quinta-feira, 27 de abril de 2017

AMIGOS E "EMPENHO DO CORAÇÃO"

Sessão no Paul (foto de Maria Nicolau Filipe)
Nestes dias de emoções fundas, em que o "empenho do coração" fala sempre mais alto, voltei a ter aquela sensação única que é o universo de amigos a multiplicar-se em alegria, à volta de coisas felizes que acontecem na minha comum biografia. A notícia da atribuição do Prémio Eduardo Lourenço transformou-se numa plataforma de amizade, num registo de apreço colectivo que eu tomo e partilho como resultado de uma acção cultural e cívica ou da expressão de resistência em relação a tudo o que é essencial ao respirar deste nó de terra interior que é a nossa casa comum.
Ao mesmo tempo, coincidindo praticamente com o anúncio do galardão, a Casa de Cultura José Marmelo e Silva decidiu assinalar, também, aquilo que tenho feito nestes 50 anos de escrita, talvez iniciado com palavras que não viram a luz do dia, cortadas pela Censura. Foi para mim um momento alto, que a amizade do Nelson Oliveira Marmelo e Silva criou e pôs de pé, a que se associaram os presidentes das Câmaras da Covilhã e do Fundão, Victor Pereira e Paulo Fernandes, e onde a fraternidade das palavras foi um traço-de-união nas intervenções de Arnaldo Saraiva e de César António Molina. Houve, também, a música do grupo de Bombos de Lavacolhos, sonoridades fortes e ancestrais da terra fundanense, as adufeiras do Paul, com o talento e a voz magnífica da Leonor Narciso, a reinventar a riqueza da música tradicional, e a espantosa leitura que o actor do Teatro das Beiras, Fernando Landeira, fez de alguns textos meus. Foi um clima especial o que se viveu no Paul, no dia 23, momentos que fazem sempre lembrar os versos do Eugénio como gratidão sentida: "os amigos amei/despedido de ternura fatigada".
Voltando ao Prémio Eduardo Lourenço eu tive oportunidade de dizer que o considerava, pelo nome do patrono, uma honra intransponível, e por ser iniciativa do Centro de Estudos Ibéricos, instituição relevantíssima da Ibéria. Fiquei feliz, não o escondo, pelas palavras do júri, que o atribuiu por unanimidade: "O Júri reconheceu a projecção cultural e ibérica do jornalista, escritor e cronista e a sua notória vocação cultural e cívica desenvolvida ao longo dos últimos 50 anos, no "Jornal do Fundão", orgão de referência na história da imprensa nacional, onde foi jornalista, chefe de Redacção e Director. Protagonista de um jornalismo fortemente literário, que tantas vezes lhe permitiu contornar a censura pela finura da escrita, Fernando Paulouro Neves representa muito bem a ligação entre os dois lados da raia ibérica, vividos e defendidos ao longo de uma vida de resistência. Regional, mas sempre com relevância global, mostra que o mundo precisa da reflexão vinda dos pequenos lugares. Partilha as beiras agrestes e a perspectiva que elas transmitem, com o próprio Eduardo Lourenço; em ambos o pensamento não se imagina sem o vento da raia e a vivência dos locais que o futuro ameaça abandonar, mas que ambos acreditam que se mantarão relevantes e até indispensáveis."
Então, estou grato a todos os amigos e corporizo num gesto de gratidão, pela sua simbologia colectiva, as palavras amigas de felicitações do Senhor Presidente da República. A todos, digo: bem hajam!
E aos meus Leitores, razão de ser da escrita, dizer-lhes que irão, nestes três meses, ter crónicas minhas a partir de Minas Gerais, terra do grande Carlos Drummond de Andrade.

sábado, 15 de abril de 2017

Fellini na Praça Velha



Fellini na Praça Velha, o meu mais recente livro de ficção, é apresentado no dia 24 de Abril pelas 18h30m na Biblioteca Eugénio de Andrade, no Fundão. Trata-se de um romance sobre figuras e lugares do universo fundanense, cuja expressão literária quer sublinhar a espantosa coincidência entre a fantasia e a realidade, que é um dos grandes desafios da literatura.
Então o romance é uma espécie de filme de memórias, de imaginário livre, que Fellini poderia muito bem ter anotado na sua caligrafia de imagens e de sons. Ali, na Praça Velha, sentado porventura à mesa do Timã, ouvindo a crónica de um país fechado em grades.

Muitos exilavam-se no café e acolhiam-se à mesa do Timã para um breve hiato na retórica da desgraça, veneno diário que escorria pelas horas e tornava as pessoas macambúzias. Para ele, o humor era a grande invenção do espírito moderno, como dissera Octávio Paz. E fazia-o numa prática de grande alegria não poupando os tipos de cerviz baixa e sem coluna dorsal. Dizia – fazendo um gesto largo com os braços – ser enorme a corporação dos sabujos que eram capachos obedientes do Poder. 
– O outro tem razão! – dizia o Timã para caricaturar. – Isto, se calhar, é melhor dissolver o povo! Este não presta, aceita a canga e nem que o piques com o aguilhão das bestas, ele desperta...

sexta-feira, 31 de março de 2017

O MUNDO DE ONTEM. E O DE AMANHÃ?

No tempo em que se assinalam os 60 anos da criação da União Europeia, então sob a forma de Mercado Comum Europeu, no contexto de uma crise que leva os mais cépticos a vaticinarem a própria desagregação do projecto europeu, é bom ler O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig. O livro, reeditado recentemente pela Assírio & Alvin, tem na capa a indicação de que se trata de "recordações de um europeu". Não é apenas um livro admiravelmente escrito, num tom de sobriedade memorialística que chega a ser comovente, o que já seria muito; é sobretudo a observação arguta de alguém que, vivendo a realidade de duas guerras que tornaram o século XX num tempo dos mais sombrios da História (Max Gallo), faz a narrativa da substância do tempo, com perplexidades e inquietações que parecem não ter fim. A dimensão cultural da Europa está muito presente nas recordações de Stefan Zweig, mas há nesta sua reflexão a radiografia de uma Europa em que, apesar das evidências de desumanidade que se vinham inscrevendo na realidade, não parecia plausível a ascensão de Hitler ao poder absoluto que viria ensanguentar o velho continente.
"Afinal que violência poderia ele exercer num Estado em que o direito estava firmemente consolidado, em que a maioria parlamentar estava contra ele e em que cada cidadão considerava asseguradas a sua liberdade e igualdade perante a lei, de acordo com a constituição que tinha sido solenemente jurada?" - escreve Zweig. Mas logo falaram os acontecimentos: "Foi então que sobreveio o incêndio do Reichstag: o Parlamento foi extinto, Goring soltou as suas hordas, de uma penada o Estado de Direito foi suprimido na Alemanha. As pessoas, horrorizadas, ficaram a saber que havia campos de concentração em pleno período de paz e que nas casernas tinham sido instaladas câmaras secretas onde inocentes eram executados sem julgamento e sem qualquer processo"(...).
O escritor evoca esse tempo, em que os dias se incendiaram de terror e a crueldade se tornou numa máquina que alimentava os dias, quando explica o livro, à volta do seu eu, e as suas circunstâncias. Diz ele: "lavrámos o catálogo de todas as catástrofes imagináveis de uma ponta a outra (e mesmo assim ainda não chegámos à derradeira folha). No que me toca, fui contemporâneo das duas maiores guerras da humanidade e vivi mesmo cada uma delas em duas frentes distintas, uma na frente alemã, a outra na antialemã. No período anterior à guerra conheci a forma e o grau mais elevados de liberdade individual e, depois, o seu mais baixo nível desde há centenas de anos. Fui festejado e proscrito, livre e subjugado, rico e pobre. Todos os lívidos corcéis do apocalipse tomaram de assalto a minha vida, revolução e fome, desvalorização da moeda e terror, epidemias e emigração; vi crescer e alastrar sob os meus olhos as grandes ideologias de massas, o fascismo na Itália, o nacional-socialismo na Alemanha, o bolchevismo na Rússia e, sobretudo, a maior de todas as pragas, o nacionalismo que envenenou a flor da nossa cultura europeia. Fui à força testemunha indefesa, impotente, do inimaginável retrocesso da humanidade a uma barbárie que há muito se pensava esquecida, com o seu dogma consciente e programático de anti-humanismo. Estava-nos destinado, tantos séculos passados, ver de novo guerras sem declarações de guerra, campos de concentração, torturas, pilhagens em massa e bombardeamentos sobre cidades indefesas, tudo bestialidades que as últimas cinquenta gerações nunca chegaram a conhecer e que as vindouras, assim o espero, não voltarão a tolerar".
Foi longa esta transcrição, mas necessária. Talvez ela nos ajude, agora que em Roma se juntaram os governantes da Europa (que nos parecem hoje tão pequeninos e efémeros: apenas à altura duma Europa dos pequeninos!), a percebermos a importância do projecto europeu, virtualizador de uma Europa dos Cidadãos e factor de Paz. É nisso que é preciso pensar quando os nacionalismos acéfalos e xenófobos (que já um dia "envenenaram a flor da cultura europeia") voltam a levantar a cabeça e a chegar ao poder. Pensemos nisso, lendo "O Mundo de Ontem", de Stefan Zweig. Para que os sinos não dobrem por nós.

