sábado, 5 de novembro de 2016

DO BERÇO ÀS ALMAS MORTAS



ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Às vezes, desencantados com a actualidade do país relativo, com a pátria de via reduzida onde pululam tipos tão espertos, que tanto podem estar em lugares de poder como no Limoeiro, apetece desabafar através da ironia poética de Alexandre O'Neill, e dizer como inquietação às circunstâncias sórdidas da política: “ó Portugal se fosses só três sílabas/de plástico, que era mais barato!” Talvez isso ocasionasse um sorriso breve mas, como dizia o outro, isto, se calhar já só dá vontade de chorar.

É o que se pode dizer a quem tem a desdita de ouvir excessivos telejornais, saltando da comédia eleitoral à americana protagonizada por Trump (ou pela Trampa?) para a problemática doméstica, e assim vai percebendo na forma como se fazem as cousas a diluição dos valores, a indiferença face aos códigos de honra (e um amigo: ainda há disso?), a filosofia, aprendida na prática da impunidade, de que há uns sujeitos catitas sempre mais iguais do que os outros e que, por essa condição comum antigamente à herança do berço e agora às clientelas político-partidárias, estarão sempre isentos de cumprirem a lei ou prestarem contas à colectividade nacional.

Hoje, no “Público”, Pacheco Pereira verbera essa tipologia de comportamento que se está nas tintas para o conceito de serviço público, assinalando a “degradação da política e do Estado”. Diz ele que “o conflito entre a maioria dos partidos parlamentares e da opinião pública e António Domingues e os novos administradores da Caixa Geral de Depósitos e as demissões causadas nos governos (neste e no anterior) pelos falsos títulos académicos são eventos com causas próximas”. O historiador e ensaísta explica-se: "O seu ponto em comum é a contínua degradação da política e do pessoal político, em complemento e em simbiose com a degradação do Estado nas suas componentes políticas, profissionais e técnicas. É o resultado de processos de demagogia, alimentados por uma opinião pública e uma comunicação social populistas, e por uma deterioração acentuada dos grandes partidos, em particular do PSD e PS, com mecanismos oligopólicos, e a crescente importância de carreiras pseudo profissionalizadas, que se fazem dentro dos partidos por critérios que pouco têm que ver com a seriedade, o mérito, a capacidade política, profissional e técnica, tendo mais que ver com fidelidades e intrigas de grupo e com o acesso ao poder do Estado por via do poder partidário.”

Faça-se então o retrato da sociedade: "Enquanto uns vão com náusea, com uma mão no nariz mas aceitando ou pedindo privilégios e salários elevados, servir relutantemente a sua democracia e o seu país sempre enojados com essa coisa vil da política, visto que eles são técnicos ou académicos ou seja lá o que for, tudo menos ser o que são quando aceitam certos lugares; outros sabem que, uma vez “entrados”, se forem obedientes e prestarem os serviços requeridos sem pestanejarem e fizerem muitas vezes “nunca de lá saem”. Vão dos gabinetes governamentais para as autarquias, para os lugares de nomeação governamental, para deputados, e por aí adiante. Esta é uma especialidade das “jotas” dos grandes partidos. A isto se soma o desinvestimento do Estado nas qualificações profissionais e técnicas na alta função pública, com salários cada vez menos competitivos, falsos, o recurso sistemático a uma espécie de segunda linha, que na verdade tem sido a primeira, de serviços qualificados, seja de tecnocratas, de escritórios de advogados ou de empresas de consultoria financeira. Os pareceres e os estudos milionários tornaram-se norma no mesmo Estado, que não é capaz de criar uma administração assente no mérito que permita ao Estado ter recursos humanos para todos estes requisitos técnicos, sendo o recurso a serviços externos a excepção.”

Para Pacheco Pereira esta realidade decorre do “ideal burocrático que substituiu na Europa as hierarquias de nascimento ou o inventário das “almas mortas” do livro de Gogol, mas que em Portugal ainda não arrancou de uma cultura de cunhas e patrocinato” e de um contexto em que estão “em baixo”, os boys, e, “em cima”, os tecnocratas relutantes, muitas vezes desprovidos do mínimo senso político e noção de serviço público, condição para assumirem funções num Estado democrático”.

