sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

CONTRA OS PROFETAS DO APOCALIPSE

MICHEL SERRES

Há uma questão tão profunda, que vem de dentro de nós, cuja dimensão ontológica é fonte de perplexidades e dúvidas, que nos acompanham sempre. Que mundo é este em que estamos? A pergunta remete-me sempre para o extraordinário poema de Jorge de Sena, quando, a propósito de uma tela que o inquietou, de Goya, ele se interroga: "Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso!" O poema é um canto em louvor da humanidade, mas também uma lembrança ferida dos crimes que, contra ela, a história regista. Talvez a interrogação do poeta tenha, no contexto da actualidade em que estamos, ganho renovado sentido, pois a banalização do mal reproduz-se por aí como fatal doença da nossa idade.
Envolvido nesse sentimento, que nos atira sempre para um pessimismo atroz, não pude deixar reflectir sobre uma entrevista que Michel Serres concedeu ao "El Pais", em que o filósofo, de algum modo, contraria o estado de descrença que tolhe o coração de todos aqueles que acreditaram na utopia de que o mundo seria um dia uma fraterna casa comum.
"A humanidade progride adequadamente", diz Michel Serres, e vive o seu melhor momento desde há três mil anos. No texto introdutório, o jornalista Borja Hermoso, questiona: "É o homem lobo do homem? E, em caso afirmativo, supõe isso uma tragédia? Se o é por que razão a loba amamentou Rómulo e Remo e o continua a fazer no estandarte da Roma eterna? São perguntas que Michel Serres (Agen, França, 1930) faz e nos faz. O velho professor de Stanford, conferencista na Sorbone e membro da Academia Francesa, um dos grandes pensadores europeus vivos e autor de uma imensidão de ensaios sobre história da filosofia e da ciência como O Hermafrodita, A Lenda dos Anjos, Genesis,Os Cinco Sentidos ou o ciclo de Hermés, lança agora não já novas perguntas, mas umas certezas demolidoras como punhos no seu novo livro Darwin, Bonaparte et Le Samaritain, recentemente publicado. Para o filósofo "os lobos convivem em manadas organizadas de forma coerente e racional e praticam a solidariedade entre eles e as lobas são umas educadoras formidáveis", numa crítica a Thomas Hobbes, e, diz o jornalista que conversou com Serres, ele "ao mesmo tempo arremete contra o que considera um abusivo legado de Hegel que falava do "trabalho do negativo". E sublinha: "Não tem problema Michel Serres em ir ao arquivo da História e reconhecer que a Humanidade foi, com efeito, durante pelo menos 3 000 anos, um banho de sangue permanente e que houve muita matéria para "o trabalho do negativo".
O pensador releva a situação da Europa Ocidental, onde se vive em paz há 70 anos, algo que não acontecia "desde a Guerra de Tróia". Essa perspectiva motivou grande polémica em França, tendo em conta o contexto dos atentados jiadistas, mas Michel Serres contrapõe: "Se você busca na internet "causas de mortalidade no mundo", saldarão as estatísticas oficiais facilitadas pela OMS. Não são dados de Michel Serres, mas da Organização Mundial da Saúde. Bom, verá que a causa menos frequente de morte na actualidade é "guerras, violência, terrorismo". Morre infinitamente mais gente por causa do tabaco e de acidentes de viação. Assim como há uma grande contradição entre o estado real das coisas e a forma como o estamos percebendo, porque vivemos como se estivéssemos imersos num estado de violência perpétua, mas isso não é real em absoluto". Devíamos escrever uma verdadeira história da dor. Não nos damos conta, de verdade, de até que ponto sofreram nossos antepassados e não somos conscientes de todos os medicamentos que temos e nos ajudam a viver melhor e a combater melhor a dor. Mas se o rei Luís XIV tinha os melhores médicos ao seu redor e passou a vida gemendo de dor porque tinha uma fístula anal incurável! Hoje, isso se resolvelve-se com uma pequena intervenção cirúrgica e três dias de antibióticos".
Depois, com força de exemplaridade, surgem Auschwitz e Hiroshima. "Com a explosão de Hiroshima triunfa e ao mesmo tempo acaba a idade da morte", escreve ele. A mensagem do filósofo é que a humanidade vive em paz e em progresso "apesar das evidentes, numerosas e sangrentas excepções e facturas a pagar. Que Uganda, Botswana, Kenia ou Etiópia têm mais esperança e qualidade de vida do que há 25 anos, apesar de massacradas pelas injustiças. Que a investigação já sabe como combater doenças infecciosas que antes pareciam fatais, ainda que continue morrendo gente. Que não há guerras selvagens/globais no mundo, apesar da carnificina na Síria ou dos atentados jiadistas. Que a Idade Média ou a Inquisição eram um pouco pior que o século XXI. Que pese a paisagem funesta, progredimos adequadamente. Alguém pode rebater isto? Sim, alguns profetas do Apocalipse. Uma recente sondagem da Gallup revelava que 81% dos simpatizantes de Donald Trump crêem que o mundo piorou nos últimos 50 anos!"
Às vezes, é bom que uma breve brisa de esperança atravesse o rosto dos dias. Mesmo que o vento de optimismo seja escasso, é bom respirá-lo para fazer face à retórica dos profetas do Apocalipse.

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