quinta-feira, 30 de março de 2017

"A MATERNA CASA DA POESIA" NA COVILHÃ



O meu recente livro, "A Materna Casa da Poesia. Sobre Eugénio de Andrade", é apresentado amanhã, dia 31 de Março, pelas 18.30, no Salão Nobre da Câmara da Covilhã, numa iniciativa do Município. À semelhança das sessões realizadas em Paris, Fundão, Castelo Branco, Lisboa e Santarém, a sessão da Covilhã será também uma celebração da poesia de Eugénio de Andrade através de leituras paralelas de textos e poemas do autor de "As Mãos e os Frutos", a cargo de Graça Sardinha e Adelino Pereira. "A Materna Casa da Poesia" é um ensaio sobre o sentido da presença da Beira na poesia de Eugénio de Andrade e sobre a relação da sua arte poética com os territórios que marcaram a sua infância.

quinta-feira, 23 de março de 2017

UMA LEMBRANÇA DAS CALDAS


Aquele senhor que tem um nome impronunciável e que preside ao Eurogrupo é talvez o melhor retrato da anquilose em que a União Europeia navega. Esse senhor, que gosta de dizer que é social-democrata, celebrizou-se na ferocidade com que falava dos países do sul, como se essa condição geo-política fosse uma maldição que era preciso castigar. O sujeito, quando aparece nas televisões, à ilharga de microfones ou em conferências de imprensa, ri-se muito, mas todos sabemos que, às vezes, o riso é próprio dos parvos, embora estes possam ter maior grau de responsabilidade. 
Com tipos deste calibre, não admira que o partido trabalhista holandês - o partido cujo emblema traz na lapela - ainda nas recentes eleições legislativas tenha obtido um resultado miserável. Se calhar, chateado com o comportamento eleitoral dos holandeses, e vendo o lugar no Eurogrupo a fugir-lhe debaixo dos pés, o político de nome impronunciável quis desopilar o fígado (decerto mal tratado por excesso de vinhos, aguardentes e licores!) , e , numa entrevista a um jornal alemão, saiu-se com esta: "Na crise do euro os países do Norte mostraram solidariedade para com os países do Sul. Como social-democrata, a solidariedade é para mim extremamente importante. Mas quem a pede tem também deveres. Não posso gastar o meu dinheiro todo em bebidas e mulheres e depois disso ir pedir a vossa ajuda. Este princípio vale para o nível pessoal e também europeu". 
Levantou a bojarda um clamor de protestos de governos e no próprio Parlamento Europeu lhe foram às orelhas. Mas não vale a pena perder muito tempo com ele: pertence àquela linhagem que tem alvará da estupidez! Quem lhe respondeu foi Ferreira Fernandes, na crónica que publicou no "Diário de Notícias" sobre "o pequeno holandês". Faço minhas as suas palavras e também eu lhe endosso um artesanato das Caldas para consumo pessoal: 
"Ah,o que o noticiário de ontem me trouxe de arte e luxúria! Passeei-me pela Holanda, quando ela era grande e não só entreposto de impostos dos outros. Rembrandt em autorretrato, uma mão pousada no nadegueiro da sua mulher Saskia e outra levantando o cálice. Mulheres e copos. Vermeer é mais vinho branco, límpido como as suas sedas. Frans Hals, em Jovem e a Sua Amada, faz ambos de maçãs de rosto tão vermelhas que só pode ser do tintol que o rapaz levanta em glória. Já Gerard der Borch, pintor dos ricos, só tem garrafas de cristal trazidas por criados. Jan Steen, pintor de tascas (bordeeltjes, cenas de bordel ou tabernas, são mesmo um género da grande pintura flamenga), no óleo Vinho Holandês, com uma bêbada de seio nu e coxas ao léu, homem com a mão marinhando pela perna dela e um querubim, nem 6 anos, já abotoado ao copo. Gabriel Metsu vai com a mulher, Isabelle de Wolf, para a taberna e pinta o casal agarrado, entre si e ao vinho. Copos e mulheres... E eu, confesso, não gastei o meu dinheiro num curso rápido sobre a pintura holandesa. Limitei-me a ler uma brochura da Académie Amorim, fundação de Américo Amorim, um homem do Sul da Europa, grato ao vinho e à cortiça. A brochura chama-se O Copo de Vinho na Pintura Holandesa na Idade do Ouro, porque os verdadeiros europeus estão gratos à grande Holanda. Já para responder a Jeroen Dijsselbloem, um curso rápido de arte portuguesa chegava: um caralho das Caldas para ti, pequeno holandês."

quinta-feira, 16 de março de 2017

PARABÉNS, MESTRE CARGALEIRO!

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Quando penetro no mundo fantástico do Mestre para encher os olhos do fascínio das cores na invenção de cidades líricas e imaginárias, no seu sonho desmedido de criação, penso sempre na metáfora de Borges e digo para mim que a obra de Manuel Cargaleiro se reflecte nas linhas do seu rosto, no olhar bom de águas límpidas, na sabedoria de umas mãos e de um espírito que foram capazes de transfigurar a realidade em coisas belas, criando mundos outros, que é desafio só ao alcance dos que se libertam, pela genialidade, das coisas banais e menores.
É esse sentimento que de novo reencontro, quando quero dar um abraço de palavras a Mestre Cargaleiro, no momento dos seus 90 anos, como quem lhe agradece toda a arte que nos deu, para iluminar o tempo e nos mostrar que há uma humanidade nova na aventura criadora do Homem, e, no meu caso pessoal, um tributo de gratidão à amizade e companheirismo que tem sido a marca de muitos encontros e iniciativas no âmbito cultural. Este aceno grato de palavras tem outra raiz profunda: o lugar de Castelo Branco e da região na obra do Mestre e a circunstância do universo museológico de que esta cidade é o centro, um equipamento cultural à escala europeia, que Joaquim Morão foi capaz de edificar e que nos honra, a todos, cidadãos deste território do Interior.
De facto, Castelo Branco tornou-se destino da obra de Manuel Cargaleiro e lembro-me bem de Mário Soares, quando veio aqui apresentar o meu livro, Crónica do País Relativo (primeiro volume) me ter confessado a sua admiração pelo acervo de obras do artista e pela alta qualidade do Museu, impressões a que depois deu expressão num artigo publicado no “DN”.
Estamos perante uma obra de dimensão internacional, com âncoras muito precisas em Paris e em Vietri-Sul-Mare, Itália, e essa singularidade do homem que há 90 anos nasceu na pequena aldeia de Chão de Servas, em Vila Velha de Ródão, tornado referência da pintura moderna (veja-se a exposição realizada em Paris em que Cargaleiro é o único artista vivo de um conjunto de 25 pintores mundiais – está lá também Vieira da Silva – considerado determinante na arte contemporânea dos últimos cem anos), e é essa articulação que é preciso fazer, no plano documental da divulgação, para que o Museu Cargaleiro seja cada vez mais vivo.
Sempre me fascinou essa relação arterial entre o lugar originário de pertença e uma obra que depois viajou pelo mundo. Regresso, por isso, a um ensaio que escrevi sobre a obra do Mestre (“Assim Nasce a Alegria”, in Manuel Cargaleiro, Vida e Obra, Catálogo do Museu Cargaleiro, Castelo Branco) em que falava de traços identificadores e contextuais da sua pintura: “É de Goethe que me lembro, pela transparência da luz, tão essencial à arte e à poesia, sempre que mergulho no mundo fantástico de Manuel Cargaleiro. Cores e luz. A luz que caminha desde os primeiros raios da manhã até ao pôr do sol e quando poisa nos instantes do dia se dissolve em mil imagens cristalinas, oferendas de uma espécie de mistério de mineralização das coisas. Cores: explosão cromática em busca de outras mil alegrias para memória futura. Temos então um mundo elemental, matriz de uma arte que se desdobra em louvor do tempo e da vida (…).”
Lembro-me bem de uma tarde, em Castelo Branco, em longa conversa de roda livre com o pintor, ele ter regressado aos prazeres da memória e à infância, à emoção do tempo inicial, e me ter dito quanto esse território de afectos ficara preso à sua obra, ao imaginário das cores, às plantas, às vivências, ao conhecimento do mundo. O seu rosto iluminou-se num sorriso largo:
-- Sim, as cores da Beira estão sempre presentes nos meus olhos. A terra faz parte do coração…
(Artigo publicado na edição de hoje do jornal Reconquista)

Ler mais sobre Cargaleiro: http://www.fernandopaulouro.com/search?q=cargaleiro



terça-feira, 14 de março de 2017

SABER COLHER A LUZ

Deus pode ter descansado ao sétimo dia e ter chamado Heine para criar as nuvens, mas se houve recurso a poetas para colocar alguma alegria na criação do mundo, então penso que eles se devem ter dedicado por inteiro à Primavera, escolhendo um tempo especial para a transformação da natureza, pintando de flores e cores a paisagem, para os olhos se extasiarem e matarem a sede de beleza. Eu gosto de ver a antecipação da Primavera e o dia 14 de Março abre-me especialmente o coração a essa realidade solar. O sol já tocou a terra e um rosto se abriu em sorriso grácil, como as magnólias brancas, à entrada da Covilhã. Respira-se a renovação da vida nas mutações cromáticas e há um fio temporal que nos põe a pensar que a transformação da realidade é uma metáfora objectiva da esperança. Agora, o sol voltou a poisar nos campos e os pássaros cantam de novo porque o vento deixou de ventar os altos ramos. Quem se aventurar por esses caminhos, vê a explosão do branco das macieiras e pereiras e os roxos dos pessegueiros, como se nos estivessem a avisar que não tarda muito temos aí a neve branca das cerejeiras. Na serra, a combustão das flores e dos verdes é mais lenta, mas também de lá de cima se abrem os olhos a horizontes tão vastos, com planícies e montanhas azuis, que o imaginário dispara sonhos surpreendentes que cavalgam o olhar à desfilada. Volto a um texto de Vergílio Ferreira, que é também antecipador da estação florescente. E aqui o deixo, como se a Primavera já me tivesse tocado ao batente para ter atenção ao olhar:

"A luz, a luz. A Primavera enviou já a sua mensagem e só é preciso estar atento para a não perder. Não é a luz sumarenta do Outono ou a luz pesada do Verão.É uma luz nítida e ainda fria dos gelos do Inverno. Recorta as coisas pelo seu limite e elas emergem inteiras do seu ser. Essencialidade da vida, é a altura de lavarmos nela as mãos e o olhar. Entender aí a nossa relação com elas e sermos nós também na inteireza do que somos. Aprender a ver o mundo na sua estrita realidade sem um ver que nos cegue como o fogo do Verão a a moleza outonal. Aprender o limite dos excessos de nós para conhecermos a alegria que nos não cansa ou a melancolia que tem pacto feito com a morte. Existir uma vez ainda no recomeço de existir. E saudar a vida ainda, como se pela primeira vez".