O caso da nova administração da CGD e as contradições do governo, ao baixar o nível de exigência de transparência, como se o banco público fosse um feudo e os gestores suseranos dispensados de prestar contas do seu património, é não só uma pedagogia de arrogância como o atrevimento de tratarem os portugueses como servos e não como cidadãos.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

AS MUTAÇÕES DO OUTONO

FOTOS DE DIAMANTINO GONÇALVES
A imprevisibilidade de tempo no Outono é um dos seus fascínios. Este caminhar temporal dos dias para o Inverno, às vezes fugindo dele, outras antecipando-o docemente, está cheio de momentos surpreendentes. Mesmo agora, de onde estou, olho, e o vale imenso -- a Cova da Beira à beira da cidade -- abre-se até onde os olhos alcançam. Há uma neblina densa que se se eleva dos campos ou das "ilhas urbanas" que ocuparam o agro e depois se dilui no horizonte, onde sabemos que se escondem montanhas, e depois se mistura com as nuvens de tecto baixo, muito baixo. Vem às vezes uma chuva intermitente, se calhar a íntima chuva que o Drummond gostava de saudar como tempo de ler, ouvir música, namorar, ou simplesmente olhar o rosto do dia. 

Mas este Outono é, de facto, como o das quatro estações, de Vivaldi: há sempre uma ponta de alegria dentro da própria melancolia. Quando os dias estão de feição, como tem acontecido, prolongando o Verão (há-de vir, ainda, o de S. Martinho!), acolho-me à esplanada do jardim que é um bom lugar para a leitura e a escrita. É bom levantar os olhos dessa faina e olhar simplesmente os instantes que a magia do tempo pode operar na natureza. 

Está, em fundo, a Serra a espreitar, mas o Jardim, quando o sol rompe as nuvens e o azul se torna rei, é o Outono em grande estilo que temos ao alcance de uma atenção, um detalhe, um olhar. Olhamos e o que vemos? O amarelecer dos plátanos e das tílias ou os vermelhos de uma faia e, olhe lá!, os verdes diluídos daquele castanheiro da Índia! Ver as folhas no seu bailado de vento a caírem levemente no chão pode completar bem a leitura, e de certeza completa, se ela tiver dimensão poética. O chão parece agora um tapete de bosque onde apetece caminhar. No Jardim, há momentos assim: a luz intensifica a cor dessas "alcatifas" de folhas amarelas (o amarelo predomina) e faz-nos pensar como é farto em beleza e em oferendas de felicidade mínima o quotidiano. 

Um dia destes, olhava o esplendor do Jardim nas suas virtualidades outonais, quando uma brigada irrompeu no espaço, com as suas máquinas sugadoras, aspirando o chão de bosque. De repente, o tapete cromático volatilizou-se. Houve uma eficaz acção de limpeza, decerto necessária, mas a mim pareceu-me, naquele instante, que à morte das folhas correspondia a morte da paisagem. O quotidiano ficou mais triste. Baixei os olhos e regressei à leitura.

MÁRIO DIONÍSIO: A PALETA E O MUNDO



Para a Eduarda Dionísio,
que fez da Casa da Achada uma memória viva da obra de seu pai,
com um beijo de admiração e amizade

