terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A DOIS AMIGOS QUE PARTIRAM

Não vale a pena repetir o belíssimo poema de Auden, quando, face à morte de um amigo, manda desligar os relógios, calar os sinos, os pianos e o latir dos cães. Nestes dias que passam, dois amigos da mesma geração do colégio e de todas as aprendizagens, o Fernando Nabais e o Vasco Afonso, partiram. Todos amigos comuns. E essas notícias tristes, que chegam sempre com aquela carga de irremediabilidade e de ausência que nos deixam atónitos, remetem-me sempre para Whitman porque na expressão da dor dos seus versos ele busca o silêncio. E o silêncio é a grande reserva íntima de cada um, total e absoluta, de onde emerge aquela fala interior profunda que nos põe em confronto com a vida.
No meu caso, esse falar vai agora ao encontro da memória para uma lembrança fugaz de acontecimentos e imagens, vivências e camaradagens, sei lá, aquilo que cimenta o universo da convivialidade, que é o fluir do tempo da vida.
Os dois amigos que partiram, tão diferentes nos percursos de vida, tinham uma coisa em comum: bondade. O Vasco era um benfiquista sorridente e o Fernando um leão dos autênticos, um pouco à António Silva de O Leão da Estrela, para quem a bola era um pretexto de conversa alegre. Quem conheceu o Vasco sabe como ele gostava de partilhar alegria com os amigos e de chutar para canto qualquer tipo de chatice que pudesse ensombrar a conversa. Era uma pessoa de que todos gostavam muito.
O Fernando Nabais foi um economista distinto que deixou a marca do seu saber por onde passou, do Ministério da Energia à Caixa Geral de Depósitos. Mas nunca alardeou essa condição e sorria quando eu lhe dizia que os economistas no governo em tempo de troikas e mesmo fora delas (às vezes travestidos de grandes especialistas financeiros) eram a desgraça deste país. Ele respondia-me: "Eles, os economistas, e os outros!" Era um fundanense na verdadeira acepção da palavra, comentava as desgraças colectivas da terra e fazia ironia à volta de piruetas de políticos domésticos, mas nunca tratava a realidade humana com desdém ou indiferença. O Fernando Nabais era de uma grande cordialidade. Gostava de partilhar a mesa, e, à volta dela, no Verdinho do sr. Pires, seu poiso habitual quando vinha ao Fundão, a conversa era sempre fraterna e animada. Fazia parte da tribo dos homens bons. 
Volto à lembrança do poema de Auden, não já à procura de silêncio, antes dissolvendo a dor de ver partir dois amigos tão jovens num aceno de palavras tintas de lágrimas.

3 comentários:

  1. Vai-me desculpar, mas o poema que refere é de W. H. Auden.
    Cumprimentos.

    APS

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    1. Tem razão e agradeço-lhe que me tenha lembrado o lapso. Vou emendar.

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  2. Tomo a liberdade de inserir um comentário de Jorge Morgado sobre o Fernando Nabais. É assim:
    "Velho"
    Era assim que alguns de nós te chamávamos de há muito tempo.
    Não sei porquê!
    Pois se tu até eras o mais novo...!
    Foste-te embora...
    Acabou-se esse sofrimento que suportavas, para ti, ... em silêncio...
    Se calhar, era demais...
    Exames, tratamentos, ligeiras melhoras e recaídas, mais hospital, mais casa..
    Sem saíres ... porque ... te cansavas demasiado .... e estava frio...
    Era um beco sem saída, embora todos quiséssemos um milagre...
    E tu também..., mesmo não sendo religioso...
    Nunca gostaste de perder...nem a feijões...
    Mas, sem trunfos, sem ases, nem sequer biscas..., como poderias ganhar??
    E não era um jogo de sueca, que por fim, até aprendeste a jogar na internet...
    Sempre foste teimoso que nem um burro!!!
    Infelizmente, desta vez a teimosia, não te ajudou...
    Mas eras magnânimo com todos..., amigos ou conhecidos...
    Com quem é que agora falamos, se precisarmos de um contacto???
    Já não tens que te preocupar..
    Cá nos havemos de arranjar, menos bem, sem os teus números de telemóvel...
    Não gostámos nada de te ver partir...
    Para onde quer que estejas vai um grande abraço, ...apertado como aqueles que só os amigos
    sabem dar...
    Descansa em paz...

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