quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

BRASIL, BRASIL!

No retrocesso social (ou civilizacional?) que o Brasil está vivendo, com o assalto ao Poder de sujeitos pouco recomendáveis, levanta-se o clamor da indignação. A minha querida Alexandra Lucas Coelho, que está lá e conhece profundamente a realidade brasileira, escrevia na sua última crónica, publicada no "Público", este retrato: "Brasil fora, há umas mil escolas ocupadas por estudantes em luta contra a anunciada reforma do ensino e a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que congela gastos públicos por 20 anos, incluindo educação. Dá trabalho ocupar uma escola, trabalho inédito, mais fácil dormir na praia, frente a algum ecrã. Mas esta geração é inédita mesmo. Gente inédita para um tempo inédito. Trabalho diário e frustração diária. Não é mole, não".
No Brasil, contra "o reino da estupidez", a indignação cresce e reproduz-se.

A MATERNA CASA DA POESIA EM PARIS


No próximo sábado, dia 10, às 18 horas, estarei na Casa de Portugal (Residência André de Gouveia), em Paris, na Cidade Universitária, para participar na apresentação de A Materna Casa da Poesia. Sobre Eugénio de Andrade. Trata-se da segunda edição, revista e ampliada com novos capítulos, de um livro que se encontrava esgotado. A organização é da Casa de Portugal e fica a dever-se ao interesse e entusiasmo com que a directora, a dr.ª Ana Paixão, que à frente da instituição tem realizado uma acção cultural notável, abraçou o projecto. Outro nome imprescindível, militante de portugalidade e de amizade, é o de Abílio Laceiras inexcedível no apoio à iniciativa.
A sessão será, do meu ponto de vista, sobretudo uma festa à volta da poesia de Eugénio de Andrade, um dos maiores poetas portugueses. E, por isso, A Materna Casa da Poesia será universo e pretexto para ouvirmos também música e poesia. José Manuel Esteves recitará poemas de Eugénio de Andrade, Adelino Pereira lerá "As Mães", na companhia das interpretações de João Costa Lourenço, ao piano.
A Materna Casa da Poesia. Sobre Eugénio de Andrade, nasceu no âmbito do projecto “Rota dos Escritores do Séc. XX”, que a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (era assim que se chamava) promoveu e que, infelizmente, ficou pelo caminho porque a cultura, em relação ao poder, é sempre subsidiária do peso do analfabetismo dos seus actores.
Para mim, escrever o ensaio, foi uma tarefa exaltante. Permitiu-me rever caminhos percorridos com o Poeta na sua geografia sentimental da Beira, cuja raiz essencial radica no seu “locus nascendi”: “Das coisas melhores que me aconteceram na vida foi ter nascido numa aldeia da Beira Baixa”, chamada Póvoa de Atalaia, “e aí – outra vez o Poeta a falar – ter passado toda a minha infância”. Esses passos pelos lugares, pelas casas, em busca das velhas oliveiras, pelos terrenos baixos de onde se olha a Gardunha, graduou-os a memória, como essenciais, e foi a esses prazeres que eu pude regressar, então e agora, para, sílaba a sílaba, edificar A Materna Casa da Poesia.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

ARNALDO SARAIVA FALA DOS ROSTOS DO CONHECIMENTO

Hoje, às 21h, tenho o honroso encargo de apresentar o Prof. Arnaldo Saraiva, que vem à Covilhã falar dos "Rostos do Conhecimento", concluindo um ciclo de conferências que a Câmara Municipal organizou. A sessão realiza-se na Associação dos Diabéticos da Serra da Estrela, no edifício que foi a Escola Frei Heitor Pinto, quando era Liceu.
Ouvir Arnaldo Saraiva é sempre o fascínio de descobrir coisas novas, alargar os horizontes do conhecimento, conversar sobre o fenómeno cultural como elemento essencial da vida. Autor de uma obra vastíssima, que cobre o ensaio, a poesia e também o cinema, a etnografia e a antropologia, premiado em Portugal e no estrangeiro pelo seu labor científico. É dele o mais importante estudo sobre o Modernismo Português e Brasileiro. Arnaldo Saraiva, que é natural do concelho da Covilhã, tem desdobrado a sua atenção pela investigação de literaturas marginais e marginalizadas, pelas vanguardas literárias, pela "literatura de cordel" portuguesa e brasileira. O Brasil tem sido, também, uma sua grande questão, passando lá grandes temporadas, realizando conferências e seminários nas mais importantes universidades. Tem, assim, prestado assinaláveis serviços a um aprofundamento concreto das relações culturais luso-brasileiras.
Nada do que é a raiz cultural da Beira (da música às festas populares) e da sua expressão identitária lhe é indiferente. Os rostos do conhecimento têm no seu saber um intérprete de grande qualidade. A sua vinda à Covilhã é um grande acontecimento cultural.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O MUNDO DE ALBANO MARTINS