É esse sentimento primordial que se colhe, como quem abraça uma flor. É o coração da terra a respirar. 

domingo, 12 de março de 2017

O VALOR DA LÍNGUA

Ilustração sobre o Espanhol no mundo (Fernando Vicente)

Estranho país é o nosso que não se cansa de enaltecer a Língua portuguesa, numa retórica celebratória e ditirâmbica, para depois a maltratar e lhe conferir, no âmbito das políticas gerais, um carácter de subalternidade. É isso, porventura, que explica a forma como, desde sempre, têm sido tratados os grandes construtores da Língua, os escritores e poetas, desde Camões. Jorge de Sena falou um dia dessa estupidez de longa duração, como se fosse marca genética da história, caricaturando um país que dizem ser de poetas e onde se fala muito em Camões, mas quase matou o épico à fome.
Nos últimos tempos, não têm faltado discursos sublinhando o interesse económico da Língua portuguesa, assinalando a sua importância estratégica no mundo globalizado. 
É facto que é uma das seis Línguas mais importantes, com mais de 244 milhões de falantes, e uma notável capacidade de implantação a nível planetário. Mas basta pensarmos na inépcia política, ao longo dos tempos, sobre o ensino da Língua nas comunidades portuguesas para pensarmos na visão redutora que tem condicionado uma problemática de indiscutível interesse nacional. 
A Língua é um óptimo assunto para patrióticas tiradas, daquelas de encher o ego, e, sobretudo, para citar o verso do Pessoa: "a minha pátria é a Língua portuguesa". Mas quanto ao resto, ao essencial e concreto da política para a internacionalização da Língua, é quase silêncio. Esse silêncio só é quebrado quando surgem matérias como o Acordo Ortográfico. Então, elevam-se os clamores, a coisa atinge dimensão polémica que, às vezes, configura o que Mário Mesquita caricaturou: as polémicas à portuguesa parecem touradas à espanhola! 
Vim ao encontro deste tema porque li que em Espanha se realizou uma longa investigação, que produziu 14 volumes, sobre O Valor Económico do Espanhol. A complexidade do estudo abarca desde a vantagem da Língua na reprodução de investimentos em áreas que vão da indústria editorial às energias renováveis, analisa as vantagens no plano da globalização de uma Língua milenária, aberta ao mundo, e, sobretudo, responde ao desafio da dimensão quantitativa -- mais de 420 milhões como primeira e segunda Língua -- ser plasmada numa realidade qualitativa, num adequado processo de internacionalização. Uma nota do estudo assinala o facto de, no programa universitário "Erasmus" a Espanha ser o país de destino mais procurado, no conjunto dos 32 países que o integram. 
É importante perceber esta prioridade espanhola. Não para ficarmos a dizer, como fazemos tantas vezes, que "en España es diferente", mas sobretudo para fazer alguma coisa no sentido da pátria planetária da Língua portuguesa ser assumida na dimensão estratégica, que é indiscutivelmente uma das suas singularidades. Se calhar, até olhando para a realidade que Herberto Hélder tão bem assinalou, quando escreveu sobre as potencialidades de uma língua comum luso-castelhana assente num falar arterial que vai por cima das fronteiras em busca de um espaço tão vasto como a Ibero-América e os países da Lusofonia.

terça-feira, 7 de março de 2017

ANQUILOSE UNIVERSITÁRIA

Professora Rosa Berganza, fonte: El Pais
Tem sido pouco comentado, por cá, o escândalo que envolve a Universidade Rei Juan Carlos de Madrid, mas seria certamente de proveito e exemplo que o caso merecesse reflexão, e, porventura, mergulhando na fatalidade dos interesses espúrios nacionais, sempre de raiz corporativa, se pudesse advertir logo à entrada, como se faz na ficção, de que "qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência". 
O "El Pais" tem dado expressão informativa à questão, desde que se provou que o Reitor Fernando Suarez, certamente magnífico como são por inerência todos os reitores, tinha praticado plágios em abundância, como comprovou a informação pericial da Universidade de Barcelona. O problema é que esse acontecimento destapou um conjunto de situações que, saindo do silêncio impune, veio mostrar a anquilose moral de uma Universidade. 
O diário espanhol publicou uma entrevista com Rosa Berganza, candidata a Reitora, que é uma radiografia impiedosa sobre o funcionamento daquela instituição universitária e sobre o ambiente cúmplice que a rodeia. O título não podia ser mais claro: "A minha universidade funciona como uma rede clientelar no mais puro estilo mafioso". 
A catedrática de Comunicação Política denúncia o que chama "rede clientelar de familiares" da URJC. O jornalista questiona sobre o surpreendente silêncio que pairou na Universidade sobre a questão dos plágios. A Professora esclarece que é preciso viver por dentro para perceber. "Neste processo quem mais se mobilizou foram os estudantes (recolheram 75 mil assinaturas) que produziram um trabalho mais crítico e independente que o professorado, que guardaram um silêncio vergonhoso." Porquê? - interroga Rosa Berganza, e responde: "O nosso sistema funciona como uma rede clientelar, montada arduamente pelo actual e anterior Reitor, com umas práticas ao mais puro estilo mafioso de amedrontamento quando se levantam vozes críticas ou de não permitir o diálogo nem o espírito crítico." E noutro passo: "É um sistema aparentemente democrático, mas que não funciona como organização democrática em absoluto. Tudo se compra com prebendas, a gestão não é transparente. Há poucas decisões iguais para todos. As regras do jogo não são iguais para todos, negoceiam-se individualmente com o Reitor. Exerce o "tu, sim, tu não", "a ti dou-te isto, a ti isto..." Compra o silêncio das pessoas e actua com muito pouca transparência." 
Um dos casos mais graves é o que a Professora Rosa Berganza denuncia: "Há um sistema clientelar que favorece a colocação de familiares de forma indiscriminada." E quando o jornalista lhe pede que aprofunde a questão, ele responde: "Não estou falando de algo marginal. É muito perigoso dizer uma percentagem, mas é uma política habitual de contratação, é como se ser familiar fosse um mérito que conta e pontua muito mais. Com 1 600 professores e 1 300 funcionários de Administração e Serviços é muito fácil estabelecer as genealogias. O que vivemos aqui dentro escapa a toda a normalidade de uma organização democrática e pública. Para começar o Reitor colocou sua mulher. Poderíamos ver caso a caso todas as figuras importantes da universidade e aí a percentagem seria quase um pleno total. Obviamente, é mais fácil que entrem sobretudo familiares de gente que ocupa postos de poder. Não quero que se entenda que não se possa ter nenhuma relação de parentesco, pode haver pessoas de valia que passem todos os filtros oficiais. O que empesta o ambiente é que seja tão descarado."
História de proveito e exemplo, volto a repetir. Nesta universidade de Madrid, diz a coragem da Professora, há silêncios, medos e a lógica clientelar que é sempre uma forma perita de trazer gente pela trela. Mas o caso reflecte ainda outra coisa: que chega sempre o dia em que o livro do esquecimento se fecha e o silêncio se parte. E tudo fica claro.

