quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ANTÓNIO SALVADO: O OFÍCIO RIGOROSO DA PALAVRA

Amanhã, às 18 horas, na Biblioteca Eduardo Lourenço, na Guarda, Ricardo Paulouro apresenta o último livro de poemas de António Salvado, Poemas Escolhidos,editado pela A.23 por ocasião do Doutoramento Honoris Causa atribuído recentemente ao poeta pela Universidade da Beira Interior. É uma belíssima edição. Uma antologia que cobre produção poética realizada entre 1955 e 2016, que resulta de uma primeira selecção feita pelo autor. 
É, pois, um livro muito especial que reflecte uma parte importante do pessoalíssimo e original universo criador de António Salvado. Margarida Gil dos Reis, numa nota introdutória, assinala que "ao longo de seis décadas, António Salvado sagrou-se à poesia vendo nela uma espécie de redenção, uma "voz absoluta escutada" que coabita no poeta com a tensão proveniente da noite, da efemeridade da vida, da morte" para logo acrescentar: "O encanto desta poesia reside na forma como suscita no leitor emoções tão vivas que o transportam para paisagens repletas de cheiros, terra, frutos, povoadas de presenças corporais que quase parecem tornar a língua maleável". 
É uma boa síntese sobre o labor poético de António Salvado, poeta a que me ligam laços fundos de amizade e companheirismo. Eu próprio tenho escrito muito à volta da sua obra e da sua biografia feita de versos e de uma acção cultural multímoda. Em 2014, falando dele, em Castelo Branco, a propósito da publicação de Ecos do Trajecto seguido de Passo a Passo, também editado pela A.23, expliquei que "celebrar a obra e a poesia de António Salvado é um puro reencontro com o dia claro, um aceno à alegria dos instantes, a reafirmação de um tempo em que a humanidade triunfa sobre todos os desígnios do mal. Porque a sua obra poética é um espaço em que se configura esse compromisso de felicidade, através do belo e do amor, essa visão de uma natureza em que a plenitude elemental da realidade telúrica, que é o mundo que abarca o seu olhar, é um incessante louvor de vida, que se sobrepõe sempre às nuvens negras dos dias, e tudo isso na síntese maior que o amor ocupa na sua arte poética.
Esse universo poético, feito de tantas diversidades, é o percurso de uma biografia singular sobre a qual me tenho debruçado, muitas vezes, sempre ganhando no prazer da sua leitura, que contém tantas virtualidades culturais, novos continentes do saber. De muitas coisas que escrevi sobre António Salvado, gosto particularmente de reler algumas palavras que vão ao encontro daqueles retratíssimos de que falava Herberto Hélder (seu amigo e companheiro no início da aventura poética) quando queria trazer à superfície da sua poesia linear, dizia ele, “a narrativa de um homem”. Então, há alguns anos, escrevi o que pretendia ser a articulação do meu querido Poeta com o lugar primordial da Beira na sua poesia, e, ao mesmo tempo, descobrir de que forma se traduzia o compromisso ontológico do autor com a palavra. 
No fundo, procedi a uma revisitação do lavrar de palavras de António Salvado, no seu longo ofício de paciência de recriação da língua, em busca desse destino, que outro amigo, Eugénio de Andrade dizia materializável “quando o ser da luz for/o ser da palavra”. Assinalei nessa altura: "Já retratei, por mais de uma vez, o que significa esse labor na poesia portuguesa do nosso tempo e o que a consubstancia como aventura criadora única que ilumina os dias. Vou à procura de palavras antigas, como se estivesse a ver António Salvado, ele e a sua solidão, na densa circunstância de poetar. Palavras minhas a páginas tantas: … António Salvado soube resistir à contingência da “província” (no que este conceito tem de arqueologia mental persistente na sociedade portuguesa), soube pensar o país de dentro para fora, e ter a suprema ousadia -- nunca perdoada -- de fazer coisas, promover a cultura dentro de uma cidade e de uma região, num território onde o pensamento, não poucas vezes, vive exilado. Muitos fingiram ignorar o seu trabalho, alguns olharam de viés a sua obra. Salvado resistiu a tudo. Se a poesia é o lugar da realização do ser pela palavra, é nesse universo criador onde se unem os dias (Kaváfis) e se aquecem os corações fraternos (Vicente Aleixandre) que encontramos uma biografia feita de versos, que é a vida de António Salvado. A fidelidade a um compromisso com o homem e com as raízes fisicamente próximas, eis o chão verbal dos seus versos: registo telúrico, espaços de maternas águas, terra de flores e oferendas corporais, que ardem nos instantes, “coração da vida a latejar.” "A poesia de António Salvado é essa mesa farta para o pensamento, povoada de cheiros, paisagens, rostos, mãos, sol, terra e pedras, neve, frutos e giestas, enseada onde se acolhem inquietações (“pouso a minha ansiedade no pilar da noite”, outro verso de Salvado), mas onde também se aquece o corpo do coração (que nunca é inacabado) de uma escrita que é um lugar primordial de humanidade. É, pois, no país dos seus versos (tantos títulos, milhares de páginas) que a sua biografia se dissolve, num ofício rigoroso de palavras, na configuração clássica de uma cultura a pensar na universalidade, num poetar que, como diria Drummond, “é uma luta com as palavras, mal rompe a manhã”. Face à sua poesia, poderíamos afinal dizer com António Ramos Rosa que ela reflecte “a inscrição do mundo nela e reciprocamente a sua inscrição no mundo” pois esta relação arterial, penso eu, faz parte da sua essência".
Palavras que aqui deixo para lhe dar um abraço.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O TRIUNFO DOS MEDÍOCRES