Nunca esquecerei o que aprendi na leitura de Mário Dionísio. Eu não tive a sorte, como Luís Miguel Cintra, Jorge Silva Melo ou Eduardo Prado Coelho de ser seu aluno no Liceu Camões, mas a verdade é que o magistério de ideias de Mário Dionísio, a partir do momento em que ganhamos consciência social e política, me ensinou a ler e a compreender o mundo, e, sobretudo a olhar o complexo fenómeno da criação artística como acto de pura liberdade e de libertação, na perspectiva que Mário Vargas Llosa defendeu em Como se Faz uma Novela, desse acto ser uma desafio a deus (ou aos deuses) como pura matéria de criação outra de mundos e realidades.
Se a sua reflexão teórica (dele, Mário Dionísio) sobre a literatura e a arte em tempos de asfixia cívica e do pensamento, é muito importante para percebermos o lugar do escritor e do artista na sociedade, havemos também de encontrar na escassa produção ficcional e poética uma escrita marcada pelo rigor da palavra e um respirar verbal muito próprio e autónomo, basta ler, para o verificarmos, os seus poemas do Novo Cancioneiro, o Dia Cinzento e Outros Contos, ou ainda Terceira Idade, um certo olhar definitivo de despedida.
A propósito das comemorações do centenário do seu nascimento, que estão a decorrer, António Guerreiro publicou um excelente texto no "Público" sobre Mário Dionísio em que lembra aspectos fundamentais da biografia criadora do autor de A Paleta e o Mundo, designadamente a importância para a história da literatura portuguesa da célebre polémica sobre o conteúdo e a forma, e sobre os horizontes do neo-realismo, em que o próprio Cunhal também interveio. Como assinalou Guerreiro, no texto citado, "desde o início, Mário Dionísio parece introduzir complexidade onde as coisas, medidas por uma ideologia, tendiam a apresentar-se com uma esquemática simplicidade".
Podemos dizer que a questão da liberdade foi sempre a chave que em Mário Dionísio abriu as portas da actividade criadora, condição que Jorge de Sena (O Dogma da Trindade Poética (Rimbaud) e Outros Ensaios), também clarifica ao lembrar que "todos os grandes poetas mostram, na sua poesia, uma ou mais interpretações do mundo, isto é, um ou mais aspectos de uma compreensão geral da realidade", pelo que "a pureza de uma poesia é função dos seus graus de liberdade no mundo" e "tanto mais pura será quanto mais liberta, quanto mais reconhece a realidade plena e aceitar, até na repulsa e no ódio, a existência da própria angústia em face da realidade."
Quer-me parecer que estes sublinhados de Sena se enquadram perfeitamente na matéria de inquietação que foi a percepção de Mário Dionísio (e ele também foi um notável pintor) sobre o acto de criação na forma mais plena que o conceito abarca. Essa forma de olhar o mundo da arte está bem nítida na obra monumental que é A Paleta e o Mundo, referência do ensaísmo português (infelizmente muito ausente!), onde se aprende a olhar a pintura como fenómeno total, e, sobretudo, a abrir o espírito a todas as correntes estéticas para se poder interiorizar a emoção estética surpreendente quando ficamos face aos quadros dos grandes pintores universais.
Nunca esquecerei o que aprendi na leitura de Mário Dionísio, comecei por dizer no início, e confesso que é um autor que tenho sempre à altura da mão. Ainda agora me caiu sobre os olhos um poema biográfico de Terceira Idade, que eu gosto de reler, para que a memória não seja totalmente rasurada em Portugal. Um poema a que Mário Dionísio colocou uma espécie de epígrafe que diz (para um remorso colectivo):

Retrato de frente e de perfil
sob os chicotes da luz branca dos tormentos
muitos anos antes ou só meses
de haver no calendário o mês de Abril
Nome       Cor    e     Nacionalidade
Residência
se já a tinham nos ficheiros
Valores apreendidos     Documentos
falsos ou verdadeiros
Quando e onde foi preso quantas vezes
por defender a liberdade
por querer a total independência
do país e direitos iguais
para todos os portugueses
por resistir e por lutar
organizado e organizar
a raiva dos humilhados
Punido por gritar
Punido por calar
Punido por cantar
Punido por recusar
assinar o que não disse.     Transferência
de prisão em prisão     Reincidência
E quanto ao mais
silêncio      Nada sobre o que sofreu
com os dentes cerrados
de pé em alçapões e à mercê
de monstros profissionais
Em letras gordas "Faleceu"
sem se dizer como nem porquê.

Mário Dionísio.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A ILHA ENCANTADA (S. MIGUEL, AÇORES), NOTAS DE VIAGEM

Talvez nenhum outro lugar, como os Açores, provoque tanto sentimento de exaltação face à exuberância da paisagem. Foi decerto isso que tocou o olhar de Raul Brandão que, em As Ilhas Desconhecidas, exprime uma identificação tão funda com a natureza, com a dimensão telúrica e as árvores e com o mar -- ou não fosse ele o autor de Os Pescadores --, que parece estar sempre confrontado com um "deus desconhecido", numa ligação física à terra, pródiga em oferendas de beleza e emoções estéticas.

Andei por S. Miguel alguns dias, guiado pelas palavras de Raul Brandão, que ali esteve no Verão de 1924, ocasionalmente com Vitorino Nemésio. Os seus olhos colheram tantos prodígios que o Mestre ficou atónito e deslumbrado, confessando: "Pela primeira vez na vida não sei descrever o que vejo e o que sinto". Também esse sentimento porventura me tocou de forma sensível, sabe-se lá se por influência de Brandão, que andei uns dias garimpando nos prazeres da memória, onde tinha arquivado as sensações, indo depois ao encontro de notas fragmentárias de viagem, para a tentativa de uma narrativa pessoal, como todas as que falam de experiências viajeiras e são por natureza íntimas, como é condição do memorialismo.

