sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

VIDAS DESFEITAS

Estes dias frios, antecipadores de invernos, põem a nu de forma mais intensa as desigualdades e os desfavores da sorte que é o que se costuma dizer de alguém, por comodidade, quando tem a desdita de ser pobre e nessa circunstâncias gastar o peso dos dias como fatalidades do quotidiano. O frio e a fome estão no fio da navalha da vida, e, quem estiver atento ao corre-corre da cidade descobrirá facilmente os que habitualmente só têm sol de roupa e estendem a mão à fome envergonhada. Há histórias de casos limite, mas há muitos frios glaciais dentro de pessoas que passam o tempo à espera de milagres que nunca acontecem.
Foi porventura uma imagem dessas, rápida como a sombra, que surgem sempre como caricaturas da realidade, que me fez lembrar um texto que escrevi há muitos anos, que captava uma figura que surgia no inventário dos dias para remorso colectivo ou inquietação, e que incluí no segundo volume  da Crónica do País Relativo. São recordações que nunca se afastam definitivamente da memória, cuja dimensão humana lhes confere existência para lá das fronteiras. Não sei porquê -- ou talvez saiba! --, regressei à velha narrativa para lhe dar vida, outra vez. E aqui fica.

Vestida de preto, com o cheiro de séculos de servidão agarrado ao corpo, balbuciando sons de difícil entendimento ou irrompendo contra a troça da garotada, era uma mulher exposta em toda a crueza da desigualdade. Uma mulher acossada pelo tempo e pelas circunstâncias, apanhada no turbilhão da fatalidade que a uns há-de dar tudo, e a outros nada. Habitou tugúrios com os bichos, com eles dormiu e se aqueceu nas noites longas de inverno, quando o frio assaltava as frinchas e laminava a carne até aos ossos.
Confundia-se com elas, com as cabras, e dos farrapos do seu corpo elevava-se o cheiro do rebanho, como se a pobre mulher tivesse regredido na sua condição animal...
"Lá vai a Maria das cabras!", dizia-se ao seu passar, estranhando o insólito da pastora e do rebanho perdidos no barulho das ruas da cidade. Nessa transumância miserável, passava ao largo.
Morto o homem, outro pastor das ruas, parece ter ficado mais cercada pela fome, e em breve deixou de ser vista com o rebanho. Andava por aí, com os mesmos farrapos pretos, e o mesmo bedum, cada vez mais escanzelada, à procura de sol e de pão. A fome era a sua companhia, o seu drama itinerante, a sua mortificação de sempre. Andava sozinha, não era daquelas pessoas que se chegasse perto das chamadas instituições de solidariedade social.
Às vezes, via-se o que parecia ser uma mulher com a cabeça e o tronco enfiados nos contentores do lixo, à cata dos restos de comida alheia. "É a Maria das cabras!", e passava-se adiante, que o cliché há muito se tinha tornado típico. Um dia destes, numa passagem de nível sem guarda, perto do Fundão, uma mulher foi ceifada pelo comboio. Ficou desfeita, pedaços espalhados a esmo pelo local, que os bombeiros arrumaram em sacos de plástico. Esquartejada, sem rosto, não foi, apesar de tudo, difícil identificar a vítima: era a Maria das cabras. Trazia uns farrapos pretos e aquele cheiro a rebanho com séculos de pobreza.
Uma vida desfeita..., disse alguém.
E passou adiante.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

O HOMEM DO "CHAPÉU PRETO"