Há estigmas na sociedade portuguesa que parecem eternos. Do fundo do tempo chegam-nos notícias das "dificuldades que tem um reino velho para emendar-se", como escreveu Ribeiro Sanches. No outro dia, um amigo meu queixava-se amargamente de como, em Portugal, ter mérito é, muitas vezes, perigoso. E dava exemplos do triunfo da mediocridade em múltiplas instituições ou na esfera dos poderes que se alimentam muito da partidocracia. Eu disse-lhe que já tinha escrito vezes sem conta que não ter cartãozinho do partido, era ser ladrão de si próprio... Esse meu amigo, que conhece bem essas tramóias por dentro, despediu-se da conversa com uma certeza inabalável:
-- Quem não tem padrinhos está lixado!
Vim para casa a pensar na conversa de café e lembrei-me logo do "reino cadaveroso da estupidez" ou da célebre advertência (parece que do Schiller) de que contra a estupidez até os deuses lutam em vão. A verdade é que a cultura do mérito é um epifenómeno sem impacto na sociedade portuguesa. Esse vazio é uma das razões que conduz ao triunfo da mediocridade, de sujeitos sem obra credível que trepam alegremente na escala profissional ou política. Dei comigo a reler um texto que escrevi em 1991 e poderia ser escrito hoje, pois as mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Então, na altura, verberava as clientelas e a prosa, com alguma indignação, dizia:
"Em poucos países, como em Portugal, a cunha se transformou numa instituição com tantas e tão fundas raízes. Não há nada que a supere. Nem o talento. Nem o profissionalismo. Nem a capacidade. Nem a seriedade. Quem tem cunhas trepa nas várias escalas em que se resume a vida social; quem as não tem pode muito bem ficar aviado para o resto da vidinha.
A cunha tornou-se, de tal forma, essencial à mobilidade do cidadão comum que arregimenta à sua volta verdadeiras multidões. A grande ambição, na maior parte dos casos, é estacionar no mercado de emprego, se possível à sombra do Estado. Mas aí pia mais fino! Quando essas legiões logram alcançar os patamares da política ou do Poder, necessitam antes de fazer prova da sua condição de clientes. É assim que o Poder arranja assuas clientelas. Nesses casos, é bem provável que, antes da cunha, peticionário/candidato ao lugar tenha de mudar de emblema, isto é, de clube político. Depois, feita a prova de fidelidade, abrem-se as portas do presente ou do futuro,consoante o escalão social e, às vezes, a curvatura dorsal do pretendente.
E não se trata de fenómeno novo na sociedade portuguesa, embora nos últimos anos os clientelismos tenham alastrado como a pior das marés negras. Almada Negreiros, em 1933, já detectava a cunha como um dos males endémicos da vida portuguesa. Escreveu, então, o autor de Nome de Guerra:
"Declaramos guerra ao empenho, à cunha, à apresentação, ao salamaleque, à porta travessa, à côterie, às amizades e às inemizades pessoais, e a toda essa gama de pechotice que medra  e faz medrar a marmelada nacional".
As palavras de Almada têm perfeita actualidade.

