e dos livros, uma grande sala cheia de luz, onde há mobiliário de grande significado, como a cadeira de baloiço onde estava Camilo quando disparou a pistola contra a têmpora ou o canapé onde o deitaram e acabou por morrer. Há, também, os livros que se salvaram, e, no rés-do-chão, uma pequena exposição sobre o escritor com virtualidades pedagógicas. Esta perspectiva didáctica alarga-se, paredes meias com a casa amarela, ao magnífico centro interpretativo de Camilo, projecto de Siza Vieira que a Câmara de Vila Nova de Famalicão resolveu fazer, com bibliotecas, salas de estudo, auditório, café, e uns jardins admiráveis. Um local de investigação a que, segundo nos disseram, se ligam universidades e escolas.

Regressámos ainda à casa amarela para olhar a mesa de trabalho do escritor e a imaginação salta outra vez à flor do pensamento. Por momentos, pareceu-me vê-lo debruçado sobre a mesa, iluminado por luz trémula, a escrever os seus romances. E penso no labor que foi a sua vida de lavrar palavras, absolutamente fantástico, e de como ele se transformou num enorme construtor da Língua portuguesa.

Um último olhar sobre Seide. E lembrei-me, subitamente, de uma ideia colhida em César António Molina. É uma referência a um outro grande criador, feita pelo Prémio Nobel polaco Szimborska. Disse ele: “Pobre Cervantes. Não conseguiu em vida mais do que a eternidade”. Podíamos dizer o mesmo de Camilo.

domingo, 11 de setembro de 2016

UM ACENO DE SAUDADE PARA O ESCULTOR

É tão relevante a importância de José Rodrigues nas artes plásticas portuguesas do nosso tempo que envolver a notícia da sua morte na insuportável retórica informativa do empobrecimento do país, parece uma banalidade que o Mestre de todo acharia risível. José Rodrigues tinha, aliás, uma forma de ser e estar que não se comprazia com essas liturgias do elogio “post mortem”, sabendo ele que, durante a vida, a outra morte pelo esquecimento e pelo silêncio, o tocou algumas vezes.
Foi preciso morrer o escultor e pintor, que tanto enriqueceu a arte pública, que tantas vezes deu asas à imaginação para acrescentar, com o seu talento, outras realidades à realidade, foi preciso a inevitabilidade do seu desaparecimento para os chamados meios de comunicação social falarem agora, finalmente, da sua Fundação, onde a arte e os seus ofícios, os desafios da criação e a festa da divulgação cultural.
O que eu guardo de José Rodrigues, ele que se resguardou nas ruínas do Convento de Vila Nova de Cerveira, que requalificou e tomou como habitat da sua ação criadora, é a sua abertura à convivialidade, a tolerância, a alegria com que distribuía a sua arte. Estou a vê-lo, enquanto os olhos não se embaciaram de sombras, a viver os momentos de plenitude de Cerveira, a olhar o Porto, a sua cidade, que ele tanto amou e melhorou com a sua arte, o seu empenho cultural e cívico, o seu desafio de transformar o mundo, à sua escala.
Lembro-me do José Rodrigues no Fundão, com o Eugénio de Andrade, e de, com eles, ter vivido momentos inesquecíveis. E um deles, que não esqueço, foi quando o escultor, pela amizade ao poeta, quis oferecer um monumento à poesia, a instalar no Fundão. Um e outro comunicaram à Câmara esse desejo. Era preciso, apenas, escolher o local e fornecer a cota do terreno, enfim criar as condições de enquadramento urbano para a materialização do projecto artístico. Nunca José Rodrigues recebeu qualquer resposta. E Eugénio, por mais de uma vez, me manifestou indignação pelo facto.
À memória, vêm-me imagens fragmentárias do escultor e pintor, que guardo como espécie de retrato abreviado: os seus traços, as suas linhas sonhadas, as cenografias que eram telas enormes de pintura, os monumentos que levantou do chão, as palavras de afecto que eram a sua caligrafia de amizade. Saudades de José Rodrigues.