Morreu há dias, aos 86 anos, Arlindo de Carvalho, compositor e intérprete que levou para a música, como grande paixão, as sonoridades e os cantares da Beira Baixa. Ele próprio foi autor de canções de que o povo rapidamente se apropriou, inscrevendo-as no imaginário colectivo, como se fizessem parte do tempo. Foi assim, decerto, com "Chapéu Preto", "Fadinho Serrano", "Comboio da Beira Baixa" e muitas outras. Grandes intérpretes, como Amália, ou músicos como Júlio Pereira, e tantos outros, deram expressão a composições suas.
Arlindo Carvalho era um amigo. Estou a vê-lo, sempre com aquele seu jeito de camponês exilado, vir ao meu encontro no JF para me falar dos seus projectos, para me levar as suas edições, às vezes para me mostrar que cantava poetas de primeira água, que tinham escrito para ele, como Nuno Júdice.
O antigo professor primário, que se fez músico e aprendeu a cantar no Coro de Lopes Graça, que foi para Paris aprender novas coisas no Conservatório de Poitiers e ser leitor de português no liceu, tinha, de facto, a Soalheira, onde nasceu, e a Beira Baixa, no coração, e essa fidelidades à raiz originária fortaleceu-a com o tempo. Era parte inteira desse universo e não admira que tivesse criado, em 1999, na sua Soalheira, um Coro de mulheres, que foi elemento de auto-estima para a população local. Regeu o Coro enquanto pôde e contaram-me que, estando a residir em Lisboa, se metia no combóio duas vezes por semana, para ensaiar essas cantoras saídas do povo. E foi assim até que a saúde o permitiu!
O Arlindo Carvalho era, também, um homem bom, sempre disponível para participar nas iniciativas que pudessem valorizar a região. Castelo Branco prestou-lhe uma grande homenagem e o Fundão também lhe fez tributo de merecida gratidão.
Partiu quando a azeitona "já está preta" e se começa "a armar aos tordos". O homem do chapéu preto partiu para a longa viagem.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

