quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A GRANDE AVENTURA DE VIVER

FOTO DE GLÁUCIA MALENA
A grande aventura de viver é a invenção do dia claro, a procura da luz perfeita e clara, a vivência dos instantes que são sorrisos de pura alegria, tudo aquilo que torna o quotidiano feliz. Foi talvez por esse olhar desmedido ao rumor da realidade que Torga disse ser a vida feita de pequenos nadas que, às vezes são muito, e, acrescento eu, preenchem o inventário dos dias e se tornam elementos primordiais daquilo que é o universo interior de cada um.  Alain, em Propos sur le Bohneur dá indicações nesse sentido avaliando a vida como um território absolutamente pertença de cada um, onde se joga toda a dimensão da aventura cósmica que é a nossa passagem pelo mundo. Voltando ao pensador e escritor francês, percebe-se como a respiração do tempo e a inevitabilidade do seu uso na pequena partícula que cada um juntará à história comum da humanidade é condição essencial para responder à emergência dos desafios que Alain elencou na sua cartografia de felicidade.
Ainda agora, neste momento em que escrevo, encho os olhos das cores que começam a habitar o Outono da Cova da Beira. É uma vista soberba, que eu tenho a sorte de olhar a várias horas do dia, que se espraia por campos libertados do espaço urbano, matizados de oiro e de verde e se prolongam até montanhas longínquas que o sol pinta de azuis. Também estes relances, onde cabem as serras paradas de que fala o poeta, são sinais dessa subtil emoção que nos faz olhar o mundo ou os mundos de outra maneira e, nesses instantes que os olhos tocam, criam em nós a mesma sensação de felicidade que Teixeira Gomes experimentava quando caminhava, no seu exílio argelino, à beira do mar, colhendo toda a beleza da tarde e da luz que caía no horizonte.
Como Antígona ("venho para semear amor"), devemos procurar que nada do que seja humano seja estranho, humano na plenitude do ser que implica sempre afastar a cicuta da vingança, que não há pior coisa para diminuir a condição humana.
Suavemente, o Outono toca-nos, e sempre me pareceu que a ideia de uma melancolia inerente ao tempo, em boa parte inventada por poetas, era coisa imaginada. Prefiro esperar pela sinfonia das cores... De qualquer forma, enquanto elas não explodem na paisagem, atenho-me à sua música, e, como o Sérgio Godinho, fico  com "um brilhozinho nos olhos" e "vem-nos à memória como uma frase batida" que "hoje é primeiro dia do resto da tua vida". Oiço a canção  e penso que também ela poderia fazer parte dos Propos sur le Bohneur, de Alain.
Então, sacudamos a melancolia, que pode ser apenas tédio e angústia, e procuremos a tal luz perfeita e clara, e naveguemos no tempo com os belíssimos versos do meu poeta Pablo Neruda:"Quero apenas cinco coisas.../ Primeiro é o amor sem fim/ A segunda é ver o Outono/ A terceira é o grave inverno/ Em quarto lugar o Verão/ A quinta coisa são teus olhos/ Não quero dormir sem teus olhos./ Não quero ser... sem que me olhes./ Abro mão da primavera para que continues me olhando".

terça-feira, 27 de setembro de 2016

ALBERTO NETO: ARAUTO DO PORTUGAL FUTURO


Fui no sábado ao Souto da Casa evocar o Padre Alberto Neto, num momento de memória que foi, decerto como ele gostaria, uma fraterna e sóbria jornada de gratidão, de afecto e de admiração. A sessão de homenagem de dimensão colectiva teve no dr. António Lourenço Marques o primeiro obreiro, que não se cansou de esforços para fazer do acontecimento um estimulante exercício de memória. À iniciativa se associaram, com dignidade, a Junta de Freguesia do Souto da Casa e a Câmara Municipal do Fundão. Reuniram-se à volta da figura de Alberto Neto amigos e companheiros de jornada, que falaram da sua dimensão como homem da Igreja, incessantemente apostado no seu agiornamiento, como pedagogo (tão importante que tem o seu nome inscrito como patrono de duas escolas da área de Lisboa!), como cidadão implicado na construção de um Portugal livre e numa cidadania de dinâmica social, quando este conceito ainda não era moda e estava na sombra.
Foi uma honra partilhar um painel onde estavam, além do António Lourenço Marques, o Prof. António Araújo, autor de uma volumosa tese de doutoramento sobre o caso da Capela do Rato e a figura de Alberto Neto, o cónego António Janela, e o jornalista Jorge Wemans que, partindo da sua vivência e história de vida, fez um testemunho relevando a importância da acção multifacetada do Padre Alberto Neto (no plano eclesial, social, cultural e político), traços que sublinhavam, afinal, a grandeza humana do sacerdote e a sua comum humanidade.
A minha aprendizagem do Padre Alberto Neto nasceu de contributos e de falas de amigos comuns, o António Morão, o António Jorge Martins, o Felicidade Alves ou o Nuno Teotónio Pereira, mais tarde o Francisco Fanhais, e todos, à sua maneira, compunham o retrato de uma das figuras mais importantes do século XX português. No tempo de antes de Abril, quando o país estava fechado em grades, chegavam-nos de longe ecos da acção e da palavra de Alberto Neto, e era uma espécie de luz que alumiava, às vezes aquela "pequenina luz bruxuleante", que caminhava ao nosso lado, "no meio da multidão", como no magnífico poema de Jorge de Sena. A multidão era o país e a pequenina luz, a esperança.
Um dia, defini o querido Eduardo Lourenço como alguém que sempre nos ensinou a pensar acima das necessidades. Direi hoje a mesma coisa de Alberto Neto, que viu sempre na Liberdade a medida de todas as coisas e com ela confundindo, sempre, a condição intrínseca do homem e da sua aventura existencial. Era nessa contingência da própria existência que Alberto Neto desafiava os outros a construir um mundo mais habitável, com "empenho do coração", como diz um verso de Eugénio de Andrade.
Não esqueço os textos de Alberto Neto que pude publicar no "Jornal do Fundão", muito pela amizade da dr.ª Alexandra Oliveira, sua sobrinha. Era sempre leitura de proveito e exemplo, matéria de inquietação e pensamento fecundo, a riqueza das ideias pontuadas de utopia, como naquele texto sobre a Escola nova, que guarda um actualidade espantosa.
A jornada de memória, a riqueza dos testemunhos e do convívio, a presença da comunidade de Rio de Mouro, a música e os poemas de Alberto Neto constituíram um acontecimento, que bem merecia atenção da chamada informação nacional, infelizmente apenas mais interessada no charco do sensacionalismo. Alberto Neto colocou sempre muita poesia nas palavras e nas coisas que marcaram o seu percurso. Ele sonhou uma "terra da alegria", de que falam os versos de Ruy Belo e talvez por isso possamos sobrepor ao seu nome o poema o Portugal futuro. Um país, que dizia Ruy Belo, "aonde o puro pássaro é possível". Alberto Neto.