sábado, 31 de dezembro de 2016

SÍSIFO LIBERTO

Tornou-se rotina saudar o Ano que começa, depois da memória recente fazer geralmente um inventário implacável e apressado dos acontecimentos do mundo, do país, da região, geralmente arquivados já no capítulo do pessimismo que envenena os dias que correm. Sabe-se que o mundo está cada vez mais perigoso, que o tempo dos sorrisos parece ter ficado suspenso pelas mágoas das Sírias do nosso descontentamento, que a fraternidade é um bem escasso e, por isso, mais precioso, mas apesar de tudo, como ensina de resto o caminhar da História no sentido civilizacional e do progresso, a esperança é a chama que alumia o futuro e alimenta os sonhos reais de felicidade.
Então, olhemos para a matéria solar que aquece os corações, saudemos o céu azul e a luz que ilumina a Terra, como quem colhe um cravo vermelho ou uma rosa para a elevar ao alto como sinal de esperança de que a comum humanidade triunfará. 
Quis romper, por isso, o mito de Sísifo e a condenação ao trabalho inútil e sem esperança, que é, decerto, o pior que pode ser imposto à condenação humana, como advertiu o autor de O Estrangeiro. Tomei à letra a recomendação de Camus ("É preciso imaginar Sísifo feliz") e pensei-o liberto de grilhetas e anátemas, sobrepujando a tudo o louvor da vida, neste poema que aqui deixo aos meus Leitores, com votos de um 2017 feliz.

Sísifo liberto

Talvez Sísifo abrisse as mãos
mandasse a pedra fora
e assim matasse o mito
se no alto da montanha
tivesse à sua espera
o sorriso duma deusa
ou um corpo de mulher
aberto em flor
para colher.
A pedra rolaria pelo chão
sob o peso da gravidade
liberta da estranha servidão
e imóvel ficaria
na base da montanha
remetida à sua condição.
No desafiar dos deuses
Sísifo sorriria contra o mito
e a loucura de Zeus e
faria algum manguito
à eterna condenação
imposta pelo deus.
As mãos e o espírito
outra vez puro sonho
de futuro e utopia
promessa de libertação.

