domingo, 22 de janeiro de 2017

O PRIMARISMO DE TRUMP

Não me lembro de uma repulsa tão grande face à eleição de um Presidente dos EUA, como a que está acontecendo, um pouco por todo o lado, depois que Trump (certamente o criador do trampismo - de trampa - na política), ocupou com armas, bagagens e estupidez a Casa Branca. É certo que o clamor da indignação, que envolve certamente um misto de insegurança e de repulsa pelo carácter xenófobo, populista e nacionalista do ideário de Trump, é sobretudo um grito colectivo de consciência, pois o desastre da eleição do presidente americano começou muito antes, quando as contradições do partido democrata lhe abriram caminho por uma espécie de terra de ninguém. Olham-se, por isso, as manifestações colectivas, os gestos e as palavras de protesto e respira-se o duro sentimento de assistirmos a um choro sobre o leite derramado. 
Seja como for, quem assistiu às cerimónias da posse - e, sobretudo, ao vazio e à pobreza de um discurso que não era outra coisa senão a retórica de apelo aos sentimentos mais primários -, não pode deixar de exprimir perplexidade e inquietação, um fundo desassossego,  pela irracionalidade que Trump transporta consigo, pela boçalidade de um pensamento inquinado, o que pode levar o mais comum dos mortais a interrogar-se:
-- Ninguém saberá do que esta besta é capaz! 
Depois, há nos seus actos e atitudes uma dimensão de hipocrisia, que nasce da velha "teoria" de que a política é uma arte para enganar tolos. Veja-se: ainda decorria o ritual público da posse, ainda ele não aquecera o lugar, e já os serviços da Casa Branca se apressavam a dizer que Trump assinara seis despachos de reversão da política de Obama, entre os quais os que visam abandonar a política de redução de energias poluentes, o plano para a defesa do clima e da água, e - helas - o Obamacare, o programa de acesso à saúde, de que estavam (e passarão a estar) excluídos milhões de americanos! Todavia, no discurso presidencial, esgotou a palavra povo, a quem disse que devolvia o poder e daria tudo... Como exemplo de hipocrisia em política, não poderá haver melhor! 
Inquietante é sabermos que o país mais poderoso do mundo vai ser governado por um sujeito assim. Que utiliza o patriotismo como narcótico contra o pensamento livre. Que, seguramente, nunca leu o que Samuel Johnson escreveu em 1774 para avisar que, às vezes, o patriotismo é "o último recurso de um canalha" que tantas vezes o exibe para "ocultar os seus próprios interesses".

3 comentários:

  1. Isto resume na perfeicao o meu sentimento profundo acerca desta personagem. Mas nao podemos esquecer que temos outros "a porta" .... Como sendo Austria e afins.....

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  2. Isto resume na perfeicao o meu sentimento profundo acerca desta personagem. Mas nao podemos esquecer que temos outros "a porta" .... Como sendo Austria e afins.....

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