domingo, 12 de fevereiro de 2017

REQUIEM PELO FREIXO DA GARDUNHA

Todos os anos, quando o Outono se aproximava e a paisagem iniciava a sua mutação, perguntava ao Diamantino Gonçalves se o freixo da Gardunha já tinha alcançado o seu esplendor. Ele mandava-me fotografias da lenta transformação cromática da árvore, da mistura de verdes e amarelos,  em que estes últimos, pelo menos no freixo, acabam sempre por ser dominantes. O caçador de imagens documentava o caminhar do tempo no coração da árvore, e, quando a explosão de cores atingia a plenitude, dizia-me:
-- É agora! Está no ponto...
Era do Outono que ele estava a falar. Era o tempo de se correr à Gardunha e encher os olhos daquelas cores que nos dão uma soberba visão plástica da natureza mostrando-nos que tamanha beleza é uma bênção que está ao alcance do olhar.
Desta vez, o Diamantino Gonçalves veio dar-me uma notícia triste: o freixo anunciador do Outono fora assassinado, certamente a sangue frio. Olhei para a fotografia da morte do freixo, que morreu de pé, como se diz das árvores,  e apenas pude repetir a célebre recomendação de Schiller: contra a estupidez até os deuses lutam em vão! Que mal fazia a árvore? Não tendo resposta para o crime, apenas sei que, sem as cores do freixo desafiando a melancolia da paisagem, o Outono na Gardunha nunca mais será igual. Faltar-lhe-á sempre qualquer coisa. Haverá sempre, naquela curva da estrada, um vazio, uma breve memória que o tempo sepultará no esquecimento. A Gardunha e nós, mais pobres!

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