segunda-feira, 17 de outubro de 2016

CURVATURAS E BIFACIALIDADE

A cultura de cedências e indiferenças, que é um caldo de longa duração na sociedade portuguesa, tem efeitos nocivos ao nível da mentalidade, cristalizada por anos e anos de hipertrofia crítica, e provoca na faceta comportamental uma subalternização dos deveres de cidadania e de exigência de verdade e transparência. Cria-se, então, na expressão de conflitualidades que emergem da esfera pública, uma dicotomia entre as palavras e os actos que não tem outro significado senão desfigurar a realidade ou mistificá-la para defender ou proteger interesses espúrios à causa pública. É a bifacialidade que reina.
Nessa estratégia de ilusão, esquece-se sempre o dever de dignidade, pendura-se no bengaleiro do mercado público (o dos interesses) a verdade das coisas, a imparcialidade, a consciência crítica e ética dos procedimentos, a exigência de contribuir para que as coisas melhorem e as instituições, quaisquer que elas sejam, funcionem  ou cumpram a sua missão ao arrepio de compadrios e clientelas.
Não sei quantas vezes tenho assistido ao espectáculo deplorável dos que assobiam para o lado e continuam a marcar passo na velha prática salazarista que, acenando sempre com medos e retaliações, levava muitos a encolher os ombros com uma filosofia muito própria do oportunismo:
-- A minha política é a bola e o trabalho e não me tenho dado nada mal com ela!
Um amigo meu a quem eu conto descasos de acontecimentos deste tipo, bate-me no ombro com um aceno de ingenuidade para me dizer, com ironia, que em Portugal, depois do Padre Américo, "não há rapazes maus!" De facto, em matérias e comportamentos que bolem com ética, desculpam-se uns aos outros, olham para o lado, não vêem rapazes maus e saem dos problemas lavando as mãos no chamado porreirismo nacional, que desculpa tudo mais um par de botas. Quem não se ativer a estas curvaturas dorsais e em vez de olhar o chão encarar a realidade de frente, não deixa de catalogar esta prática, tão branda, tão nossa, tão portuguesa, como um exemplo acabado de cobardia intelectual.
Lembro-me de George Lukacs, um dia, ter escrito sobre as fugas ao real vividas na esfera literária que já não havia realidade, mas apenas uma caricatura dela, de tal  forma ela era grosseiramente deformada. Pensar nisso, agora, que olhamos para o tempo para descobrir a importância do filósofo marxista, talvez seja um bom exercício. Para descobrirmos como, afinal, a realidade, deformada que possa ser, acabará sempre por ter razão.