sexta-feira, 11 de novembro de 2016

LEONARD COHEN: UMA VIDA DE VERSOS E CANÇÕES


Quando chegou a notícia da morte de Leonard Cohen, fui ouvir as suas canções, abraçar-me a elas, numa espécie de tributo de vida, como se tivesse de experimentar a certeza da sua intemporalidade, da presença no tempo da sua poesia e da sua música. Apeteceu-me, subitamente, ter à mão, os velhos vinis, quando a voz de Leonard Cohen se tornou comum, desde que, em 1967, com Songs of Leonard Cohen, a sua presença tão íntima, tão carregada de sensibilidade e enraizada num lirismo saído das emoções sentimentais do quotidiano, se tornou companheira de jornada. Gostava, se os tivesse à mão, e lembrei-me logo do extraordinário álbum que intitulou Canções de Amor e Ódio, de os tocar materialmente, regressando a gestos mil vezes repetidos, quando fechávamos os olhos imaginando, no país soturno e triste, feito de grades, outros continentes de liberdade e de pura criação.
A raiz poética de Cohen, ainda antes de levar para as canções a sua arte poética, que alguns filiam em Ginsberg ou O'Hara, conferiu-lhe essa singularidade profunda, como ser da palavra, que haveria de marcar toda a sua obra. Se é um lugar comum, que seja, mas a verdade é que Leonard Cohen, que escreveu meia dúzia de livros, sobretudo poesia, mas também um romance. Poeta, como Bob Dylan, com outra fundura e outra transcendência, deu expressão maior a essa comunhão com os versos, quando quis homenagear Federico Garcia Lorca, poeta que amava sobre todos, com o álbum Poetas em Nova Iorque, em 1986, é figura relevante da música contemporânea.
O seu universo criador é muito vasto e nele se incluem canções inesquecíveis, que tocam fundo o nosso coração e jamais deixarão indiferente quem as ouvir. À sua dimensão poética, emprestou o timbre único da sua voz, que se foi modelando com os anos, mas parecia ganhar renovada autenticidade, mesmo quando cantava as primeiras canções, com uma marca de renovação pura e límpida, como a água, que se torna surpreendente, também, em Old Ideas (2012) ou Popular Problems (2014), e, até, no seu último disco, de há meses, You Want It Darkner, uma espécie de testemunho final em que o poeta volta a surgir no seu confronto com a morte.
Estou a vê-lo, há anos, em Lisboa, num Pavilhão Atlântico a abarrotar, exercitando uma liturgia feita de silêncios e de aplausos exaltantes, às vezes Cohen convocava a multidão a fazer coro com ele, nas canções mais emblemáticas. Ele e a sua circunstância: o chapéu e uma postura que enchia o palco. E estou a ouvir a sua voz em canções de sempre: Suzanne, Bird in Wire, Hallelujah, Dance Me To The End of Love, Show Me The Place, So Long, Mariane. 
Nessas e noutras canções - a sua discografia é extensíssima - está a sua biografia. Uma história feita de versos e de música, a síntese porventura do que ele disse um dia: "o amor não tem cura, mas é a única cura para todos os males".
Oiçamo-lo para o fazer viver. So long, Leonard Cohen!





