terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

VIDA E MORTE: MISTÉRIO E DUALIDADE

No outro dia, ao falar de Vida e Morte da Literatura, Arnaldo Saraiva mostrou bem como essa dualidade temática se transformou num alimento primordial da criação literária, às vezes diluindo-se numa realidade inseparável, feita de perplexidades e espantos. Daí, certamente, o facto de ele ter começado por lembrar a genial obra do seu amigo João Cabral de Melo Neto, criador do célebre auto Morte e Vida Severina, que muito antes de Abril veio ao Fundão, a convite de António Paulouro.
De facto, na aventura de o homem se fazer a si próprio, essa reflexão ontológica sobre a relação da vida com a existência cósmica de cada um é uma imemorial interrogação poética e literária. Lembro-me sempre daquele pensamento de Vergílio Ferreira que é uma síntese perfeita dessa questão: a vida é um fio de luz entre dois pontos escuros, o nascimento e a morte. E o Eugénio de Andrade tem um poema em Os Sulcos da Sede, o seu último livro, em que os versos reflectem a inevitabilidade da morte com uma ponta de saborosa ironia:

Eu sei: tu querias durar. 
Pelo menos durar tanto como o tronco 
da oliveira que teu avô 
tinha no quintal. Paciência, 
querido, também Mozart morreu. 

Andava eu à volta destas coisas, tinha acabado de escrever um texto de ficção sobre a morte fingida, para o livro praticamente pronto, Fellini na Praça Velha, quando li no "El Pais" uma curiosa matéria sobre "A morte em aforismos", de Jorge Wagensberg. O autor sublinha estarmos face a uma inquietação que nunca nos abandona, desde há centenas de milhares de anos, quando o primeiro homem olhou para as estrelas porque sabia que também ia morrer. Talvez o melhor, diz ele, seja assumir a vida como um jogo de azar que vale a pena jogar. "Por este caminho, a reflexão nunca deixa de recomeçar".
De facto, "temos muito pouco tempo para estar vivos e todo o tempo do mundo para estar mortos, pois que pena, porque há muitas maneiras de estar vivo e só uma de estar morto". Daí, talvez, a velhíssima locução latina: primeiro viver, depois filosofar!
E agora, vamos lá então a descobrir "a morte em aforismos".
1. Não há maneira de encontrar consolo frente à certeza de que um dia vamos morrer, nem sequer pensando na baixíssima probabilidade que chegámos a nascer.
2. A probabilidade de voltar a nascer depois de morto é colossalmente pequena, mas não é nula como ilustra o facto de já termos nascido uma primeira vez.
3. Agora já não tem remédio, mas a morte necessária é uma inovação imposta pela reprodução sexual.
4. Uma bactéria aspira à eternidade convertendo-se a tempo na sua própria descendência
5. Se a medicina logra um dia curar doença, já ninguém se atreverá a cruzar uma rua, porque uma coisa é perder a vida e outra, muito diferente, é perder a eternidade inteira.
6. Por simetria: já sei onde estarei depois de morrer -- mais ou menos onde estava antes de nascer.
7. Uma pessoa acaba de morrer de todo quando morre o último que o conheceu em vida.
8. A frase mais frequente nas lápides dos cemitérios, nunca te esqueceremos, descansa sobre a hipótese tácita de que só morrem os outros.
9. Os que prometem a glória no Além em troco do sacrifício na Terra não necessitam de livro de reclamações.
10. A morte é a mais surpreendente de todas as notícias previsíveis.
11. Viver envelhece, envelhecer humilha e a maior humilhação é morrer.
12. Morreu e depois algo se apagou retrospectivamente no olhar de todas as fotografias que dele haviam tirado ao longo da vida.
13. Pensar na vida gera tanta perplexidade como pensar na morte.
14. Jazer é grátis, qualquer outra coisa é arquitectura.
15. Todo o real é pensável (hipótese da ciência), mas todo o pensável não tem que ser real (hipótese da literatura), logo a imaginação é maior que a realidade inteira (tese cientifico-literária).
16. A invenção do inferno: viver é baixar um instante da eternidade com o alto risco de arruiná-la irreversivelmente.
17. A uma expressão se pode dar a volta para que melhore o seu som sem que mude o seu significado, por exemplo, vida eterna em lugar de morte eterna.
18. Ganhou a vida eterna e se dispunha a desfrutá-la com ilusão, quando compreendeu que se ia aborrecer e que na eternidade já não se morre nunca.
19. Temos muito pouco tempo para estar vivos e todo o tempo do mundo para estar mortos, pois que pena, porque há muitas maneiras de estar vivo e só uma de estar morto.
20. Epitáfio: lamento não estar em condições de ler este epitáfio.

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