sábado, 18 de fevereiro de 2017

A RESSUSCITAÇÃO DE CAVACO

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Como aqueles criminosos dos filmes negros, que voltam sempre ao local dos crimes, assim Cavaco Silva poisou nas suas memórias em Belém, como se uma figura com o terreno baldio de cultura e honestidade intelectual que ele tem à sua conta estivesse à altura de reescrever a história, mesmo a sua história. É certo que este tipo de narrativas tem sempre a contingência de traçar a caricatura grosseira do seu autor num exercício que, no caso de Cavaco, deixa impresso os traços do seu carácter, a dissimulação, o jogo de máscaras que é o seu conceito de poder, o cinismo da mistura entre a verdade e a mentira, que é uma espécie de produção de actos sem impressões digitais.
As Memórias são isso tudo e, às vezes, até nos fazem lembrar aquele nonsense do Raul Solnado quando, num mundo de gargalhadas que era logo a sua presença em palco, dizia: "Vamos contar mentiras!" Mas as suas narrativas têm muito, também, de um ajuste de contas com Sócrates, que hoje, na tsf desmente a fábula das escutas, uma fábula que toda a gente sabe foi urdida no Palácio de Belém para liquidar o PS, nas eleições.
Em múltiplas observações e comentários políticos (ver alguns nos dois volumes de Crónica do País Relativo e neste Blogue Notícias do Bloqueio) fiz de alguma forma uma espécie de processo do cavaquismo, em tudo aquilo que eram as contradições entre as palavras e os actos, uma arrogância como espécie de veneno contra a democracia, o universo de interesses espúrios em que os seus apaniguados de primeira grandeza (e, às vezes, ele próprio) eram actores principais (lembram-se do caso do BPN, por exemplo?).

Numa dessas notas retoquei o retrato de Cavaco. Dizia: "Quando Eça, em 1871 (ver Campanha Alegre), escrevia que "o país perdeu a inteligência e a consciência moral" e que "já não se crê na honestidade dos homens públicos", estaria longe de supor que em 2015 Portugal navegasse numa realidade tão sórdida, numa anquilose moral sem precedentes, em que os campeões da aldrabice se multiplicam como as moscas junto a carne apodrecida. O que ele, Eça, não escreveria hoje! Para a festa ser completa, o Presidente da República também não quis ficar atrás e quis disputar ao Primeiro-Ministro Passos Coelho o troféu de campeão da aldrabice (já era, com inteiro mérito, o campeão da asneira e do vazio cultural!). A descarada mentira que sua excelência proferiu sobre o Banco Espírito Santo, que mereceu uma crónica severa de João Miguel Tavares no "Público". Leiam Cavaco na primeira pessoa: "O Banco de Portugal tem sido peremptório, categórico, a afirmar que os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo, dado que as folgas de capital são mais do que suficientes para cobrir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa. E eu, de acordo com a informação que tenho do próprio Banco de Portugal, considero que a actuação do banco e do governador tem sido muito correcta. E a 30 de Janeiro de 2015: "Eu já reparei que alguns dos senhores, e também alguns políticos, disseram e escreveram que o Presidente da República fez alguma declaração sobre o BES. É mentira. É mentira! Alguns invocam uma declaração que eu fiz na Coreia. Na Coreia, eu fiz três declarações sobre o Banco de Portugal. E mais nada". 
A retórica pode ser uma boa arte de mentira, mas um Presidente da República, aldrabão, que se esconde nos malabarismos das palavras para enganar deliberadamente os cidadãos, é um sinal de perda de consciência moral, como dizia o Eça no século XIX."

Cavaco passou sempre, na Informação, entre os pingos da chuva. Por medo ou submissão aceitou tudo ou raramente deu dimensão informativa aos escândalos, como o do BPN, em que o ex-Presidente esteve envolvido. É nesse contexto que ele quer ressuscitar com as suas "Memórias" como milagre de circunstância política. Mas só o conseguirá se lhe derem cavalaria para isso. Temo que tenha muitos cavalos dispostos a deixarem-se montar!

1 comentário:

  1. Dar assim atenção ao cadáver Cavaco
    não só ajuda a ressuscitá-lo
    como abdica de assuntos mais sérios
    como seja como sair do seu legado

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