sábado, 29 de outubro de 2016

COMPRAR FAVORES & TRAFICÂNCIAS

Há cerca de um ano, publiquei aqui um poema de Alberto Pimenta, de 1973. Alberto Pimenta tem uma obra notável, na poesia e no ensaísmo ("O Silêncio dos Poetas" é livro de referência), e toda ela é reveladora de uma crítica sem complacência aos tiques sórdidos da sociedade portuguesa, aos jogos de poder, aos vícios do clientelismo, à engrenagem em que se protegem uns aos outros nas benesses e nos assaltos aos lugares. Já Ribeiro Sanches discorria sobre as dificuldades que tinha o reino velho para emendar-se. É uma acção predatória contra o interesse público e a transparência das instituições, contra o coração da democracia, todos banhando-se no pântano onde há sempre alguns que são mais iguais do que os outros. Por isso, lendo há distância de um ano, o que escrevi, percebo melhor a actualidade de Alberto Pimenta. E apetece-me, por isso, repetir os versos certeiros do poeta:
«Não tem direitos por isso compra favores. Fica a dever favores. Faz favores. Para pagar os favores. Compra novos favores. Fica a dever favores. Faz novos favores. Para pagar os favores faz favores. Paga favores. Gosta assim. Não tem direitos. Prefere favores. Gosta assim. Os direitos não se vendem nem se compram e ele tem alma de traficante».
Alma de traficante, disse o poeta.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

JOÃO LOBO ANTUNES, "DE PROFUNDIS..."


Há mortes anunciadas, como Garcia Marquez recordou na sua forma de criar mundos, mas quando elas se tornam reais e definitivas fica a sensação de perda, que é irreparável. Foi o que aconteceu agora com o Prof. João Lobo Antunes, que ante-ontem nos deixou. As notícias que amplificaram o facto tinham, todas elas, essa contingência de produzirem um obituário anunciado, desde que se soube, há tempos, que o o neuro-cirurgião de prestígio mundial tinha os dias contados vítima daquelas fatalidades que surgem, a que vulgarmente se chama cancros, que estreitam logo a margem da esperança de vida, logo a ele que passou a vida inteira a resolver esta tipologia de doenças fatais, a roubar dias à morte dos outros.
Reconhecendo os seus elevados méritos científicos -- quem os não reconhece? -- eu gostava de João Lobo Antunes por outras virtualidades. Lembro-me bem de um colóquio em que ele participou em Castelo Branco, que eu tive a honra de comentar, e dos espaços de conversa que se abriram à margem do acontecimento porque havia um traço de identificação no diálogo: a partilha da memória de um amigo comum, o José Cardoso Pires. Falámos do Zé, era assim que ele o tratava, como se falássemos de nós, da literatura, dos ensaios, da prosa enxuta e rigorosa ("golpe até ao osso", como dizia o autor de O Delfim), do ensaísmo, do Steiner que era autor de eleição de João Lobo Antunes.
Lembrei-me agora dessa memória fragmentária. E sempre que falei com ele, o Cardoso Pires vinha à baila. Falava dele com um admiração sem limites. Eu sabia que o nosso amigo comum partilhava idêntica admiração. Quando o José Cardoso Pires teve um AVC, uma situação gravíssima que o neuro-cirurgião tratou com o êxito que depois se ficou a saber. A verdade é que o acontecimento, que poderia apenas ser mero registo biográfico do escritor, ou do médico, não o foi. Cardoso Pires escreveu à volta da sua experiência de "morte branca", de ausência de palavras, observou o mundo hospitalar à sua volta, na sua condição de paciente. Essa experiência pessoal, essa realidade íntima, deu origem ao belíssimo e singular livro De Profundis, Valsa Lenta. E, nessa narrativa sofrida, o autor quis que o prefácio tivesse precisamente a assinatura de João Lobo Antunes. É um texto notável, que o neuro-cirurgião intitulou "Carta a um Amigo-Novo", onde fala do caso clínico de Cardoso Pires ("a doença amordaçara a voz de tantas liberdades"), que é o epicentro do livro, do seu lento regresso ao mundo dos verdadeiramente vivos, da literatura e da ciência médica. João Lobo Antunes depois de evocar os passos da doença, nunca deixando de relacionar a condição de especialista aos pontos inovadores (mesmo para a neuro-cirurgia) da narrativa do autor de "Jogos de Azar", escreve, quase no epílogo: "Um dia, V. regressa, escritor que veio do branco, e imediatamentte se põe a absorver, os dois passarões arruinados que o destino colocou ao seu lado, e enrada-os na sua trama criativa, instrumentos inocentes de uma terapia ocupacional que o redime. Aí, até eu participo, feito Godot ou General do seu labirinto. E a música de cena era canção de esperança, "Forever", não o "Nevermore" do corvo agoirento. E foi retomando a leitura e a escrita, em pequenos passos, em golinhos sorvidos com delicadeza".
Fui procurar o De Profundis, Valsa Lenta para reler o texto de João Lobo Antunes, sempre cheio de erudição e ironia. E folheei o livro até chegar à página da dedicatória. Lembro-me da emoção de ver outra vez a letra certinha de José Cardoso Pires, as suas palavras de companheirismo e amizade. E anoto a data: Maio de 97. João Lobo Antunes havia de gostar que evocasse esta história.