É verdade que nestas navegações tive sempre comigo a cartografia telefónica do querido António Valdemar que, da história à gastronomia, é autêntica enciclopédia viva dos Açores e designadamente sobre S. Miguel, a sua Ilha. No bornal, levava também, além de Raul Brandão, poesia de Vitorino Nemésio (não consegui O Corsário das Ilhas). Aliás, estranha coincidência foi não ter encontrado nas livrarias de Ponta Delgada um único livro do autor de "Mau Tempo no Canal". A resposta era sempre a mesma: "Não há!". Alguém me disse, com uma ponta de ironia: "Ele é da Terceira e já se vê..."
De qualquer forma, reli o Tabuchi de A Mulher de Porto Pim e o Cristóvão de Aguiar de A Raiz Comovida ou Açores - O Segredo das Ilhas de João de Melo. Pude ler o registo de antropologia cultural de António Valdemar, que é o seu texto sobre "Os escritores de Ponta Delgada", onde explica como a cidade se fez a si própria, desde que Gaspar Fructuoso, no século XVI, a identificou como "solitário ermo, saudoso lugar e pobre aldeia" (informação de AV). Anotei também a percepção sábia de J. Leite de Vasconcelos, quando, em Maio de 1924, visitou os Açores e viu na tipologia do Arquipélago,  através da escrita de "Mês de Sonho", um verdadeiro "laboratório de Portugal", pois o povoamento a partir do zero, ensinou ele, foi construído por "múltiplas gentes", incluindo beirões, que semearam ali muitas das linhas identitárias, incluindo os falares.
Também a mim me tocaram a "irrealidade" que se desprende das coisas, o carácter amável do povo e a "alma das paisagens" (verdes e azúis, azúis e verdes), que se registam a cada passo, sensações que se podem colher avulso nos jardins de Ponta Delgada, como no Jardim Botânico (José do Canto), com a monumentalidade das suas árvores, onde se descobre uma certa exuberância intocável, que me levou a escrever:

Jardim Botânico

Tanto verde à minha volta:
doem-me os olhos
de esperança.

De onde quer que se olhe, subamos aos picos ou andemos à roda, é sempre o mar que baila no nosso olhar (Nemésio: "Ilha: esfinge no meio do mar") cenário de uma aventura intemporal de pescadores e baleeiros, o mar sempre como destino de partidas e de chegadas: cada terra tem o seu cais repleto de saudades reais ou imaginárias diluídas em sonhos desmedidos de ir e voltar. Esse desafio aos limites que o mar profundo impõe é uma presença no fio da história açoriana.

Mas estou em S. Miguel e o tempo é escasso para fazer o inventário dos prodígios, onde ao património natural se alia a monumentalidade do património edificado -- há inúmeras igrejas e ermidas -- mas bastará citar o esplendor do barroco do Colégio dos Jesuítas -- inesquecível o Museu que é hoje o antigo Colégio, com a fantástica talha, a azulejaria e as colecções de pintura e escultura que vieram enriquecer o espaço -- ou as Igrejas de S. José ou do Santo Cristo, o barroco excessivo da antiga igreja da Misericórdia de Ribeira Grande, para só citar alguns exemplos que se cruzam com outra arquitectura monumental de raiz privada.

O que é surpreendente é que, para onde quer que se vá, a surpresa toma conta de nós, como acontece, como aconteceu, num dia esplendoroso de sol, no desdobramento da paisagem, descobrir o fascínio das Lagoas das Sete Cidades. Anotei, no caderno, porventura lembrando-me de versos de Eugénio de Andrade:


Sete Cidades

Há uma lagoa azul
ao lado outra bem verde
Qual escolher?
Melhor 
guardá-las na memória
para as não perder!

Há paisagens com gente dentro, privilégios nascidos das circunstâncias, instantes que não esquecem. Um deles: ter conhecido D. Margarida Hintze, que está ao leme do Chá Gorreana, ter conversado longamente com ela sobre essa cultura, saborear a preciosidade do chá, aprender o processo de produção da raiz até à fábrica, que é um museu único de arqueologia industrial, comportando os vários tempos até à actualidade.
Também ali esteve Raul Brandão, o que não deixa de emocionar. Tenho agora na memória o rosto de D. Margarida Hintze, sempre pontuado de sorrisos, a cordialidade da fala, o "empenho do coração" com que descreve aquele universo tão dentro da "alma" açoriana. É uma lição de história oral, conta saborosas histórias, identifica falares da Ribeira Grande (ah!, os dialectos), fala com entusiasmo de como o Chá Gorreana sobreviveu às crises, a sua dimensão actual na exportação, o fascínio dos turistas que passam a encomendar Gorreana através de porte postal. Penso nesta senhora, que semeia afectos e amizade, que tem uma biografia rica e uma história para contar. Tem uma ironia que torna a convivialidade inesquecível. Aqui, o verbo partir quer significar regresso. 

