quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

TZEVATAN TODOROV, OS HOMENS E OS OUTROS

Uma das coisas que o pensador Tzvetan Todorov, que faleceu ontem em Paris, aos 77 anos, nos ensinou foi a aprendermos a olhar o outro como medida de todas as coisas. Talvez essa compreensão de uma humanidade em louvor da condição humana, sem margens ou amputações, nos leve sempre a pensar em Rimbaud e no seu célebre "Je est un autre". Mas no caso de Tzevetan Todorov, que foi aluno brilhante de Roland Barthes, professar de várias universidades, pensador de dimensão global e construtor uma obra ensaística referencial sobre o nosso tempo, o ensaísta, que venceu o Prémio Príncipe das Astúrias em 2008, foi um dos observadores mais lúcidos da desordem das sociedades contemporâneas: "humanista de alento crítico, dedicou a sua obra a estudar a alteralidade, a barbárie, os limites da liberdade individual e o espírito de insubmissão ante circunstâncias adversas" (Álex Vicent, "El Pais", 7.2.2017). 
Todorov escapou da Bulgária para uma formação intelectual feita no caldo cultural de Paris dos anos sessenta. Gostava de se classificar como um "auto deslocado" e essa condição, penso eu, conduziu-o a eleger como matéria primordial de reflexão a alteridade e a explicar que "cada indivíduo é multicultural e as culturas não são monolíticas." Em 2010, numa entrevista ao "EL Pais", ele antecipou a crise civilizacional que aí vinha, com deslocados de outro tipo, os refugiados, ao sublinhar que "este medo aos imigrantes, ao outro, aos bárbaros, será o nosso primeiro grande conflito no século XXI." Porque "o medo dos bárbaros é o que arrisca a converter-nos em bárbaros." 
O pensamento de Todorov é, também, um contributo notável para a questão crucial que é, nos dias de hoje, a memória histórica. O seu livro Insubmissos é uma introspecção a figuras, cuja confrontação com o tempo é a história da relação com a crueldade na vida concreta do século XX. Estão neste caso Pasternak, Stalin, Soljenitsine, Mandela, Germaine Tillion (nome grande da Resistência Francesa contra a ocupação nazi), Malcom X. 
No fundo trata-se de uma inquietação que ele exprime através da escrita. "Escrevo contra o ódio e a favor da compaixão", explicou Tzevatan Todorov. Autor de A Experiência Totalitária e, entre muitos outros,Introdução à Literatura Fantástica ou Nós e os Outros, o ensaísta foi, sobretudo, um homem comprometido com os problemas do nosso tempo, acrescentando-lhes uma qualidade de reflexão que é um longo processo de consciencialização da realidade social na sua dimensão inclusiva.
Quando o distinguiram com o Prémio Príncipe das Astúrias, lembrou que "o estrangeiro não só é o outro, nós próprios o fomos ou seremos,ontem ou amanhã, no alvor de um destino incerto: cada um de nós é um estrangeiro em potência." E advertiu: "Pela maneira como percebemos e acolhemos os outros, os diferentes, pode medir-se o nosso grau de barbárie e civilização. Os bárbaros são os que consideram que os outros, porque não se parecem com eles, pertencem a uma humanidade inferior e merecem ser tratados com desprezo ou condescendência. Ser civilizado não significa ter feito cursos superiores ou ter lido muitos livros, ou possuir uma grande sabedoria: todos sabemos que certos indivíduos com essas características foram capazes de cometer actos de absoluta perfeita barbárie. Ser civilizado significa ser capaz de reconhecer plenamente a humanidade dos outros, ainda que tenham rostos e hábitos distintos dos nossos; saber pormo-nos no nosso lugar e olharmo-nos a nós próprios como se fossemos de fora. Ninguém é definitivamente bárbaro ou civilizado e cada um é responsável pelos seus actos."

Sem comentários:

Enviar um comentário