quarta-feira, 9 de novembro de 2016

AS NUVENS E O REPOUSO DE DEUS

No outro dia, escrevi aqui que a imprevisibilidade do Outono era um dos seus fascínios. Essa ideia voltou a poisar no pensamento quando um dia destes subimos à Serra e, lá no alto, as nuvens pareciam abraçar-nos para fingirmos que estávamos mais perto do céu. Elas caminham no espaço, às vezes fazem lembrar os versos de António Machado: "Eu vou sonhando caminhos da tarde", numa coreografia que é feita de bailados inesperados e de transfigurações no espaço: ora se transformam em mares interiores com ondas de espuma branca, muito branca, ora se tornam esculturas de rostos de mulheres, de cavalos à desfilada ou de leões, sabemos lá, de touros sem toureiros ou de fragmentos da natureza. Coisas que só cada um vê nas nuvens moventes, à medida da sua imaginação. Isso acontece, sobretudo, quando o céu está azul, de um azul marinho e intenso, e as nuvens flutuam sopradas pelo vento ou pela suave brisa, se o dia estiver de feição. Quando o horizonte anuncia chuva ou tempestade, ficam carrancudas, sem graça, escurecem quanto há escurecer e pesam sobre nós, quando pomos o nariz no ar. Mas ainda assim são surpreendentes as suas figurações.
De qualquer forma, as nuvens fascinam-me, gosto desse exercício de liberdade que é olhar para elas imaginando desenhos momentâneos ou pinturas que logo desaparecem ao golpe súbito de outro olhar. Há muita cenografia no céu, penso eu, enquanto as olho. Talvez por isso o livro do José Manuel Castanheira, Desenhar Nuvens, tenha despertado em mim enorme prazer quando o Zé me pediu que o prefaciasse e o fosse apresentar ao Instituto Italiano, em Lisboa. É antigo este apelo das nuvens, Há mais de dezasseis anos, também escrevi sobre elas um texto que incluí no segundo volume de Crónica do País Relativo - Portugal, Minha Questão, de que agora aqui quero deixar registo.
O texto intitulava-se O Repouso de Deus e era assim:

"Li algures, numa crónica, que Heine, o poeta, contara um dia que Deus, tendo trabalhado seis dias na criação do mundo, chegou ao sétimo dia cansado. Então, chamou Goethe - e pediu-lhe: "Agora, cria tu as nuvens!" Goethe deve ter inventado bons desenhos para o céu. Mas a história pode levar-nos a perceber que o horizonte que olhamos, às vezes com a brevidade de um traço ou de um segundo, apenas, contém sempre ocultas virtualidades, que apenas esperam o gesto de um olhar.
Não sei se Deus deu total liberdade ao poeta alemão para riscar o céu - que isto da criação tem as suas fronteiras -, mas a verdade é que as nuvens, mesmo em tempo de trovoada, quando a neve do céu são raios de luz, oferecem-nos sempre matéria de espanto para os olhos. É tudo muito rápido: as imagens estão sempre em lenta combustão. Penso, então, que o poeta não se confinou ao céu e desceu à terra para a invenção dos dias claros, paisagens soberbas que se agarram à memória. O sol que muda as cores das cidades, o rio que as abraça, os bosques verdes que ajudam a respirar, os grandes lagos que acolhem uma alegre fauna e são uma brisa marítima para os olhos. Instantes. Continentes e mundos de diversidade, horizontes singulares de beleza, a terra, o espaço, o tempo. Tudo ao alcance do olhar, às vezes à beira nossa, outros infinitos inalcançáveis que alimentam utopias. Mas quando a memória arquiva  um desses prodígios naturais apetece-nos regressar à história de Heine e segredar-lhe, de mansinho, que foi bom Deus ter repousado."

Nuvens. Olho-as, outra vez, no fim de tarde que cai. Lá estão elas em movimento. Há um risco ténue de um avião numa ligeira aberta onde o sol espreita envergonhado. As nuvens caminham até que a noite torne o céu uno. Estão baixas as montanhas voadoras. Hoje, de certeza, não veremos estrelas no céu.

