terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O ZECA HAVIA DE GOSTAR

Fanhais na Covilhã cantando em louvor do Zeca, foto de Maria José Filipe

O que é fascinante no mundo do Zeca é o clima de fraternidade que se respira sob o seu nome. Sempre,  à volta das  suas canções e dos seus versos, percebi aquele desígnio que a poesia comporta quando nos convoca a inventar uma humanidade nova. Os seus sons, as palavras que viajam dentro da sua  música e se  abrem como rosas vermelhas que podemos colher para nosso deslumbramento, acompanham-nos no tempo como expressão desse mundo de utopia que é a cidade (ou o mundo) sem sem muros e sem ameias onde descobrimos em cada esquina um amigo/ em cada rosto igualdade. 

Foi nessa dimensão humana, que é a obra do Zeca a transportar-nos para o sonho, que pensei quando, no sábado à noite, o pavilhão multiusos do Grupo Desportivo da Mata se encheu de tal maneira que não couberam todos os que desejavam participar neste tributo, ao mesmo tempo de memória e de vida, ao Zeca. Era como se ele estivesse ao nosso lado nesse universo das colectividades culturais e de recreio, que era tão do seu coração e fez parte sempre da sua geografia de trovador em busca de Liberdade.

Amigos vários, companheiros de jornada, fizeram reviver canções do Zeca, não com espírito revivalista, mas para mostrar a actualidade do seu canto que continua a inquietar e a mexer com o nosso pensamento. Foi um canto colectivo, que teve no Francisco Fanhais, presidente da Associação José Afonso, o símbolo dessa reunião de afectos à volta da obra e da exemplaridade cívica do Zeca. O Fanhais fez um percurso pelas canções do Zeca, cantou coisas com que ele, Fanhais, também iluminou de esperança muitas noites, antes do 25 de Abril, contou histórias. Havia muita gente com "um brilhozinho nos olhos" e em cada rosto ressaltava uma imagem de igualdade. A música do Zeca ainda nos faz sobressaltar o coração, às vezes parece que ficamos suspensos no tempo, e respiramos mais depressa quando ouvimos o seu lirismo, tão nosso, ou a força de cantares contra vampiros e "mandadores sem lei" (há por aí tantos!), contra "bairros negros" sempre a favor de meninos que "vão correndo ver o sol chegar". O núcleo da AJA da Covilhã está de parabéns. Pela forma como soube evocar o Zeca e pela fraternidade que construiu no Grupo da Mata. O Francisco Fanhais, como se estivesse a fazer a síntese da noite, disse aquele poema da Praça da Canção, do Manuel Alegre, "cantar não é talvez suficiente/ mas cantar incomoda certa gente".  O Zeca havia de gostar de ver tanta esperança andar à solta!

2 comentários:

  1. O Zeca gostou certamente. Bem-haja, pela sua colaboração. Abraço

    Zé Afonso

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