terça-feira, 10 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES

MÁRIO SOARES POR JÚLIO POMAR

Na biografia das figuras da História, há sempre a tendência para dissolver os percursos de vida nos grandes momentos da vida colectiva, nas decisões que influenciam o futuro, em tudo aquilo afinal que é a superestrutura da personalidade política no que toca ao exercício do Poder.
No caso do Presidente Mário Soares, figura marcante da história portuguesa contemporânea, que agora nos deixou, a dimensão humana é sempre inseparável e primordial na afirmação da comum humanidade que, nele, é parte inteira da sua condição cidadã. É verdade que os grandes combates cívicos pela liberdade, as grandes causas em louvor dos direitos humanos, a percepção das questões essenciais que fazem o caminho do progresso e da felicidade, se projectam, no seu caso, nas linhas de uma acção de resistência contra todas as formas de limitação da dignidade, contra todas as maneiras peritas de amputar a liberdade, pois as suas "avenidas do diálogo", como dizia o seu amigo António Sérgio, tinham sempre o sentido de o Homem como a medida de todas as coisas.
Soares fez dessa leitura do concreto da política um  magistério para o seu compromisso temporal com a vida, na perspectiva de uma dinâmica de esperança em que a transformação da realidade era sempre possível.  À boa paz da conversa, em tempos sombrios  da actualidade, quando os dias pareciam fechar-se totalmente na neurose do pessimismo, ele furava o bloqueio da descrença como se fosse um jovem e afirmava uma certeza absoluta: "Isto vai mudar, não tenha o meu amigo, a mínima dúvida!" Ele sabia colocar esse "frémito de esperança" no meio da névoa, como diria Carlos de Oliveira, poeta que ele tanto amava, e um dia em que a prosa fluía livre disse-lhe que nessa exaltação da esperança ele parecia um marxista convicto como nas célebres teses  que mandavam sobretudo alterar a realidade. Ele sorriu e disse que a demissão e a indiferença eram uma espécie de morte.  Era certamente aí, nessa filosofia da política, que entroncava a proclamação que ele tomou como uma espécie de a-bê-cê da sua forma de fazer política: Só é vencido quem desiste de lutar!"
A sua vida foi, por isso, um eterno recomeço, num persistente combate de ideias. Mário Soares e as suas circunstâncias: a dimensão contraditória de estratégias de uma vida, a complexidade de situações limite na sociedade portuguesa, uma sublime intuição política que lhe permitiu, muitas vezes, ter razão antes do tempo.
Quem teve a sorte de conversar com ele, de o ouvir discorrer sobre a Europa e o mundo perceberá facilmente tudo isso. Lembro-me bem de ter proclamado o direito à indignação e de fazer dessa bandeira um tempo fundamental da cidadania. Essa prática foi uma prática constante na sua acção cívica, desde os tempos da luta contra a ditadura, como nos anos recentes da intervenção no Iraque ou das cedências ao capitalismo selvagem do furioso neo-liberalismo, em que a Europa, com desgosto, dizia ter embarcado. Poucos levantaram com tanta veemência a voz contra a Troika e a imposição da pobreza, poucos afirmaram tão forte o grito numa palavra: basta! 
O dr.Mário Soares era um homem de Cultura. Aprendia-se muito com as suas histórias, o seu convívio com escritores e artistas, as memórias das suas relações de afecto com grandes criadores ou políticos de dimensão mundial, como Mitterrand, Olof Palme ou Willy Brandt. A literatura e a poesia, como o ensaísmo e a história, eram paixões que se desprendiam naturalmente das suas falas.
Um dia, o Eugénio de Andrade escreveu sobre Soares: "Gosto dele, apesar de ser Presidente da República!" Soares gostou. Olhava para a crítica com bonomia e gostava das caricaturas de que era alvo privilegiado. Contou-me um dia: "Eu fiz uma exposição de caricaturas sobre mim, no Palácio de Belém. Estava cá o Presidente Henrique Cardoso e levei-o a visitar a exposição. Ele ficou ao mesmo tempo fascinado e espantado: Isto é único! Que grande lição de liberdade!"
Não esqueço que o dr. Mário Soares, no meio de uma agenda carregadíssima, quis vir a Castelo Branco apresentar o primeiro volume de "Crónicas do País Relativo. Portugal, Questão Que Tenho Comigo Mesmo". Foi uma sessão cultural. Distinguiu-me sempre com grande amizade. E escreveu palavras amáveis sobre mim na coluna que teve no "Diário de Notícias".
A liturgia pós-mortem, incomodava-o, a ele que amava a vida. Então, aqui deixo este aceno de palavras vestido de saudade. Palavras que tomam a forma de um cravo vermelho, como aqueles que ele tanta vez empunhou contra o salazarismo, breves bandeiras da liberdade.

Sem comentários:

Enviar um comentário