quarta-feira, 1 de março de 2017

FERNANDO TABORDA, O PALCO E A VIDA

Fernando Taborda num dos seus filmes
O sentimento do mundo próximo ficar mais pobre e triste pela morte de um amigo tornou-se hoje muito nítido, quando, na página da Helena Pato, tropecei na notícia do falecimento do Fernando Taborda, em Coimbra. Eu incluí-o sempre, juntamente com o irmão Júlio, que foi admirável professor de Literatura, no universo afectivo das pessoas muito especiais, desde que pude partilhar o seu convívio, no mundo também muito especial de meu irmão Zé César.
Penso que a vida, na multiplicidade de imagens e situações, de imaginários excessivos e de acontecimentos insólitos, foi sempre para o Fernando Taborda uma espécie de grande teatro do mundo, e que ele muitas vezes pensava dariam grandes espectáculos se fossem transportados para o palco. Ele, que foi professor do Ensino Primário, como os pais, e bancário, foi sobretudo um grande actor. Essa aventura cumpriu-a em Coimbra e viajou sempre com ele, pela vida fora, como grande paixão. Era, do mesmo passo, um grande contador de histórias, gostava do exercício da ironia que praticava muitas vezes como látego contra a vidinha triste e paroquial da sociedade portuguesa. Eu gostava de o ouvir contar histórias da Aldeia Nova e das guerras contra a Aldeia de Joanes ou de acontecimentos do Fundão, que ele descrevia em conversas muito visuais. A paixão pelo teatro vem, seguramente, desse tempo das récitas académicas, e lembro-me bem de ele, há anos, me ter contado:
-- O teu tio Armando é que me topou. Um dia, chamou-me para me dizer premonitoriamente: Óh, Fernando!, andas para aí a estudar para seres professor, mas tu nasceste para o Teatro...
E tinha razão. O Fernando Taborda revelou-se como actor de mão cheia na Bonifrates e em outros grupos de Coimbra. Um dia, em Lisboa, penso que n' A Barraca, estava no palco a mimar um personagem que tinha uma crise cardíaca, um avc. Estava a fazer aquilo tão bem que só um médico amigo, que estava na primeira fila, percebeu que era ele que estava a sofrer essa situação. Levaram-no para o Hospital e lá se safou. Quando ficou melhor e voltou ao palco, semanas depois, os amigos quiseram dissuadi-lo. Diziam-lhe que o teatro era perigoso e lhe podia dar outro, mais fatal. Ele sorria. Um amigo foi peremptório:
-- Escusam de estar com essas coisas. Eu acho que ele tem a ideia do Molière: a grande glória de um actor é morrer no palco, a representar!
Eu próprio lhe atirei com essa, mas ele dizia que estava em plena forma. Continuou a fazer teatro e não morreu certamente no palco, em plena função, como gostaria. Mas o Fernando Taborda, fundanense que nunca veio ao Fundão representar, teve uma biografia cheia de sucessos e todos reconheciam nele esse talento de grande actor, só possível de alcançar quando alguém se entrega na totalidade aos personagens, numa espécie de dádiva aos deuses.
O Fernando levava para o palco essa força sublime, capaz de se meter por inteiro na pele da condição humana. Levou esse saber para o cinema, em curtas e longas metragens de jovens cineastas, vimo-lo em filmes como "Paloma", "Vida Tramada", "O Voo da Papoila", "Embargo", "Humilhados e Ofendidos, "Cego para Ver", "Esquece Tudo o que te Disse", entre outros. Hoje, quando deparei com a notícia, como se quisesse ver ainda o Fernando Taborda a representar, para me despedir dele, fui ver imagens da sua filmografia. Lá está ele, a representar a vida!



"A MATERNA CASA DA POESIA" EM LISBOA E EM SANTARÉM

Fernando Paulouro com Eugénio de Andrade, em Póvoa de Atalaia

É sempre bom, para mais agora que a antecipação da Primavera começa a dar flores e a luz dilata os dias, celebrar a poesia de Eugénio de Andrade. Aos meus Amigos e Leitores venho, pois, dar notícia de uma "festa" à volta do autor de As Mãos e os Frutos tendo, como pretexto, a apresentação do meu livro A Materna Casa da Poesia. Sobre Eugénio de Andrade. O acontecimento realiza-se na Associação José Afonso, em Lisboa, e penso não haver melhor lugar para evocarmos um grande poeta do que o espaço que tem por patrono, o Zeca, que levou para as suas canções, uma pátria, que continua a respirar dentro das suas matinais canções.
Então, sexta-feira, dia 3 de Março, às 18 e 30, o encontro sobre a arte poética do Eugénio é na AJA. O António Valdemar falará de A Materna Casa da Poesia e a voz de Mila Castanheira dará mais força aos versos e à prosa poética de Eugénio de Andrade, que um dia escreveu: "Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz."
De facto, a apresentação de A Materna Casa da Poesia tem sido oportunidade magnífica para trazer ao nosso convívio a poesia de Eugénio de Andrade, um dos maiores poetas do nosso tempo. Foi assim em Paris, na Casa de Portugal, na Cidade Universitária, no Fundão, na Biblioteca que tem o nome do poeta, em Castelo Branco, no Museu Tavares Proença Jr., agora sexta-feira, em Lisboa, na AJA, e no dia seguinte, em Santarém.
Em Santarém, a sessão, organizada pelo jornal "O Ribatejo" e pela Biblioteca Municipal, realiza-se, pois, sábado, dia 4 de Março, às 16.30, na Sala de Leitura Bernardo Santareno. A dimensão de "festa" estará na sessão: haverá música e o Teatro de Santarém lerá Eugénio de Andrade.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O ZECA HAVIA DE GOSTAR

Fanhais na Covilhã cantando em louvor do Zeca, foto de Maria José Filipe

O que é fascinante no mundo do Zeca é o clima de fraternidade que se respira sob o seu nome. Sempre,  à volta das  suas canções e dos seus versos, percebi aquele desígnio que a poesia comporta quando nos convoca a inventar uma humanidade nova. Os seus sons, as palavras que viajam dentro da sua  música e se  abrem como rosas vermelhas que podemos colher para nosso deslumbramento, acompanham-nos no tempo como expressão desse mundo de utopia que é a cidade (ou o mundo) sem sem muros e sem ameias onde descobrimos em cada esquina um amigo/ em cada rosto igualdade. 

Foi nessa dimensão humana, que é a obra do Zeca a transportar-nos para o sonho, que pensei quando, no sábado à noite, o pavilhão multiusos do Grupo Desportivo da Mata se encheu de tal maneira que não couberam todos os que desejavam participar neste tributo, ao mesmo tempo de memória e de vida, ao Zeca. Era como se ele estivesse ao nosso lado nesse universo das colectividades culturais e de recreio, que era tão do seu coração e fez parte sempre da sua geografia de trovador em busca de Liberdade.

Amigos vários, companheiros de jornada, fizeram reviver canções do Zeca, não com espírito revivalista, mas para mostrar a actualidade do seu canto que continua a inquietar e a mexer com o nosso pensamento. Foi um canto colectivo, que teve no Francisco Fanhais, presidente da Associação José Afonso, o símbolo dessa reunião de afectos à volta da obra e da exemplaridade cívica do Zeca. O Fanhais fez um percurso pelas canções do Zeca, cantou coisas com que ele, Fanhais, também iluminou de esperança muitas noites, antes do 25 de Abril, contou histórias. Havia muita gente com "um brilhozinho nos olhos" e em cada rosto ressaltava uma imagem de igualdade. A música do Zeca ainda nos faz sobressaltar o coração, às vezes parece que ficamos suspensos no tempo, e respiramos mais depressa quando ouvimos o seu lirismo, tão nosso, ou a força de cantares contra vampiros e "mandadores sem lei" (há por aí tantos!), contra "bairros negros" sempre a favor de meninos que "vão correndo ver o sol chegar". O núcleo da AJA da Covilhã está de parabéns. Pela forma como soube evocar o Zeca e pela fraternidade que construiu no Grupo da Mata. O Francisco Fanhais, como se estivesse a fazer a síntese da noite, disse aquele poema da Praça da Canção, do Manuel Alegre, "cantar não é talvez suficiente/ mas cantar incomoda certa gente".  O Zeca havia de gostar de ver tanta esperança andar à solta!

sábado, 25 de fevereiro de 2017

ESCUTAI OS ECOS DO MEU CANTO

Hoje, à noite, às 21.30, vou ao Grupo Desportivo da Mata, aqui na Covilhã, evocar o Zeca Afonso. Está lá, para cantar, o Francisco Fanhais e outros amigos, e, como sempre acontece à volta do Zeca, percebermos como as suas canções e os seus poemas atravessam o tempo. Ele continua vivo naquilo que é o singular pulsar criador de uma obra de que as gerações mais novas se apropriam para a reinventar. As palavras ajudam a atenuar a saudade da sua falta. Por isso o lembramos amiúde, como se assim falássemos com ele e com a sua música. O texto que segue integrou o Dossier sobre o Zeca, uma iniciativa da Esquerda Net para lembrar o autor de "Cantigas de Maio". Aqui o deixo com um verso de Walt Whitman, poeta de que o Zeca gostava, como aceno da intemporalidade que marca a sua obra.


