quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

HISTÓRIA DE UM LIVRO QUE ABALOU O REGIME



Há anos, num suplemento que publiquei no JF sobre o 25 de Abril, penso que nos 35 anos da Revolução desencadeada pelo MFA, contei a história de um livro proibido, Escritos Políticos, de Mário Soares. Acho que é bom lembrar o acontecimento, agora que Soares nos deixou, como preito de memória. Penso que devemos seguir o velho ensinamento de Gide: "Tudo está dito já, mas como ninguém ouve, é preciso repetir sempre!". 

Habituados ao convívio e à prática dos direitos elementares, desde o 25 de Abril de 1974 (já lá vão quase trinta e cinco anos), alguns se lembrarão ainda da liberdade de expressão como delito comum e de um universo asfixiante da cultura configurado aos arcaísmos mentais da ditadura; outros, das novas gerações, que cresceram em plena democracia, olham para essas realidades absurdas, porventura inacreditáveis, como velha arqueologia, e precisam de fazer um exercício largo de imaginação para perceber os mecanismos da repressão e da intolerância que se viviam em Portugal.
Esse desfasamento temporal de conhecimento, que provoca tanta indiferença, radica em boa parte na forma como a memória não só não foi democratizada socialmente (e aqui há sempre que apontar a responsabilidade que a escola tem nessa transmissão), como, em muitos aspectos, tem sido apagada ou adulterada.
Nesse aspecto, vale a pena lembrar as dificuldades e os perigos que a publicação de um livro representava. A palavra insubmissa, mesmo em tempo de censura, quando os leitores -- como um dia disse Augusto Abelaira sobre a Censura brutal imposta ao Jornal do Fundão -- se transformavam em detectives das palavras,  era a luz que guiava o pensamento, uma espécie de reserva moral que alimentava a resistência e abria ao cidadão a matéria do sonho e da utopia. 
É do maior interesse lembrar, por isso, o que foi a saga da publicação, em 1969, do livro de Mário Soares, que punha em causa frontalmente o regime, desmistificando o carácter repressivo da ditadura, mau grado a ilusão da primavera marcelista, então ainda no apogeu. Este facto confere ao livro de Mário Soares a maior importância, como pensamento autónomo sobre a sociedade portuguesa, numa batalha pela democratização e pela exigência de um Estado de Direito em Portugal. Soares contou que ninguém se dispunha a imprimir o livro e foi António Paulouro que o fez na Tipografia do Jornal do Fundão, já então muito vigiada pela PIDE. O livro foi, pois, composto e impresso na então Tipografia do “Jornal do Fundão”. Era preciso fazê-lo no maior segredo para evitar a sua apreensão pela PIDE. Escritos Políticos foi composto linha a linha na Linotype, passou à impressão e, depois, ao acabamento e foi distribuído pela Editorial Inquérito, propriedade de Eduardo Salgueiro, que prestou assinaláveis serviços à cultura portuguesa. O editor foi o próprio autor, o Dr. Mário Soares.
Fazer um livro destes era uma saga, um acto de coragem, um risco assumido no fio da navalha. Um dos compositores da obra, Jerónimo Clemente, agora revisor no Jornal do Fundão, recorda esse tempo assinalando que, “sentado à linotype o compositor tinha sempre preparado um texto inócuo alternativo, para colocar por cima do original que estava a ser composto, sempre que alguém estranho ou que levantasse suspeitas entrava na tipografia”. 
À distância de 40 anos, Jerónimo Clemente recorda outro livro muito importante que se fez na tipografia do JF, para as Edições Europa-América, de Lyon de Castro, outro editor de rara coragem, o Dicionário Crítico de Algumas Palavras Correntes, de António José Saraiva, que a PIDE só viria a apreender mais tarde nas livrarias, já com muitos livros vendidos. “Era preciso muita atenção”, diz Jerónimo Clemente, “que os tipos, às vezes, entravam aos coices, sem avisar, pela porta de serviço da oficina”.  Quando o livro ficou pronto, foi Maria Barroso quem o veio buscar ao Fundão, à noite, num dia cinzento. Veio com cautelas redobradas, Mário Soares tinha, um ano antes, 1968, sido deportado para S. Tomé. 
Há dias, o Dr. Mário Soares dizia-me que este livro era particularmente relevante na história da democracia portuguesa por conter documentos (por exemplo o texto “À Nação”, de Dezembro de 1968), subscrito por centenas de democratas da área socialista, que é já uma afirmação do futuro Partido Socialista. No prefácio de Escritos Políticos, Soares lembra o seu percurso assinalando a intervenção cívica que “desde 1942, ano em que, recém-chegado à Faculdade de Letras, com os meus dezassete anos, comecei activamente a participar no longo calvário colectivo da Oposição ao actual regime”. E logo acrescenta: “Desde então, silenciado quase sempre, combatido com armas desiguais, preso, perseguido, caluniado, deportado, privado dos meios normais de contacto com o público, fui – apesar de tudo isso – procurando afirmar sempre as minhas ideias – conforme pude – temperadas no acendrado amor pela terra-pátria e no apaixonado interesse pelos problemas essenciais da gente portuguesa, com independência, não isenta de certo risco, com manifesto desinteresse pessoal e com idealismo, uma vez que nunca pretendi mais do que participar – como homem livre e em igualdade de condições com os meus compatriotas – na vida pública do meu País. Como, de resto, tem acontecido, em circunstâncias ainda bem mais difíceis, a milhares de outros oposicionistas...” 
Ideias (“Mas Excelentíssimos senhores, é possível viver sem ideias?”, perguntara Antero, a propósito da proibição das Conferências do Casino), o pensamento como liberdade livre, uma batalha sem fim em que este livro se inscreve. É preciso lembrar.

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