quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

NO TEMPO EM QUE...

Estava convencido de que a contingência de fazer anos -- ainda não há receita para suspender, para efeitos de futuro, o calendário! -- nos atirava nostalgicamente para os versos de Pessoa: "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos". E assim se arrumava uma questão que, sendo pessoal, traz sempre consigo o sinal da amizade. Bem sei que o dia 31 de Janeiro, pela carga de memória revolucionária que simbolicamente carrega, não é fácil de diluir na banalidade dos dias que fazem o ano, mas fiquei sinceramente surpreendido com o volume das mensagens telefónicas, de e-mails ou via Facebook. Neste último espaço, cerca de cinco centenas, com palavras amigas, incentivos à escrita, estímulo aos dias claros de felicidade. Mentiria se dissesse que tanta cópia de amizade não me comoveu e até me inquietou pela responsabilidade que este universo de escrita imediata comporta. São amigos de perto e de longe: uns que conheço de velho e persistente companheirismo; outros que se juntam a mim pelas palavras. A todos, por igual, estou gratíssimo, ciente de que a amizade é um valor primordial que nos ilumina a vida.
Por isso, talvez o melhor recurso de gratidão seja recorrer aos versos do poeta, à arte poética de Eugénio de Andrade, para dizer com ele o poema que ele dedicou aos Amigos:

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava 
porque partia
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria --
por mais amarga.

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