"Escutai por aí os ecos do meu canto” 
Walt Whitman 

Subitamente, uma voz no silêncio. O Zeca. Tem-se falado nele agora, por estes dias de Fevereiro, em que lembra que a morte o levou tão cedo que gravou no coração da gente uma imensa saudade. A verdade é que para mim e para muitos, tantos, o Zeca continua vivo e eu continuo a vê-lo com aquele ar distraído de menino e de sorriso aberto ao futuro criando a infindável "irmandade" à volta da sua música e das suas canções, por esse país fora, que era esse o seu maior prazer: ir em busca de uma nova humanidade. Nem palcos, nem o universo social da canção, tão precário e vazio. Antes, e sempre, o povo que ele gostava de acordar com a sua arte poética -- porque falando em José Afonso é preciso falar em poesia -- nas colectividades populares, em convívios de inquietação colectiva, às vezes em cima do atrelado de um tractor ou em largos que ainda eram o centro do mundo, como o Manuel da Fonseca gostava de dizer. 
Poesia e música, música e poesia, foi essa a sua biografia essencial traduzida na fala arterial de um canto que era, ao mesmo tempo, o respirar da esperança, insubmisso e rebelde, como recomendava Gabriel Celaya ("a poesia é uma arma"), mas também o coração terno e solidário, versos e palavras contra os poderes e os poderosos, contra os "mandadores sem lei" ou os "eunucos" que fabricavam desumanidades e tolhiam de medo um país.  O Zeca sabia combinar, como nenhum outro trovador, essa mensagem de urgência social, esse grito e essa ousadia do protesto contra a injustiça entronizada, com o veio lírico que a pureza do seu cantar transformava na luz de todas as Primaveras, nas manhãs claras de Maio, como se o tempo não tivesse outro destino senão o de uma renovação libertadora, carregada de comum humanidade. 
É por isso que, ouvindo-o, com aquela voz tão densa de emoção funda que parece ser o respirar de um país, acontece sempre o mesmo milagre de através do eco do seu canto irmos ao encontro de uma enorme paz interior. Então, uma alegria terna brota da música dos seus versos, com aquele timbre tão límpido, ora afectuoso ou dramático, às vezes quase épico, como só acontece quando é o coração colectivo que canta. Não admira que o país se tenha apropriado de uma canção sua para a transformar em bandeira e hino do 25 de Abril. 
No caso do Zeca Afonso nunca resultaram os guetos de silêncio a que tentaram condená-lo, desde antes de Abril, quando a censura cortava o seu nome, impondo-lhe a morte do silêncio, tão pouco com os esquecimentos de matriz "democrático" por via da incomodidade do seu canto insurrecto. Com ele, nada disso resultou. Porque as suas canções há muito constituíam património colectivo identificador da liberdade. 
Que me lembre, nenhuma outra obra, no mundo da canção, influenciou tanto geracionalmente, como a sua, num processo de rejuvenescimento que permanece vivo, mesmo quando se refaz em experiências múltiplas do ponto de vista criador. Por isso, houve aquele jovem que, já o Zeca Afonso estava muito doente, pediu ao Fanhais mais ou menos isto: se és amigo do Zeca, diz-lhe que a sua música não morre porque a malta nova está com ele! 
Todo o tempo é bom para ouvir o Zeca, mas penso sempre em Maio, decerto pelas cantigas que lhe dedicou, como o seu tempo primordial. Mas ouvi-lo ou vendo os mais jovens reinventando os sons dos seus versos é sempre uma festa feita de poesia e de música que acontece. Regresso às suas canções para escutar melhor um coração chamado Portugal e olhar este país solar. Nessa luz, ao mesmo tempo intensa e transparente, vejo sempre o Zeca a convocar-nos para o sonho da utopia e avisando a malta: “Vejam bem/ Que não há/ Só gaivotas/ Em terra/ Quando um homem/ Se põe/ A pensar.” 
A pensar, avisou o Zeca.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A RESSUSCITAÇÃO DE CAVACO

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Como aqueles criminosos dos filmes negros, que voltam sempre ao local dos crimes, assim Cavaco Silva poisou nas suas memórias em Belém, como se uma figura com o terreno baldio de cultura e honestidade intelectual que ele tem à sua conta estivesse à altura de reescrever a história, mesmo a sua história. É certo que este tipo de narrativas tem sempre a contingência de traçar a caricatura grosseira do seu autor num exercício que, no caso de Cavaco, deixa impresso os traços do seu carácter, a dissimulação, o jogo de máscaras que é o seu conceito de poder, o cinismo da mistura entre a verdade e a mentira, que é uma espécie de produção de actos sem impressões digitais.
As Memórias são isso tudo e, às vezes, até nos fazem lembrar aquele nonsense do Raul Solnado quando, num mundo de gargalhadas que era logo a sua presença em palco, dizia: "Vamos contar mentiras!" Mas as suas narrativas têm muito, também, de um ajuste de contas com Sócrates, que hoje, na tsf desmente a fábula das escutas, uma fábula que toda a gente sabe foi urdida no Palácio de Belém para liquidar o PS, nas eleições.
Em múltiplas observações e comentários políticos (ver alguns nos dois volumes de Crónica do País Relativo e neste Blogue Notícias do Bloqueio) fiz de alguma forma uma espécie de processo do cavaquismo, em tudo aquilo que eram as contradições entre as palavras e os actos, uma arrogância como espécie de veneno contra a democracia, o universo de interesses espúrios em que os seus apaniguados de primeira grandeza (e, às vezes, ele próprio) eram actores principais (lembram-se do caso do BPN, por exemplo?).

Numa dessas notas retoquei o retrato de Cavaco. Dizia: "Quando Eça, em 1871 (ver Campanha Alegre), escrevia que "o país perdeu a inteligência e a consciência moral" e que "já não se crê na honestidade dos homens públicos", estaria longe de supor que em 2015 Portugal navegasse numa realidade tão sórdida, numa anquilose moral sem precedentes, em que os campeões da aldrabice se multiplicam como as moscas junto a carne apodrecida. O que ele, Eça, não escreveria hoje! Para a festa ser completa, o Presidente da República também não quis ficar atrás e quis disputar ao Primeiro-Ministro Passos Coelho o troféu de campeão da aldrabice (já era, com inteiro mérito, o campeão da asneira e do vazio cultural!). A descarada mentira que sua excelência proferiu sobre o Banco Espírito Santo, que mereceu uma crónica severa de João Miguel Tavares no "Público". Leiam Cavaco na primeira pessoa: "O Banco de Portugal tem sido peremptório, categórico, a afirmar que os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo, dado que as folgas de capital são mais do que suficientes para cobrir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa. E eu, de acordo com a informação que tenho do próprio Banco de Portugal, considero que a actuação do banco e do governador tem sido muito correcta. E a 30 de Janeiro de 2015: "Eu já reparei que alguns dos senhores, e também alguns políticos, disseram e escreveram que o Presidente da República fez alguma declaração sobre o BES. É mentira. É mentira! Alguns invocam uma declaração que eu fiz na Coreia. Na Coreia, eu fiz três declarações sobre o Banco de Portugal. E mais nada". 
A retórica pode ser uma boa arte de mentira, mas um Presidente da República, aldrabão, que se esconde nos malabarismos das palavras para enganar deliberadamente os cidadãos, é um sinal de perda de consciência moral, como dizia o Eça no século XIX."

Cavaco passou sempre, na Informação, entre os pingos da chuva. Por medo ou submissão aceitou tudo ou raramente deu dimensão informativa aos escândalos, como o do BPN, em que o ex-Presidente esteve envolvido. É nesse contexto que ele quer ressuscitar com as suas "Memórias" como milagre de circunstância política. Mas só o conseguirá se lhe derem cavalaria para isso. Temo que tenha muitos cavalos dispostos a deixarem-se montar!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

VOA, PALAVRA!

Não sei há quantos anos -- o Zé Rui Martins lembrou-o, um dia destes -- faço parte do universo da ACERT de Tondela, uma associação cultural no sentido mais amplo do conceito que, pela sua estrutura, dinâmica e acção, é verdadeiramente singular à escala do país. Sempre vi o Zé Rui como a alma mater da ACERT Trigo Limpo, na forma como impôs a associação à comunidade e de como a comunidade se tornou parte inteira da ACERT, numa identificação cultural comum que é uma grande viagem criadora.
Falar do grupo que materializa esta aventura é falar de uma grande paixão pelas coisas da terra, e, sobretudo, de uma alegria que nasce do desafio de transformar pequenas realidades. Isso só é possível porque a ACERT possui uma rara capacidade para dramatizações colectivas, algumas de sabor local outras mais épico, como foi o caso de A Viagem do Elefante, de José Saramago.
A história da ACERT, nos seus quarenta anos de vida, dá pano para mangas. Mas hoje quero falar do último espectáculo que vi do grupo, 20 Dizer, que é um momento alto em louvor da palavra e da poesia, um grande convite ao sonho, como o teatro deve ser. Fui vê-lo à Moagem, ao Fundão, no passado sábado, e foi um belo momento de poesia, com aqueles instantes surpreendentes de que só a arte poética é capaz, tão poderosa ela é que aquece os corações na noite fria ou faz sonhar firmamentos de estrelas, reais ou imaginárias.
Quem faz corpo com essa matéria de sonhos é o José Rui Martins (direcção artística, textos e declamação) e Luísa Vieira, voz puríssima de água a correr da montanha, responsável pelos arranjos e por uma multifacetada interpretação de flauta e m'bira. Ao longo de 60 minutos, descobrimos aquele chão de sons e versos e caminhamos através deles pelas coisas simples e primordiais que dão sentido à vida. No espectáculo, os versos e a música tomam conta da gente. Mas talvez se pudesse colocar como epígrafe a 20 Dizer aquele poema em que Eugénio de Andrade diz

São como um cristal, 
as palavras. 
Algumas, um punhal, 
um incêndio. 
Outras, 
orvalho apenas 

Secretas vêm, cheias de memória. 
Inseguras navegam: 
barcos ou beijos, as águas estremecem. 

Desamparadas, inocentes, 
leves. 
Tecidas são de luz 
e são a noite. 
E mesmo pálidas 
verdes paraísos lembram ainda. 

Quem as escuta? Quem 
as recolhe, assim, 
cruéis, desfeitas, 
nas suas conchas puras? 