Fernando Paulouro Neves
Covilhã, 31 de Dezembro de 2016



MIL ROSTOS

FOTO DE DANIEL MORDZINSKI, 2016

DANIEL MORDZINSKI

Decifrar o rosto dos escritores através dos instantes que a fotografia capta, procurando na imagem surpreendente e inesperada uma espécie de captura da "alma", é um velho desafio que se confunde com a história dos caçadores de imagens, que nos ajudam a prolongar a ilusão de eternidade dos grandes criadores que já partiram. Sempre me fascinou essa busca dos mil rostos, que podemos revisitar vagarosamente, como quem vai ao encontro das palavras, dos versos, das histórias que fizeram vida e tornaram a substância dos dias em lume de futuro.
Gosto de folhear esses álbuns, essas fotobiografias que nos desdobram imagens que arquivam traços biográficos essenciais, mil rostos, em que enquadramos sempre o de Pessoa ou a pose imponente de Borges caminhando sobre as sombras da cegueira. Há dias, andei pelo mundo de Jorge de Sena (A Voz e a Imagem), na sua monumental fotobiografia, para me cruzar com o seu chão de vida tão bem documentado na edição monumental. As páginas ficam coladas à mão, para nos determos no filme das imagens, paramos para descobrirmos pormenores, olhares, circunstâncias. Também é assim com a fotobiografia de Eugénio de Andrade (O Amigo Mais Íntimo do Sol) ou as de Eduardo Lourenço (Tempos de Eduardo Lourenço), de José Marmelo e Silva (Não Escrevo para Ganhar Dinheiro) ou de António Ramos Rosa, que inclui belíssimas fotos (passe a declaração de interesse) de meu filho Ricardo Paulouro Neves, ou do poeta Albano Martins. Mil rostos, então, que nos fazem companhia. Andei nestas navegações porque hoje, no café matinal que comporta a leitura do "El Pais", Leila Guerriero escreve uma matéria interessante precisamente sobre o tema "quando o escritor é a paisagem". Diz ela que "a imagem dos autores é a parte fundamental da memória que guardamos deles". Eu prefiro alargar o universo da memória às palavras e à poesia, sobretudo a esta, que dizia Octávio Paz é a escrita da biografia dos poetas. "Há um fotógrafo, há uma câmara, há uma paisagem", escreve a cronista. "Essa paisagem é um rosto. O rosto austero, de olhos de febre, de um senhor chamado Samuel que escreveu, entre outras coisas, algo chamado À Espera de Godot. Ou o rosto de bigode quase cómico de um senhor chamado James que escreveu, entre outras coisas, Finnegans Wake. Ou o rosto de uma mulher chamada Virgínia que escreveu, entre outras coisas, algo chamado As Ondas. Há um fotógrafo, há uma câmara, há um rosto. Só que não é qualquer rosto, mas um rosto que estava ali quando esse homem ou essa mulher escreveram Enquanto Agonizo ou Cem Anos de Solidão. Há uma câmara, há um fotógrafo que espera o instante preciso para disparar e lograr... o quê? A imagem definitiva de Beckett, Neruda, Woolf." Entre os fotógrafos famosos, que fizeram muito do inventário dessas vidas, figura o meu amigo Daniel Mordzinski, que tive a sorte de encontrar quando Luís Sepúlveda venceu o Prémio Eduardo Lourenço, do Centro de Estudos Ibéricos. No companheirismo da jornada, Mordzinski falou-me da viagem com Sepúlveda à Patagónia, mas também das fotos que fizera a Borges ou a Cortázar. E, no meio da conversa, também eu ganhei uma fotografia dele, que aqui deixo hoje pelo sentido estético e a força que o retrato revela. Leila Guerriero conta de Mordzinski: "Em 1978, o argentino Daniel Mordzinski trabalhou como assistente num documentário sobre Borges. Um dia, durante a rodagem, tomou-lhe uma foto. Agora, 38 anos depois, retratou centenas de escritores que, nas suas fotos, não aparecem junto a uma biblioteca, mas jogando aos cowboys, ou dormindo junto a uma marionete, ou se autoparodiam gozando com os lugares-comuns que circulam à sua volta: Vila-Matas posou como um sátiro exibicionista de si mesmo, abrindo um sobretudo repleto de fotos suas". 
Mil rostos na ilusão de que eles continuam connosco. Nunca pagaremos, por isso, tudo o que devemos aos caçadores de imagens.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A DECADÊNCIA DO OCIDENTE


Vale a pena reflectir à volta do artigo que Mário Vargas Llosa publica hoje, no "El Pais", sobre "A decadência do Ocidente". É um texto longo, o do Prémio Nobel da Literatura, mas a questão central que ele levanta pode resumir-se no seguinte parágrafo: "Primeiro foi o Brexit, agora, a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. Só falta que Marine Le Pen ganhe os próximos comícios em França para que fique claro que o Ocidente, cume da cultura da liberdade e do progresso, assustado pelas mudanças que a globalização trouxe ao mundo, queira fazer marcha atrás radical, refugiando-se no que Popper baptizou como "a chamada da tribo" -- o nacionalismo e todas as taras que lhe são congénitas, a xenofobia, o racismo, o proteccionismo -- como se aprisionar o tempo ou retrocedê-lo fosse mera questão de mover os ponteiros do relógio."
Vargas Llosa sublinha a sua perplexidade, em relação a Trump, de que "sessenta milhões de norte americanos tenham acreditado nele respaldando-o nas urnas" e assinala que "todos os grandes demagogos da história atribuíram os males que padecem os seus países aos perniciosos estrangeiros, neste caso os imigrantes, começando pelos mexicanos, traficantes de drogas e violadores e terminando nos muçulmanos terroristas e nos chineses que colonizam os mercados estadounidenses com os produtos subsidiados e pagos com salários de fome. E, por isso, também têm a culpa da queda dos níveis de vida e do desemprego os empresários "traidores" que levam as suas empresas para o estrangeiro privando de trabalho e aumentando o desemprego nos Estados Unidos".
Para o autor de A Guerra do Fim do Mundo, "o Brexit e Donald Trump -- e a França da Frente Nacional -- significam que o Ocidente da revolução industrial, dos grandes descobrimentos científicos, dos direitos humanos, da liberdade de imprensa, da sociedade aberta, das eleições livres, que no passado foi o pioneiro do mundo, agora vá ficando para trás." E isto, na perspectiva do escritor, acontece "não porque esteja menos preparado que outros para enfrentar o futuro, mas por sua própria complacência e cobardia, pelo medo que sente ao descobrir que as prerrogativas que antes julgava exclusivamente suas, um privilégio hereditário, agora estejam ao alcance de qualquer país."
A radiografia está feita. O Ocidente está refém de cobardias e de medos. Aí radica a razão profunda do seu declínio. Um bom tema para nos pensarmos a nós próprios.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