OLHAR PARA ANTIGAMENTE

Fidel com Che Guevara
A morte de Fidel é daqueles acontecimentos que extravasam sempre as fronteiras ideológicas, os calculismos da geo-política, os labirintos dos mitos, os decifradores dos oráculos da história. Será porventura isso que acontece sempre com as grandes figuras da História, que marcam o seu tempo longo, e despertam paixões e ódios precisamente por terem influenciado a transformação das sociedades. Agora, que Fidel partiu, afadigam-se todos a sublinhar que é figura indiscutível do século XX, como é norma acontecer na liturgia post mortem. Há sempre, na contingência do desaparecimento de uma personalidade como Fidel, o exercício de uma retórica que traz consigo os panejamentos da hipocrisia.
Talvez hoje poucos olhem para antigamente para lembrar o que foi a gesta magnífica de Fidel e dos seus camaradas quando, descendo da Sierra Maestra, chegaram a La Habana para libertar Cuba de uma ditadura liderada por um sargento estúpido, Fulgêncio Baptista, que fizera da ilha um bordel, realidade e metáfora de um sub-mundo de infra-humanidades, dominado pelos Estados Unidos da América e os padrinhos da Mafia. Aquela entrada dos guerrilheiros em Havana (quem pode esquecer os rostos barbudos de Fidel, de Guevara, de Camilo Cienfuegos?) olhos claros de uma Revolução a que chamaram romântica foi, naquele ano distante de 1958, uma fortíssima pedrada no charco do imobilismo planetário da guerra-fria e na fatalidade que era o próprio labirinto da História. E a esperança vivida de que afinal era possível e real uma dialéctica da mudança.
Essa nova qualidade de Cuba transformou a revolução cubana num abcesso de mudança, num desafio insuportável para os EUA, num exemplo que era preciso extirpar da face da Terra. Não é linear a evolução do regime cubano, mas as circunstâncias geo-estratégicas moldaram muito o caminhar de futuro de Cuba. Todavia, a pátria de José Marti, de que Fidel se fez tributário, não pode ser olhada apenas como refém da União Soviética. A ser assim, Cuba não teria tido a influência que teve, como voz autónoma na América Latina e no Mundo, nem tinha inscrito como urgência da sua acção "exportar a revolução", no mundo do equilíbrio instável da guerra-fria, que impunha, desde Yalta, um status quo de imobilidade baseado na velha consigna de que, quando não se sabe o futuro, é melhor deixar tudo na mesma.
Olho agora, outra vez, para a iconografia de Fidel, sei que muitas vezes discordei das incompatibilidades da revolução com as liberdades individuais, mas sei também as enormes mudanças sociais, designadamente as operadas na Educação e na Saúde, que até os seus maiores detractores reconhecem, e sei sobretudo que estive sempre contra o sórdido bloqueio dos EUA a Cuba, tantas vezes condenado pela ONU, que constitui (se calhar como a intervenção no Chile) das operações mais sórdidas da política internacional no século XX, depois do pós-guerra.
Fidel venceu todos os cercos e bloqueios, resistiu a todas as tentativas de assassinato, influenciou o mundo à sua escala. Ninguém pode beliscar a sua coerência, a sua firmeza política ou dimensão internacionalista e o seu sentido nacional de independência, num mundo que a foi perdendo de todo. Era como se Cuba e os cubanos estivessem, depois de Fidel, fora da metáfora caracterizadora da América Latina e da República Dominicana: coitados, tão longe de Deus e tão perto dos EUA! É que há um sentido de dignidade que Fidel trouxe a Cuba e se inscreveu rapidamente na memória colectiva do povo, sobrepondo-se às maiores insuficiências do quotidiano.
Fidel sobreviveu a mais de 300 tentativas de assassinato, promovidas pela CIA. O "El Pais" contou há tempos uma saborosa história que mostra bem o carácter demencial do ódio americano ao líder cubano. Segundo John Pearson, biógrafo de Ian Fleming, o criador de OO7, James Bond, teve um almoço histórico com um alto responsável da CIA. Especialista na ficção em espionagem, queriam os homens da CIA saber a melhor forma de liquidar Castro. O novelista disse aquilo que considerou uma anedota: deu a entender que a melhor forma de derrotar Fidel era pô-lo a ridículo. A CIA levou à letra o chiste de Fleming: se acabassem as barbas dos barbudos, acabaria a revolução... Os laboratórios da CIA inventaram uns pós que se colocavam nos sapatos para fazer cair todos os pelos do corpo. Mas não encontraram ninguém que os pusesse dentro das botas de Fidel. Faltou-lhes um James Bond...
Com Gabriel Garcia Marquez
Perdurarão por muito tempo a capacidade oratória de Fidel, o seu gosto pela conversa longa durante a noite. Uma vez, o seu grande amigo, Gabriel Garcia Marquez escreveu sobre ele assinalando que "a sua devoção pela palavra era quase mágica: três horas são para ele uma boa média para uma conversa comum, e, de três em três horas, os dias passam por ele como sopros". O escritor venezuelano Alfredo Echenique escreveu nas suas Antimemórias uma história no tempo em que Gabo teve uma casa em Havana, próxima da residência de Castro, que o "El Pais" também recordou: "Essa noite em casa de Gabo esperávamos sem dúvida Fidel, que podia aparecer quando menos se esperava, ou seja, a cada instante e ficava horas a descansar conversando, mostrando o seu rosto mais íntimo e a sua solidão de mil anos, durante umas horas em que preferira não descansar dormindo. Fazia-se primeiro um silêncio espectacular, de espectáculo, e ouvia-se até o ruído do ar e desse silêncio. Então aparecia Fidel, e todos felizes, menos Gabo, que amiúde punha cara de "estamos fodidos, esta noite já ninguém dorme aqui". E ninguém dormia, de facto, até que Fidel, pelas seis da manhã, olhava o seu relógio e soltava o seu eterno "eu creio que todos temos um pouquito que fazer esta manhã". Era quando terminava a sessão e voltava a escutar-se o ruído que faz o silêncio e essa leve brisa de timidíssimo vendaval".
Fidel: olho outra vez para antigamente e prefiro lembrar-me das imagens dos guerrilheiros descendo da Sierra Maestra, com as suas barbas, os seus sorrisos na festa com o povo, os olhos repletos de claridade.