Este espectáculo tem tido um acolhimento fantástico por todo o país. Para o Zé Rui Martins "os inúmeros espetáculos realizados não provam mais nada que não seja o prazer de fazer de cada palco um espaço de relação emotiva com audiências que saboreiam um duo com muita gente dentro. Teatros, bares, bibliotecas, escolas, hospitais e espaços não convencionais têm acolhido este espetáculo que se ajusta a audiências distintas, procurando estreitar distâncias entre o público e a declamação teatral musica." 20 Dizer tem outra virtualidade. Mostra, como diz João Luís Oliva, que "a palavra também não tem pátria" pois é "ela própria, pátria, uma das muitas pátrias dos nossos afectos". Podemos dizer que em 20 Dizer, a palavra voa por cima de fronteiras, como um dia mandou João Guimarães Rosa (Voa, palavra), ele que inventou uma palavra belíssima que foi o respirar do que se passou em palco: coraçãomente!
Neste breve aceno ao Zé Rui Martins e ao espectáculo, fica a gratidão de ver incluído nele um poema meu, inédito, que se cruza com o admirável mundo de Mia Couto.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

REQUIEM PELO FREIXO DA GARDUNHA

Todos os anos, quando o Outono se aproximava e a paisagem iniciava a sua mutação, perguntava ao Diamantino Gonçalves se o freixo da Gardunha já tinha alcançado o seu esplendor. Ele mandava-me fotografias da lenta transformação cromática da árvore, da mistura de verdes e amarelos,  em que estes últimos, pelo menos no freixo, acabam sempre por ser dominantes. O caçador de imagens documentava o caminhar do tempo no coração da árvore, e, quando a explosão de cores atingia a plenitude, dizia-me:
-- É agora! Está no ponto...
Era do Outono que ele estava a falar. Era o tempo de se correr à Gardunha e encher os olhos daquelas cores que nos dão uma soberba visão plástica da natureza mostrando-nos que tamanha beleza é uma bênção que está ao alcance do olhar.
Desta vez, o Diamantino Gonçalves veio dar-me uma notícia triste: o freixo anunciador do Outono fora assassinado, certamente a sangue frio. Olhei para a fotografia da morte do freixo, que morreu de pé, como se diz das árvores,  e apenas pude repetir a célebre recomendação de Schiller: contra a estupidez até os deuses lutam em vão! Que mal fazia a árvore? Não tendo resposta para o crime, apenas sei que, sem as cores do freixo desafiando a melancolia da paisagem, o Outono na Gardunha nunca mais será igual. Faltar-lhe-á sempre qualquer coisa. Haverá sempre, naquela curva da estrada, um vazio, uma breve memória que o tempo sepultará no esquecimento. A Gardunha e nós, mais pobres!

UMA HISTÓRIA COM MORTE NA NEVE

Primeiro, uns raios de sol a iluminar o nevão, depois a chuva, e o "milagre" da paisagem branca foi-se dissolvendo. Ficou, claro, a Serra, imponente com o seu manto branco e diáfano de fantasia a fazer-nos lembrar que o Inverno está por aí. A neve é sempre uma coisa fascinante, menos para aqueles que, sem agasalhos e afectos, têm a vida transformada em matéria gelada. Mas a neve provoca em nós, sempre, um exercício de memória que é um regresso às coisas fragmentárias da vida. Voltei, agora, a ler uma coisa que escrevera há dois anos. E que aqui deixo como aquelas pegadas que, quando a neve ainda está fofa, ficam a marcar a paisagem.

"Num fim-de-semana desigual, depois da matéria solar que nos encheu a alma, com luz intensa e céu azul, veio a chuva que, ontem, fustigou as horas e nos fez pedir agasalho. Ainda assim, a paisagem é sempre pródiga, se a soubermos olhar, mesmo nos excessos que fazem soar avisos de alertas coloridos para nos precavermos de aventuras que, às vezes, se transformam em tragédias. Lembro-me sempre da Serra da Estrela, quando a neve lhe lima as arestas graníticas e torna o espaço unidimensional, uma espécie de paisagem polar que dilui as diferenças e os lugares. Lá mais para cima, para aqueles espaços onde a presença humana é mais escassa, a brancura da neve, que é tão leve, impõe um silêncio pesado, só desfeiteado pelo vento. Se o tempo abre um pouco, os olhos poisam numa dimensão fantástica, que assim é o sortilégio da neve, mas às vezes, subitamente, eleva-se a tempestade, uma neblina densa desce sobre o horizonte e a geografia e o que ela alcança para lá do olhar, reduz-se a escassos metros e parece, então, que o tempo e o espaço é todo igual, oferecendo aquela angústia que a relativa perda do sentido de orientação agudiza até ao desconforto.
O senhor José Milhano, que conhecia a Serra como ninguém, ensinava essas coisas aos exploradores de circunstância que nós éramos e fazia-nos sempre um retrato objectivo da Serra da Estrela, nas suas grandezas e misérias. Armado da sua mochila, com mantimentos e um suplemento de vinho à mão de semear, ele palmilhava a Serra, sabia de cor os caminhos e as veredas, conhecia-lhe a intimidade dos segredos. No tempo em que não havia telemóveis e alguns turistas mais ousados que olhavam para a imensidão da Serra e diziam: "isto é canja!", se perdiam nos labirintos da neve, o senhor Milhano e grupos de montanheiros iam lá resgatá-los, ajudando os bombeiros nessas fainas de Inverno.
Houve, até, casos que redundaram em tragédia, como aconteceu com o exercício de um grupo de para-quedistas, lá nos confins do cimo da montanha, nos anos 80, que, surpreendidos por uma violenta tempestade de neve andaram às voltas, às voltas, não sabendo o chão que pisavam e foram encontrados, muito mais tarde, quando o tempo amainou, mortos, engolidos pelo frio, dispersos pela paisagem, excepto um, que tinha ficado longe, para trás. Sempre me interroguei o que teria acontecido na realidade, que circunstâncias levaram a deixá-lo para trás. Guardei a realidade como potencial matéria de ficcional por terem nas circunstâncias q.b. de mistério. Se calhar, penso eu, foi apenas a luta pela sobrevivência que dilui muito as solidariedades de grupo. Há quantos anos foi isto, pergunto-me agora, pensando nesses militares que morreram inanimados, cercados de pânico e de frio, no abismo da tal paisagem branca que lima as arestas do terreno. A montanha foi, então, uma imensa cova gelada, onde ficaram sepultados. Eles e a sua circunstância da neve.
Nem eu sei por que diabo me lembrei disto, agora, talvez pela neblina espessa que hoje enevoou a Estrela, pouco deixando ver um palmo, à frente do nariz. Ou talvez, quem sabe?, acrescento tantos anos depois, por ter olhado a Serra com o seu denso manto branco."

sábado, 11 de fevereiro de 2017

OLHAR A NEVE


Olhar a neve
que desce da Serra
e poisa tão leve
na alvura da paisagem
fazendo da terra
um manto original
de fantasia.
A brancura limou
a miragem na planura
dum mundo elemental
semeando instantes
de magia.
É tudo breve,
regresso à memória
 da infância brincada,
ao cenário das batalhas
com bolas de neve,
à história feliz
do boneco à beira da estrada
com um chapéu velho
na cabeça e
a cenoura no nariz
- um pinóquio a brincar.
Neve: imobilidade fantástica
tempo suspenso
na ternura dum olhar.

Fernando Paulouro Neves
Covilhã 11.2.16

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

TZEVATAN TODOROV, OS HOMENS E OS OUTROS

Uma das coisas que o pensador Tzvetan Todorov, que faleceu ontem em Paris, aos 77 anos, nos ensinou foi a aprendermos a olhar o outro como medida de todas as coisas. Talvez essa compreensão de uma humanidade em louvor da condição humana, sem margens ou amputações, nos leve sempre a pensar em Rimbaud e no seu célebre "Je est un autre". Mas no caso de Tzevetan Todorov, que foi aluno brilhante de Roland Barthes, professar de várias universidades, pensador de dimensão global e construtor uma obra ensaística referencial sobre o nosso tempo, o ensaísta, que venceu o Prémio Príncipe das Astúrias em 2008, foi um dos observadores mais lúcidos da desordem das sociedades contemporâneas: "humanista de alento crítico, dedicou a sua obra a estudar a alteralidade, a barbárie, os limites da liberdade individual e o espírito de insubmissão ante circunstâncias adversas" (Álex Vicent, "El Pais", 7.2.2017). 
Todorov escapou da Bulgária para uma formação intelectual feita no caldo cultural de Paris dos anos sessenta. Gostava de se classificar como um "auto deslocado" e essa condição, penso eu, conduziu-o a eleger como matéria primordial de reflexão a alteridade e a explicar que "cada indivíduo é multicultural e as culturas não são monolíticas." Em 2010, numa entrevista ao "EL Pais", ele antecipou a crise civilizacional que aí vinha, com deslocados de outro tipo, os refugiados, ao sublinhar que "este medo aos imigrantes, ao outro, aos bárbaros, será o nosso primeiro grande conflito no século XXI." Porque "o medo dos bárbaros é o que arrisca a converter-nos em bárbaros." 
O pensamento de Todorov é, também, um contributo notável para a questão crucial que é, nos dias de hoje, a memória histórica. O seu livro Insubmissos é uma introspecção a figuras, cuja confrontação com o tempo é a história da relação com a crueldade na vida concreta do século XX. Estão neste caso Pasternak, Stalin, Soljenitsine, Mandela, Germaine Tillion (nome grande da Resistência Francesa contra a ocupação nazi), Malcom X. 
No fundo trata-se de uma inquietação que ele exprime através da escrita. "Escrevo contra o ódio e a favor da compaixão", explicou Tzevatan Todorov. Autor de A Experiência Totalitária e, entre muitos outros,Introdução à Literatura Fantástica ou Nós e os Outros, o ensaísta foi, sobretudo, um homem comprometido com os problemas do nosso tempo, acrescentando-lhes uma qualidade de reflexão que é um longo processo de consciencialização da realidade social na sua dimensão inclusiva.
Quando o distinguiram com o Prémio Príncipe das Astúrias, lembrou que "o estrangeiro não só é o outro, nós próprios o fomos ou seremos,ontem ou amanhã, no alvor de um destino incerto: cada um de nós é um estrangeiro em potência." E advertiu: "Pela maneira como percebemos e acolhemos os outros, os diferentes, pode medir-se o nosso grau de barbárie e civilização. Os bárbaros são os que consideram que os outros, porque não se parecem com eles, pertencem a uma humanidade inferior e merecem ser tratados com desprezo ou condescendência. Ser civilizado não significa ter feito cursos superiores ou ter lido muitos livros, ou possuir uma grande sabedoria: todos sabemos que certos indivíduos com essas características foram capazes de cometer actos de absoluta perfeita barbárie. Ser civilizado significa ser capaz de reconhecer plenamente a humanidade dos outros, ainda que tenham rostos e hábitos distintos dos nossos; saber pormo-nos no nosso lugar e olharmo-nos a nós próprios como se fossemos de fora. Ninguém é definitivamente bárbaro ou civilizado e cada um é responsável pelos seus actos."