Na biografia de uma obra em que a poesia é o elemento vital, outros voos essenciais definem o percurso criador de Albano Martins como autor de horizontes vastos sobre o mundo, a  arte e a escrita. Esse universo multímodo, onde avultam, para além do alimento primordial dos versos, as traduções da poesia grega clássica, de Pablo Neruda ou da poesia italiana, a que se acrescenta uma reflexão persistente sobre a problemática literária e cultural, como grandes desafios às perplexidades da condição humana.
É nesse sentido que se inscreve a publicação do terceiro volume de Circunlóquios, onde o autor reune ensaios e crónicas, alguns inéditos, dá expressão a um memorialismo onde se reflecte muita da sua afectividade e das vivências de um companheirismo muito especial com gente do mesmo ofício,como é o caso dos textos sobre António Ramos Rosa, Raul de Carvalho, Lêdo Ivo ou Cruzeiro Seixas. Circunlóquios III é igualmente importante pelas quatro entrevistas em que Albano Martins se explica, e, explicando-se, fala do seu ofício de poeta e da sua relação com o mundo.
Talvez a raiz da sua poesia esteja nas palavras que um dia escreveu assinalando a riqueza da Língua como matéria de sonho; "Quando Vergílio Ferreira, num texto emblemático, proclamou "Da minha língua vê-se o mar", podia ter acrescentado, com toda a propriedade, que dela se vê também a terra com seus montes, seus vales, seus rios, seus bosques e seus pomares". E acrescenta: "Organismo vivo, posto ao serviço de seres vivops, a língua carrega consigo os mundos todos: o visível e o invisível, o sensível e o que apenas se pressente, o audível e o inaudível. A língua é, além disso, um instrumento musical onde pulsam todas as variedades tímbricas. Ela é "tuba canora e belicosa", mas também lira, flauta, harpa celeste e violino. Nela cabem todos os sons -- todos os tons -- da escala e as suas modulações. A língua portuguesa nasceu molhada: pelo sangue derramado nas campanhas da reconquista, primeiro; pela água dos mares vencidos pelas quilhas das naus das descobertas, depois; mas também pela água das nascentes -- a água pura da "fontana fria" de que fala uma bonita cantiga de amigo de Pero Meogo que ecoa até hoje na nossa memória e permanece no nosso imaginário poético, quer dizer, no nosso tradicional  e colectivo vocabulário lírico. Julgo que a minha poesia recebeu algo dessa água lustral e que nela vibram os sons da música saída das flautas e dos violinos da sua polifónica orquestra verbal".
A tudo isso acresce a raiz funda que Albano Martins mantém à sua Beira. Eu próprio publiquei um ensaio sobre essa pertença poética. Daí que Circunlóquios III toque também nessa reserva íntima do poeta, em textos em que o autor revisita o universo originário do Telhado (onde nasceu) e da Capinha (onde frequentou a escola primária). Eu costumo dizer que há uma poesia que traduz essa fidelidade à terra, poema que Albano Martins inclui num desses textos:

Pertenço  a esta
geografia, ao lume branco
da resina, ao gume
do arado. A minha casa
é esta: um leito
de estevas e uma rosa
de caruma abrindo
no tecto do orvalho

domingo, 4 de dezembro de 2016

TRANSVERSALIDADES NO CEI

Há uma semana, subi à Guarda para participar em mais uma edição de "Transversalidades", um projecto do Centro de Estudos Ibéricos, já com sucessivas edições, este ano dedicado à "fotografia sem fronteiras". É um conjunto de iniciativas culturais notáveis, com um sentido actualizante, que se projecta para além do seu carácter de acontecimento imediato pela riqueza das exposições, pela qualidade dos debates e a sobriedade e interesse das publicações.
O Centro de Estudos Ibéricos nascido, como se sabe, de uma ideia luminosa de Eduardo Lourenço, tem no acervo documental das suas edições um contributo valiosíssimo para o conhecimento de uma realidade que vai muito para além da Ibéria e se alarga ao mundo da Iberoamérica e do Lusofonia, como mostram os prémio que o CEI já atribuiu, por exemplo, a Mia Couto e a Luís Sepúlveda ou ao investigador colombiano Jerónimo Pizarro, autor de obra referencial sobre Pessoa.
Quem quiser ter uma ideia da qualidade estética de "Transversalidades" basta ver a exposição que seleccionou as obras de cerca de setecentos concorrentes, no Teatro Municipal da Guarda, ou consultar o belíssimo catálogo que faz memória do acontecimento. Rui Jacinto caracteriza este universo de imagens como "um atlas visual do mundo" assinalando, numa citação de Sebastião Salgado, que "uma qualidade importante de fotografar é ser "uma escrita tão forte porque pode ser lida em todo o mundo sem tradução". O projecto "Transversalidades", sublinha Rui Jacinto, "como testemunha o espólio visual reproduzido nos catálogos já editados" estruturado "a partir de quatro coordenadas fundamentais -- património cultural, paisagens e biodiversidade; espaços rurais, agricultura e povoamento; cidade e processos de urbanização; cultura e sociedade; diversidade cultural e inclusão social -- coleciona um acervo documental que constitui um pequeno observatório que progride, a cada ano, para um pequeno atlas visual do mundo em mudança".
Para além destes múltiplos olhares, que nos ajudam a perceber a diversidade que nos rodeia, outras iniciativa marcaram "Transversalidades", potenciando a capacidade de observar ao desejo de imaginar o território através de "uma geografia e poética do olhar". Esta perspectiva deu origem a uma mostra que "põe em diálogo tempos e espaços que distam várias décadas e continentes: Portugal está representado por Alfredo Fernandes Martins (de quem se comemora o centenário do nascimento), José Manuel Pereira de Oliveira e Jorge Gaspar, Espanha por Valentín Cabero Dieguez e o Brasil por Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, Messias Modesto dos Passos e Rogério Haesbaert.
Assinale-se ainda a homenagem a um fotógrafo da Guarda Monteiro Gil e o lançamento do número 12 da revista Iberografias, quase trezentas páginas de excelentes temáticas.