Caminhar à volta deste paraíso que é S. Miguel, olhar as paredes verdes, tão densas, que emolduram as lagoas, encher os olhos de água e cromatismo, é não pequena benção para os dias andados. A  isto acresce a biodiversidade semeada por todo o lado, as caldeiras, as árvores sem idade, a interrogação sobre o tempo que nos acompanha. Talvez a decifração esteja contida na perplexidade da Lagoa do Fogo, onde foi encontrado um fragmento de cedro que os cientistas dataram como contemporâneo das Pirâmides do Egipto!
Na topografia pelo interior da Ilha, há sempre instantes. Olhei de relance:

Silêncio

Tudo parado
em silêncio.
Na placidez do tempo
vacas suspensas 
na paisagem.

Ou a dimensão humana de um urbanismo levantado do chão. Anotei:

Ilha

Arquitectura de sobriedade:
a torre do campanário
emerge sobre os telhados
das casas.
Presença centenária
-- um vago sinal de igualdade.


Outro momento lavrado na memória: subir ao Pico do Ferro e olhar do cimo a Lagoa das Furnas. Um sol doce prateava as águas, e, lá ao longe, sempre no horizonte, o mar a acenar à vida. Descer a pique, pelo trilho do Pico do Ferro para a Lagoa das Furnas, é fazer caminho andando no fantástico. Por entre densa floresta, com árvores que se elevam para o alto ou se despenham em ravinas, a luz do sol num bailado entre os ramos, aqui e ali a vegetação abre janelas para olharmos campos verdes da cor do limão. Vai-se assim, degrau a degrau, inventados no chão, até que a Lagoa entra pelos nossos olhos dentro. Outra magia!

A mesma coisa pode ser feita na Ponta da Madrugada, onde as árvores vão a pique sobre o mar, mar que não é de verde pinho, mas de outra qualidade, fazendo adivinhar, lá ao fundo, horizontes de infinito. O olhar "azula-se de verde", como no espantoso verso de Pessoa. Para caminhar, um dia...
Algumas vezes dei comigo a ir ao encontro dos versos de Lorca do célebre "Romance Sonâmbulo" que poderiam servir para os Açores, se ele lá tivesse ido: "Verde que te quiero verde./Verde viento. Verdes ramas./El barco sobre la mar/y el caballo en la montaña." 
Essa dimensão acompanha-nos sempre e eu também a tentei descrever poeticamente, às vezes lembrando-me do Outono na Gardunha:

Ponta da Madrugada

Há não sei quantos verdes dentro do verde
Há não sei quantos azuis ao fim da tarde
Há não sei quantas praias à beira-mar
Há não sei quantos sóis que amanhecem
Há não sei quantos ventos ventando o ar
Há não sei quantos olhares que se enternecem
Há não sei quantas praças com jardim
Há não sei quantas fronteiras infinitas e sem fim

Há uma sensação verdadeiramente primordial que toca quem pisa o chão de S. Miguel. É a terra a respirar, a adivinhação do magma: o mar fecha a terra num anel de quente, quentura (estão vivas memórias do drama sísmico), há fumos brancos na verdura, águas quentes a jorrar de fontes que vão para o mar. Essa realidade é uma das mais surpreendentes e um ponto de atracção de grande relevo. No Jardim do Parque Terra Nostra, que é considerado um dos mais belos do mundo, há esse fenómeno fabuloso de quentura, num enorme lago artificial, a água a uma temperatura de 39 graus e duas saídas de grosso volume (a 50 graus ou mais) que oferecem uma natural massagem hídrica. Também anotei:

Terra Nostra

Ainda tenho nos olhos
as estrelas que
caíam na água
e iluminavam
o banho fantástico
na Terra Nostra

É a dimensão fantástica das coisas uma magia do quotidiano de S. Miguel. Às vezes, tomamos caminhos interiores na ilusão de virarmos costas ao mar, e, por momentos, olhamos vales que prolongam a montanha, pastos verdes onde passeiam vagarosas vacas, um silêncio que deve ser comum aos paraísos; mas logo, depois de uma curva, a explosão verde continua e o mar, debruado de vilas piscatórias, vem ao nosso encontro na vastidão do seu mundo. Outra anotação:

S. Miguel

Há tantas cores
na paisagem
meu amor
Há tantas flores
nos instantes
do ardor
que S.Miguel podia ser
a Ilha dos Amores.