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

VIDA E MORTE: MISTÉRIO E DUALIDADE

No outro dia, ao falar de Vida e Morte da Literatura, Arnaldo Saraiva mostrou bem como essa dualidade temática se transformou num alimento primordial da criação literária, às vezes diluindo-se numa realidade inseparável, feita de perplexidades e espantos. Daí, certamente, o facto de ele ter começado por lembrar a genial obra do seu amigo João Cabral de Melo Neto, criador do célebre auto Morte e Vida Severina, que muito antes de Abril veio ao Fundão, a convite de António Paulouro.
De facto, na aventura de o homem se fazer a si próprio, essa reflexão ontológica sobre a relação da vida com a existência cósmica de cada um é uma imemorial interrogação poética e literária. Lembro-me sempre daquele pensamento de Vergílio Ferreira que é uma síntese perfeita dessa questão: a vida é um fio de luz entre dois pontos escuros, o nascimento e a morte. E o Eugénio de Andrade tem um poema em Os Sulcos da Sede, o seu último livro, em que os versos reflectem a inevitabilidade da morte com uma ponta de saborosa ironia:

Eu sei: tu querias durar. 
Pelo menos durar tanto como o tronco 
da oliveira que teu avô 
tinha no quintal. Paciência, 
querido, também Mozart morreu. 

Andava eu à volta destas coisas, tinha acabado de escrever um texto de ficção sobre a morte fingida, para o livro praticamente pronto, Fellini na Praça Velha, quando li no "El Pais" uma curiosa matéria sobre "A morte em aforismos", de Jorge Wagensberg. O autor sublinha estarmos face a uma inquietação que nunca nos abandona, desde há centenas de milhares de anos, quando o primeiro homem olhou para as estrelas porque sabia que também ia morrer. Talvez o melhor, diz ele, seja assumir a vida como um jogo de azar que vale a pena jogar. "Por este caminho, a reflexão nunca deixa de recomeçar".
De facto, "temos muito pouco tempo para estar vivos e todo o tempo do mundo para estar mortos, pois que pena, porque há muitas maneiras de estar vivo e só uma de estar morto". Daí, talvez, a velhíssima locução latina: primeiro viver, depois filosofar!
E agora, vamos lá então a descobrir "a morte em aforismos".
1. Não há maneira de encontrar consolo frente à certeza de que um dia vamos morrer, nem sequer pensando na baixíssima probabilidade que chegámos a nascer.
2. A probabilidade de voltar a nascer depois de morto é colossalmente pequena, mas não é nula como ilustra o facto de já termos nascido uma primeira vez.
3. Agora já não tem remédio, mas a morte necessária é uma inovação imposta pela reprodução sexual.
4. Uma bactéria aspira à eternidade convertendo-se a tempo na sua própria descendência
5. Se a medicina logra um dia curar doença, já ninguém se atreverá a cruzar uma rua, porque uma coisa é perder a vida e outra, muito diferente, é perder a eternidade inteira.
6. Por simetria: já sei onde estarei depois de morrer -- mais ou menos onde estava antes de nascer.
7. Uma pessoa acaba de morrer de todo quando morre o último que o conheceu em vida.
8. A frase mais frequente nas lápides dos cemitérios, nunca te esqueceremos, descansa sobre a hipótese tácita de que só morrem os outros.
9. Os que prometem a glória no Além em troco do sacrifício na Terra não necessitam de livro de reclamações.
10. A morte é a mais surpreendente de todas as notícias previsíveis.
11. Viver envelhece, envelhecer humilha e a maior humilhação é morrer.
12. Morreu e depois algo se apagou retrospectivamente no olhar de todas as fotografias que dele haviam tirado ao longo da vida.
13. Pensar na vida gera tanta perplexidade como pensar na morte.
14. Jazer é grátis, qualquer outra coisa é arquitectura.
15. Todo o real é pensável (hipótese da ciência), mas todo o pensável não tem que ser real (hipótese da literatura), logo a imaginação é maior que a realidade inteira (tese cientifico-literária).
16. A invenção do inferno: viver é baixar um instante da eternidade com o alto risco de arruiná-la irreversivelmente.
17. A uma expressão se pode dar a volta para que melhore o seu som sem que mude o seu significado, por exemplo, vida eterna em lugar de morte eterna.
18. Ganhou a vida eterna e se dispunha a desfrutá-la com ilusão, quando compreendeu que se ia aborrecer e que na eternidade já não se morre nunca.
19. Temos muito pouco tempo para estar vivos e todo o tempo do mundo para estar mortos, pois que pena, porque há muitas maneiras de estar vivo e só uma de estar morto.
20. Epitáfio: lamento não estar em condições de ler este epitáfio.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

VIDA E MORTE DAS PERSONAGENS

Volto sempre ao texto antigo de Mário Vargas Llosa que se interrogou, no ensaio à volta de Como se faz uma novela, sobre o carácter ontológico que pode ser o exercício da escrita, como aquilo que ele chamou um deicídio. Essa morte de Deus não era outra coisa senão o desafio ao Criador que era o próprio acto de criar realidades. A construção de uma novela implica a exposição, pelo narrador, dos seus fantasmas interiores. O que levou Vargas Llosa a dizer que, ao contrário da mulher que faz streap-tease para expor as suas belezas, o ficcionista mostra os seus demónios mais profundos.
Voltei a discorrer sobre o tema porque li um curioso texto no "El Pais" sobre uma questão que, penso eu, assalta sempre aqueles que respondem, pela escrita, ao desafio de criar realidades e personagens.
Fazia-se uma pergunta: "as personagens nunca morrem... ou morrem?". Ainda por cima, tratava-se de comentar a ressurreição de Pepe Carvalho, o lendário detective de Vásquez Montalbán, pelas mãos de outro escritor, Carlos Zanón, para a editora Planeta.
A jornalista cita exemplos (do Poirot de Agatha Christie ao James Bond, de Ian Fleming, do Philip Marlowe de Chandler ao Mr. Holmes de Conan Doyle) e diz que é uma prática que se tornou comum na novela negra.
A notícia de que o detective Pepe Carvalho vai voltar em 2018 causou-me um certo mal-estar. Fui seu leitor compulsivo (e quantas saudades tenho dele!), frequento com regularidade o autor de Os Mares do Sul,  do Quarteto de Buenos Aires ou de Os Pássaros de Bangkok, cidade onde morreria no aeroporto vítima de enfarte. Manuel Vásquez Montalbán era único e "uma presença irrepetível na literatura", como assinalou António Munoz Molina. Nesse sentido, as personagens não morrem. E, talvez por isso,  Andrea Aguilar lembrasse que "a personagem que buscava o seu autor na obra de Pirandello, já o advertira: "Quem teve a sorte de nascer como personagem vivo, pode rir-se até da morte. Não morrerá nunca."
As personagens são uma espécie de filhos e os seus criadores, muitas vezes, não admitem expropriações ou aproveitamentos. Haja em vista o que aconteceu com o nosso Eça de Queirós. No grande romance Os Maias, Eça ridicularizou um certo tipo de retórica poética através da personagem Alencar, que é uma caricatura soberba de um poeta sem qualidades. Pinheiro Chagas julgou ver na composição de Alencar uma ataque ao seu amigo Bulhão Pato, e reagiu com veemência. A resposta de Eça é uma peça de antologia. Ele pediu a Pinheiro Chagas: faça o favor de se retirar de dentro das minhas personagens!
Penso que Vásquez Montalbán era capaz de dizer o mesmo a Carlos Zanón.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

EUGÉNIO DE ANDRADE, MEMÓRIA DE CASTELO BRANCO

FOTO DE MARIA NICOLAU FILIPE
Hoje, às 18 horas, estarei no Museu Tavares Proença Jr, em Castelo Branco, para falar do meu livro A Materna Casa da Poesia. A sessão não é mais do que um pretexto do coração para uma "festa" à volta da poesia de Eugénio de Andrade. Por isso, o acontecimento terá música da ESART (o professor João Raimundo ao piano) e canto, leituras paralelas de poemas por Manuel Costa Alves e Gonçalo Salvado, "As Mães" por Adelino Pereira.
O lugar da sessão, o Museu Tavares Proença Jr. é um espaço simbólico muito especial. Falo dele no livro no tempo em que António Salvado era director e Eugénio ali veio, pois era o tempo em que o Museu irradiava intensa luz cultural. É bom por isso ter lá o poeta António Salvado para falar de A Materna Casa da Poesia, e poder dar-lhe um abraço, lembrando o que foi a sua acção à frente do Museu Tavares Proença Jr.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

NO TEMPO EM QUE...