RECEITA PARA FAZER DITADORES

    Lembrei os poemas de Brecht sobre os tempos sombrios no nazismo ("Que tempos são estes em que defender uma árvore parece um crime?", estou a citar de memória), em que ele falava do pintor medíocre que tinha chegado ao poder na Alemanha, porque li um interessante artigo no "El Pais" (autoria de Luis Doncel) em que analisa uma biografia sobre a vida do Fuhrer, desde o seu nascimento até 1939, em que se retrata um "Hitler mais normal". É certo que, por todo o lado (até cá!), não têm faltado exemplos piedosos de reabilitação de ditadores e de malfeitores que prendiam as pessoas de bem, quando o país era um "remorso colectivo".

No artigo em causa, o autor coloca uma interrogação pertinente: "até onde se pode humanizar o monstro?" Que olhar se pode, tantos anos depois mas com tantas feridas abertas, lançar sobre "o grande genocida". Na análise à biografia de Volker Ullrich, cita-se a definição que o New York Times fez do livro: "uma admirável parábola shakesperiana. A nota crítica sugeria "paralelismos com o presidente dos Estados Unidos. Donald Trump". Volker (que tinha em 2013 escrito sobre o tema) justifica o interesse por este regresso a Hitler: "Sem ele, não se tomava nenhuma decisão no III Reich", e, por estes dias, "quando em todo o mundo triunfam líderes autoritários e carismáticos interessa ainda mais responder à pergunta: como foi possível?"
O jornalista pergunta-lhe: por que pensou que o mundo necessitava de outra biografia de Hitler? Volker Ullrich respondeu: "Escrevi-a no convencimento de que este tipo de políticos está de volta. São os que sabem como mobilizar os medos e esperanças em épocas de crise. Isso o entendeu Hitler melhor que ninguém durante a República de Weimar. Apresentou-se como o Messias que devolveria a grandeza à Alemanha". Ulrich mostra como o ditador nazi, ao contrário do que se diz, tinha vida além da política,contrariando as encenações que ele próprio fabricou para si próprio. Os dotes camaleónicos, assevera o historiador, permitiam-lhe falar "como um sábio estadista no Reichstag, como uma pessoa moderada face aos empresários, ou frente às mulheres como um pai bem humorado que ama os seus filhos".
Aqui, sublinha o jornalista, surgem as semelhanças com Trump. Entre as primeiras, o biógrafo assinala "um carácter egocêntrico com tendência a misturar a mentira com a realidade", a "promessa de voltar a fazer grandes os seus respectivos países" ou "a capacidade de ambos de utilização dos meios de comunicação". "Ainda que veja Hitler mais sofisticado e táctico", diz Volker. Mas o artigo não deixa de referir que as diferenças também são enormes, pois "Hitler nunca obteve maioria absoluta numas eleições democráticas (foi designado Chanceler pelo Presidente da República depois de ter sido o partido mais votado com 33% dos votos)" e o seu partido nacional socialista "estava totalmente centrado no Fuhrer". "Trump lança proclamações xenófobas e machistas mas não sabemos se é apenas retórica eleitoral".
Volker Ullrich faz um "retrato dual" de Hitler, mas a pergunta fundamental fica sem resposta. "Como foi possível?" Resposta possível do biógrafo: "Hitler beneficiou de uma constelação única de crise que aproveitou de uma forma inteligente e sem escrúpulos. Teve uma relação simbiótica com o povo alemão. Nunca teria chegado ao poder se não tivesse explorado ideias profundamente arreigadas na tradição cultural do país: nacionalismo extremo, antisemitismo profundo, ressentimento contra o parlamentarismo e a democracia. Alemanha era o caldo de cultivo para estes políticos carismáticos". Ou para ditadores potenciais.