O TEMPO DOS TRUMPS

God bless América...
Também  esta não foi a madrugada que eu esperava. A vitória de Trump, a sua eleição como Presidente dos EUA, é a síntese de um conjunto de sentimentos primários utilizados como boomerang contra um poder de que, afinal, o arauto populista e cavaleiro do passado, também faz parte. É, também, um certo esgotamento da ideia de que as dinastias na política podem eternizar-se. E a verificação que continuamos a olhar a América de uma forma mítica que, em larga medida, está muito longe da espantosa realidade das coisas.
Miguel Esteves Cardoso, leitor voraz da imprensa americana, escreve hoje que a vitória de Trump é a derrota dos meios de comunicação social dos EUA e da Europa. Ele explica que "as nossas sondagens e opiniões -- incluindo as minhas -- não só se enganaram redondamente como contribuiram para criar um perigoso unanimismo que fez correr uma cortina de fumo digno dos propagandistas oficiais dos Estados totalitários." Daí, sublinha MEC, "a eleição de Donald Trump foi uma vitória da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social."  E acrescenta: "Não é Trump que tem de dar a volta. Somos nós. Trump ganhou porque foi eleito. Nós perdemos porque fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos e pelo excesso de zelo com que perseguimos a vitória de Hillary Clinton."
Uma análise curiosa sobre  a hecatombe dos democratas é a que Francisco Louçã que exprime uma perplexidade: "como é que a política no país mais poderoso do planeta chegou a isto? Um candidato mobiliza uma grande parte do país com a ideia de prender a adversária, expulsar milhões de pessoas, melhorar os impostos sobre os ricos e insultar as mulheres, será isto extravagante ou normal?"
Para Louçã, o quadro é o seguinte: "Desde meados do século passado que não víamos nada parecido e o que mudou é o esgotamento da globalização amável. Crescimento lento com elevado desemprego, salários rebaixados e fim da imagem do progresso social, conjugado com impotência democrática nos países em que a política é dominada por factores extra-muros, é esse cocktail que desarticula as sociedades. Para os pobres não há solução nenhuma. E a sua degradação social é o resultado de um sucesso e não de um fracasso: a globalização realmente existente, a liberalização dos movimentos de capitais, alimentou uma promessa, tudo para todos, e, ao impor-se, cobrou o preço, menos que nada para muitos e tudo para alguns."
Francisco Louçã quantifica o contexto para explicar o comportamento político dos americanos: "Há duas grandes consequências dessa globalização destruidora. A primeira foi assinalada pelo New York Times é a desconfiança em relação aos sistemas políticos. Afinal, diz o jornal, Trump tem algo em comum com a primeira campanha presidencial de Obama, em 2008, quando venceu Hillary Clinton nas primárias. O ponto seria a desconfiança face a Washington, o centro de todas as intrigas. Nestas eleições, apesar de Trump ser o multimilionário que enriqueceu com a especulação imobiliária e sem pagar impostos, é Clinton quem aparece como a voz de Wall Street, enquanto o republicano denuncia o “sistema” que permitiria todos os perigos, da imigração ao crime. Mera demagogia no estado puro, o facto é que tem sucesso, que pode ser medido pelo facto espantoso de as grosserias do candidato jogarem sempre a seu favor.
A segunda consequência radicaliza uma evolução anterior. Ao longo dos últimos 15 anos, os republicanos têm preponderado entre os eleitores brancos sem formação universitária, os mais pobres, o maior contingente eleitoral nos EUA. Entre esses, Trump arrasará com 59% a 30% de Clinton, segundo as sondagens. O anterior candidato republicano, Romney, já ganhou a Obama por 57% a 35% nessa fatia eleitoral, mas, ao aumentar esta diferença de 22% para uma vantagem espantosa de 30%, Trump poderia assegurar a vitória se assim anulasse a diferença nos outros eleitorados (entre os brancos com formação universitária, Clinton poderia ter 47% contra 43%,  entre os hispânicos 75% a 20% e entre os negros 82% a 6%). A dúvida é se esta parte da população vota em número suficiente, dado que a sua participação tem vindo a decrescer. Assim sendo, a estratégia eleitoral de Trump faz sentido: ele só poderia ganhar com os votos dos desesperados e é para eles que fala. Essa parte do país despreza Washington, imagina um passado perdido e espera agora um aurora redentora, o que Trump representa na sua pose pomposa. A violência do discurso serve este único propósito, mobilizar os esperam um super-herói para bombardear os seus males."
Louçã volta a questionar: "É isto extravagante, um pistoleiro à conquista da Casa Branca?" E responde:"Seria fácil de mais. Trump é uma trombeta do que vamos ter e é mesmo isso: o preço da globalização é a desagregação democrática e esta é a hora dos farsantes que se anunciam como cavaleiros do apocalipse. Teremos guerra civil no partido republicano, quer ganhe quer perca Trump, falecerão os tratados internacionais para o comércio, mas o que ficará será sempre isto: acabou a globalização feliz e abriu-se o cortinado sobre os escombros por detrás do palco. O século XXI será o tempo dos Trumps."
Não é só a América que precisa de protecção, somos nós todos.