Estava convencido de que a contingência de fazer anos -- ainda não há receita para suspender, para efeitos de futuro, o calendário! -- nos atirava nostalgicamente para os versos de Pessoa: "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos". E assim se arrumava uma questão que, sendo pessoal, traz sempre consigo o sinal da amizade. Bem sei que o dia 31 de Janeiro, pela carga de memória revolucionária que simbolicamente carrega, não é fácil de diluir na banalidade dos dias que fazem o ano, mas fiquei sinceramente surpreendido com o volume das mensagens telefónicas, de e-mails ou via Facebook. Neste último espaço, cerca de cinco centenas, com palavras amigas, incentivos à escrita, estímulo aos dias claros de felicidade. Mentiria se dissesse que tanta cópia de amizade não me comoveu e até me inquietou pela responsabilidade que este universo de escrita imediata comporta. São amigos de perto e de longe: uns que conheço de velho e persistente companheirismo; outros que se juntam a mim pelas palavras. A todos, por igual, estou gratíssimo, ciente de que a amizade é um valor primordial que nos ilumina a vida.
Por isso, talvez o melhor recurso de gratidão seja recorrer aos versos do poeta, à arte poética de Eugénio de Andrade, para dizer com ele o poema que ele dedicou aos Amigos:

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava 
porque partia
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria --
por mais amarga.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A DOIS AMIGOS QUE PARTIRAM

Não vale a pena repetir o belíssimo poema de Auden, quando, face à morte de um amigo, manda desligar os relógios, calar os sinos, os pianos e o latir dos cães. Nestes dias que passam, dois amigos da mesma geração do colégio e de todas as aprendizagens, o Fernando Nabais e o Vasco Afonso, partiram. Todos amigos comuns. E essas notícias tristes, que chegam sempre com aquela carga de irremediabilidade e de ausência que nos deixam atónitos, remetem-me sempre para Whitman porque na expressão da dor dos seus versos ele busca o silêncio. E o silêncio é a grande reserva íntima de cada um, total e absoluta, de onde emerge aquela fala interior profunda que nos põe em confronto com a vida.
No meu caso, esse falar vai agora ao encontro da memória para uma lembrança fugaz de acontecimentos e imagens, vivências e camaradagens, sei lá, aquilo que cimenta o universo da convivialidade, que é o fluir do tempo da vida.
Os dois amigos que partiram, tão diferentes nos percursos de vida, tinham uma coisa em comum: bondade. O Vasco era um benfiquista sorridente e o Fernando um leão dos autênticos, um pouco à António Silva de O Leão da Estrela, para quem a bola era um pretexto de conversa alegre. Quem conheceu o Vasco sabe como ele gostava de partilhar alegria com os amigos e de chutar para canto qualquer tipo de chatice que pudesse ensombrar a conversa. Era uma pessoa de que todos gostavam muito.
O Fernando Nabais foi um economista distinto que deixou a marca do seu saber por onde passou, do Ministério da Energia à Caixa Geral de Depósitos. Mas nunca alardeou essa condição e sorria quando eu lhe dizia que os economistas no governo em tempo de troikas e mesmo fora delas (às vezes travestidos de grandes especialistas financeiros) eram a desgraça deste país. Ele respondia-me: "Eles, os economistas, e os outros!" Era um fundanense na verdadeira acepção da palavra, comentava as desgraças colectivas da terra e fazia ironia à volta de piruetas de políticos domésticos, mas nunca tratava a realidade humana com desdém ou indiferença. O Fernando Nabais era de uma grande cordialidade. Gostava de partilhar a mesa, e, à volta dela, no Verdinho do sr. Pires, seu poiso habitual quando vinha ao Fundão, a conversa era sempre fraterna e animada. Fazia parte da tribo dos homens bons. 
Volto à lembrança do poema de Auden, não já à procura de silêncio, antes dissolvendo a dor de ver partir dois amigos tão jovens num aceno de palavras tintas de lágrimas.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

HISTÓRIAS DA INFÂMIA NA INFORMAÇÃO

A ACTUALIDADE DO TRAÇO DE ZÉ DALMEIDA
Há anos que se vem escrevendo na imprensa doméstica uma espécie de história portuguesa da infâmia, tomando eu aqui de empréstimo a alusão ao livro de Borges. Não é só a degradação do interesse público, que era questão primordial do fazer jornalismo, ou a indiferença às causas que colocam a condição humana no fio da navalha, ou a prática de não garantir o direito à informação numa selecção cuidada da realidade, ou a ausência dos desígnios de expressão cultural, como marca identificadora na reportagem e na crónica. É o afastamento de tudo isso mais os interesses espúrios dos cavalheiros de negócios que tomaram conta da informação, a sua submissão aos poderes, o analfabetismo reinante nos universos do mando, a aposta na precariedade e a instalação do medo dentro das redacções. Há uma selva no panorama da imprensa que os que ainda lêem jornais descobrem todos os dias. Mas a selva, com os seus contornos de ausência de valores, de vale tudo (até chincar olhos!) estende-se, em Portugal, ao universo total da informação. Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar, dizem os versos de Sophia que o Fanhais cantava, quando a liberdade era proibida.
Há muito se instalou uma deriva de direita no mundo da informação. Estes dias têm sido particularmente vivos na exemplificação da inquinação reinante. O director do "Público", David Diniz, que transitou do "Observador" para a TSF e desta para o "Público", que foi ao Congresso dos Jornalistas dizer que a Imprensa portuguesa estava óptima e se recomendava, procede no jornal do senhor Belmiro deAzevedo a uma clara limpeza, à esquerda. Ora, um dos traços identificadores deste diário era a qualidade da opinião, assente num carácter plural que garantia uma clara expressão democrática, de que a informação é causa e efeito.
Tudo isso se vai, gradualmente, diluindo, numa espécie de estratégia da aranha. Assistimos, nos últimos tempos, ao afastamento de colaboradores que faziam parte do rosto do jornal, como José Vítor Malheiros, Alexandra Lucas Coelho ou Paulo Moura, enquanto outros são arredados da edição de papel e remetidos para o on-line que, aliás, parece ser o destino do jornal.
As notícias inquietantes surgem de vários quadrantes. Por exemplo, o veto a João Paulo Guerra para Provedor da RDP. É preciso dizer que João Paulo Guerra tem uma história dentro do jornalismo, com um papel fundamental antes e depois do 25 de Abril, fez escola na forma de fazer crónica e reportagem no mundo dos sons, tem uma biografia cultural e cívica que prestigia o jornalismo e a cultura portuguesas.
Um amigo meu, também indignado sobre esta notícia, dizia-me que João Paulo Guerra sempre praticou o desassossego e o que estes tipos hoje querem é silêncio, a paz dos cemitérios é que é boa! Seja como for, a exclusão de João Paulo Guerra é um sintoma de um certo Portugal e de uma certa impunidade que costuma morrer no esquecimento. Por isso, penso eu, Adelino Gomes punha um dia destes o dedo na ferida, questionando:
"Sabemos que o voto é secreto. Mas, precisamente pelas razões que este texto tão bem aponta, os cidadãos têm o direito de saber os fundamentos de tão "bizarra decisão". João Paulo Guerra é uma figura maior da História da Rádio em Portugal. Se os autores do veto não partilharem com a cidadania os motivos que os levaram a votar contra o convite que lhe foi dirigido pela Administração da RTP - uma atitude que só os dignificaria - , considero que o Conselho de Opinião deve providenciar no sentido de apurar tais razões e torná-las públicas. De forma a que todos fiquemos a par do perfil que a actual maioria deste órgão entende dever ser o do provedor da rádio pública".

domingo, 22 de janeiro de 2017

O PRIMARISMO DE TRUMP

Não me lembro de uma repulsa tão grande face à eleição de um Presidente dos EUA, como a que está acontecendo, um pouco por todo o lado, depois que Trump (certamente o criador do trampismo - de trampa - na política), ocupou com armas, bagagens e estupidez a Casa Branca. É certo que o clamor da indignação, que envolve certamente um misto de insegurança e de repulsa pelo carácter xenófobo, populista e nacionalista do ideário de Trump, é sobretudo um grito colectivo de consciência, pois o desastre da eleição do presidente americano começou muito antes, quando as contradições do partido democrata lhe abriram caminho por uma espécie de terra de ninguém. Olham-se, por isso, as manifestações colectivas, os gestos e as palavras de protesto e respira-se o duro sentimento de assistirmos a um choro sobre o leite derramado. 
Seja como for, quem assistiu às cerimónias da posse - e, sobretudo, ao vazio e à pobreza de um discurso que não era outra coisa senão a retórica de apelo aos sentimentos mais primários -, não pode deixar de exprimir perplexidade e inquietação, um fundo desassossego,  pela irracionalidade que Trump transporta consigo, pela boçalidade de um pensamento inquinado, o que pode levar o mais comum dos mortais a interrogar-se:
-- Ninguém saberá do que esta besta é capaz! 
Depois, há nos seus actos e atitudes uma dimensão de hipocrisia, que nasce da velha "teoria" de que a política é uma arte para enganar tolos. Veja-se: ainda decorria o ritual público da posse, ainda ele não aquecera o lugar, e já os serviços da Casa Branca se apressavam a dizer que Trump assinara seis despachos de reversão da política de Obama, entre os quais os que visam abandonar a política de redução de energias poluentes, o plano para a defesa do clima e da água, e - helas - o Obamacare, o programa de acesso à saúde, de que estavam (e passarão a estar) excluídos milhões de americanos! Todavia, no discurso presidencial, esgotou a palavra povo, a quem disse que devolvia o poder e daria tudo... Como exemplo de hipocrisia em política, não poderá haver melhor! 
Inquietante é sabermos que o país mais poderoso do mundo vai ser governado por um sujeito assim. Que utiliza o patriotismo como narcótico contra o pensamento livre. Que, seguramente, nunca leu o que Samuel Johnson escreveu em 1774 para avisar que, às vezes, o patriotismo é "o último recurso de um canalha" que tantas vezes o exibe para "ocultar os seus próprios interesses".