Raul Brandão ficou maravilhado com os jardins de Ponta Delgada, agora cidade universitária e moderna. A expressão urbana afeiçoou-se à história e a monumentalidade, bem visível no núcleo das Portas da Cidade e da belíssima igreja matriz, é apenas o sinal de como Ponta Delgada se fez a si própria, na sua caminhada temporal. Há muitas referências a Antero de Quental e também eu andei à volta dos passos da biografia, escrutinando os lugares, da topografia do suicídio ao seu espaço de repouso no cemitério.
Na praça, paredes meias com o Convento onde está o Santo Cristo e bem perto da igreja deS. José, está um simples banco, aquele em que Antero se suicidou. O banco está vazio: há uma rasura total sobre o acontecimento. António Tabuchi, em A Mulher de Porto Pim, tem um capítulo, "Antero de Quental, uma vida", em que reconstitui os últimos passos do poeta, que eu também percorri. Leio em voz alta:

"...Na manhã de onze de Setembro de 1891saiu da sua casa de Ponta Delgada, desceu a pé a íngreme rua cheia de sombra até à Igreja Matriz e entrou numa pequena espingardaria de esquina. Vestia um fato preto e sobre a camisa branca trazia uma gravata presa a um alfinete com uma concha. O proprietário era um homem amável e gordo que gostava de cães e de gravuras antigas. Uma ventoinha de latão girava lentamente no tecto. O armeiro mostrou ao cliente uma bela gravura seiscentista, comprada recentemente, que representava uma matilha de cães perseguindo um veado. O velho comerciante tinha sido amigo de seu pai, e Antero lembrava-se de que, em menino, os dois homens o levavam com eles à feira de Caloura, onde havia os mais belos cavalos de S. Miguel. Ficaram longamente a falar de cães e de cavalos, depois Antero comprou um pequeno revólver de cano curto. Quando saiu da loja o campanário da Matriz estava a bater as onze. Percorreu lentamente toda a beira-mar até à capitania do porto e demorou-se no cais a olhar para os veleiros. Depois atravessou a zona ribeirinha e entrou na Praça da Esperança, rodeada de magros plátanos. O sol queimava e tudo estava branco. A praça encontrava-se deserta àquela hora, por causa do enorme calor. Um burro triste, preso à argola de um muro, deixava pender a cabeça. Enquanto atravessava a praça, Antero ouviu uma música. Parou e voltou-se. Na esquina oposta, à sombra de um plátano, estava um vagabundo a tocar um realejo. O vagabundo fez-lhe sinal e Antero foi até lá. Era um cigano magro e tinha um macaco ao ombro, era um pequeno ser de focinho irónico e triste e vestia um uniforme vermelho de botões dourados. Antero reconheceu o macaco do seu sonho e compreendeu quem era. O animal estendeu-lhe a minúscula mão negra e Antero deixou cair nela uma moeda. Em troca, o animal tirou à sorte um papelinho colorido de entre os vários que o cigano trazia enfiados na fita do chapéu e estendeu-lho. Antero pegou nele e leu-o. Atravessou a praça e sentou-se num banco junto do fresco muro do Convento da Esperança, onde havia uma âncora azul pintada na cal. Tirou o revólver do bolso, levou-o à boca e premiu o gatilho. Teve um momento de espanto ao continuar a ver a praça, as árvores, o cintilar do mar e o cigano que tocava realejo. Sentiu um fio morno que lhe escorria pelo pescoço. Accionou o mecanismo do revólver e fez fogo pela segunda vez. Então o cigano desapareceu com a paisagem e os sinos da Matriz começaram a tocar o meio-dia."

Olho uma última vez o banco onde Antero se suicidou e no meu caderno anoto:

Antero

No banco onde Quental
disparou para morrer
podia sentar-se Portugal
sempre com o futuro a haver.
Falta lá talvez a estátua
como a do Pessoa na Brasileira
em vez da chávena de café
do chapéu e da cadeira
as barbas o rosto triste do Antero
e o revólver de balas certeiras
numa mão para
pôr fim à angústia da sua solidão
e ao tédio que envenena o coração
-- receita antiga para o mito
ou destino tangente a uma pátria
doente e sem remédio.

Se cada viagem é um regresso, S. Miguel nunca é uma despedida. A Ilha fica dentro da gente. Só apetece murmurar os versos de Vergílio: "estendido e mudo/em honra da beleza/estava o mar".
O mar, sempre o mar.