domingo, 12 de fevereiro de 2017

UMA HISTÓRIA COM MORTE NA NEVE

Primeiro, uns raios de sol a iluminar o nevão, depois a chuva, e o "milagre" da paisagem branca foi-se dissolvendo. Ficou, claro, a Serra, imponente com o seu manto branco e diáfano de fantasia a fazer-nos lembrar que o Inverno está por aí. A neve é sempre uma coisa fascinante, menos para aqueles que, sem agasalhos e afectos, têm a vida transformada em matéria gelada. Mas a neve provoca em nós, sempre, um exercício de memória que é um regresso às coisas fragmentárias da vida. Voltei, agora, a ler uma coisa que escrevera há dois anos. E que aqui deixo como aquelas pegadas que, quando a neve ainda está fofa, ficam a marcar a paisagem.

"Num fim-de-semana desigual, depois da matéria solar que nos encheu a alma, com luz intensa e céu azul, veio a chuva que, ontem, fustigou as horas e nos fez pedir agasalho. Ainda assim, a paisagem é sempre pródiga, se a soubermos olhar, mesmo nos excessos que fazem soar avisos de alertas coloridos para nos precavermos de aventuras que, às vezes, se transformam em tragédias. Lembro-me sempre da Serra da Estrela, quando a neve lhe lima as arestas graníticas e torna o espaço unidimensional, uma espécie de paisagem polar que dilui as diferenças e os lugares. Lá mais para cima, para aqueles espaços onde a presença humana é mais escassa, a brancura da neve, que é tão leve, impõe um silêncio pesado, só desfeiteado pelo vento. Se o tempo abre um pouco, os olhos poisam numa dimensão fantástica, que assim é o sortilégio da neve, mas às vezes, subitamente, eleva-se a tempestade, uma neblina densa desce sobre o horizonte e a geografia e o que ela alcança para lá do olhar, reduz-se a escassos metros e parece, então, que o tempo e o espaço é todo igual, oferecendo aquela angústia que a relativa perda do sentido de orientação agudiza até ao desconforto.
O senhor José Milhano, que conhecia a Serra como ninguém, ensinava essas coisas aos exploradores de circunstância que nós éramos e fazia-nos sempre um retrato objectivo da Serra da Estrela, nas suas grandezas e misérias. Armado da sua mochila, com mantimentos e um suplemento de vinho à mão de semear, ele palmilhava a Serra, sabia de cor os caminhos e as veredas, conhecia-lhe a intimidade dos segredos. No tempo em que não havia telemóveis e alguns turistas mais ousados que olhavam para a imensidão da Serra e diziam: "isto é canja!", se perdiam nos labirintos da neve, o senhor Milhano e grupos de montanheiros iam lá resgatá-los, ajudando os bombeiros nessas fainas de Inverno.
Houve, até, casos que redundaram em tragédia, como aconteceu com o exercício de um grupo de para-quedistas, lá nos confins do cimo da montanha, nos anos 80, que, surpreendidos por uma violenta tempestade de neve andaram às voltas, às voltas, não sabendo o chão que pisavam e foram encontrados, muito mais tarde, quando o tempo amainou, mortos, engolidos pelo frio, dispersos pela paisagem, excepto um, que tinha ficado longe, para trás. Sempre me interroguei o que teria acontecido na realidade, que circunstâncias levaram a deixá-lo para trás. Guardei a realidade como potencial matéria de ficcional por terem nas circunstâncias q.b. de mistério. Se calhar, penso eu, foi apenas a luta pela sobrevivência que dilui muito as solidariedades de grupo. Há quantos anos foi isto, pergunto-me agora, pensando nesses militares que morreram inanimados, cercados de pânico e de frio, no abismo da tal paisagem branca que lima as arestas do terreno. A montanha foi, então, uma imensa cova gelada, onde ficaram sepultados. Eles e a sua circunstância da neve.
Nem eu sei por que diabo me lembrei disto, agora, talvez pela neblina espessa que hoje enevoou a Estrela, pouco deixando ver um palmo, à frente do nariz. Ou talvez, quem sabe?, acrescento tantos anos depois, por ter olhado a Serra com o seu denso manto branco."

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