domingo, 13 de novembro de 2016

INFERNOS QUE ATORMENTAM OS DIAS


Há uma narrativa da actualidade que envenena os dias de pessimismo. Não faltam mortes e crimes contra a humanidade, que nos caem na sopa, guerras que parecem eternas na sucessão dos dias, bombardeamentos que nos fazem abrir os olhos de espanto para a banalidade dos crimes,  e, nessa fronteira em que os dramas se reproduzem e ampliam, surgem rostos de desespero, a dramática condição que é tudo menos humana. Há palavras e lugares que a todo tempo entram dentro da nossa inquietação, povoam remorsos colectivos, fugazes imagens onde, se calhar, encontramos a síntese mais funda do desespero em olhares dramáticos de crianças cansadas ou na tristeza maior que fere o coração: aqueles instantes, com o aviso prévio de que as fotos podem bulir com as pessoas sensíveis, e são meninos com os corpos destroçados, se o crime for em Alepo, ou afogados no cemitério ao sol ou ao luar das praias do Mediterrâneo. Muitas dessas imagens são absolutamente cruéis, infernos concretos para atormentarem os dias. Apetece dizer como Rimbaud: "Acredito que o inferno existe. Logo estou lá"
Pensava nas circunstâncias dessa narrativa da actualidade, que é neurose do nosso tempo, e encontrei um texto que escrevi em 91 (há quanto tempo!) em que a escrita, face à desumanidade e à indignação que a emergência do quotidiano provocava (Cavaco tinha ganho as eleições com maioria absoluta!), batia à porta da esperança. Volto hoje a esse batente porque devemos continuar a acreditar que a esperança tem sempre razão. O texto:
"Às vezes um fio de céu azul, às vezes uma mão que se abre a outra mão, às vezes uma palavra murmurada quase a medo. Um gesto apenas, uma ideia, um pensamento. Um rosto, um breve sorriso, a ternura de um afecto. Às vezes um país. Uma história desigual, o intranquilo caminhar de um povo, os dramas vividos nesse fazer e refazer da vida colectiva. Nessa tarefa de um país se procurar a si próprio, nesse dramático lavrar de séculos, a expressão épica de mil contradições, aventuras e desventuras naufragadas, quase sempre a pátria adiada que sonhamos. As angústias para o dia seguinte, sabe-se lá se para o século! Penso tudo isso, mas desvio subitamente o olhar para a esperança, esse alfabeto que alguns de nós ainda falam ou balbuciam. É uma estátua de pedra, inteira, no Jardim do Paço, em Castelo Branco, que a erosão do tempo, as guerras, as servidões, as noites mais tristes, não destruíram. Feita por operários da arte, resistiu a tudo. Ali está, intacta, vertical. Este falar de pedra, a que os anos deram mais força, é a imagem de uma grande serenidade. Como quem acena à inquietação do futuro, que é a minha perplexidade de circunstância, parece que a oiço dizer: apesar de tudo, a esperança."
Apesar de tudo, repito eu agora, pensando na esperança como reduto intocável de dignidade, espécie de pão elementar e chama que alumiou sempre o caminho dos que fizeram da vida um combate pela liberdade e pelo Homem, como medida absoluta de todas as coisas.