terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

VOA, PALAVRA!

Não sei há quantos anos -- o Zé Rui Martins lembrou-o, um dia destes -- faço parte do universo da ACERT de Tondela, uma associação cultural no sentido mais amplo do conceito que, pela sua estrutura, dinâmica e acção, é verdadeiramente singular à escala do país. Sempre vi o Zé Rui como a alma mater da ACERT Trigo Limpo, na forma como impôs a associação à comunidade e de como a comunidade se tornou parte inteira da ACERT, numa identificação cultural comum que é uma grande viagem criadora.
Falar do grupo que materializa esta aventura é falar de uma grande paixão pelas coisas da terra, e, sobretudo, de uma alegria que nasce do desafio de transformar pequenas realidades. Isso só é possível porque a ACERT possui uma rara capacidade para dramatizações colectivas, algumas de sabor local outras mais épico, como foi o caso de A Viagem do Elefante, de José Saramago.
A história da ACERT, nos seus quarenta anos de vida, dá pano para mangas. Mas hoje quero falar do último espectáculo que vi do grupo, 20 Dizer, que é um momento alto em louvor da palavra e da poesia, um grande convite ao sonho, como o teatro deve ser. Fui vê-lo à Moagem, ao Fundão, no passado sábado, e foi um belo momento de poesia, com aqueles instantes surpreendentes de que só a arte poética é capaz, tão poderosa ela é que aquece os corações na noite fria ou faz sonhar firmamentos de estrelas, reais ou imaginárias.
Quem faz corpo com essa matéria de sonhos é o José Rui Martins (direcção artística, textos e declamação) e Luísa Vieira, voz puríssima de água a correr da montanha, responsável pelos arranjos e por uma multifacetada interpretação de flauta e m'bira. Ao longo de 60 minutos, descobrimos aquele chão de sons e versos e caminhamos através deles pelas coisas simples e primordiais que dão sentido à vida. No espectáculo, os versos e a música tomam conta da gente. Mas talvez se pudesse colocar como epígrafe a 20 Dizer aquele poema em que Eugénio de Andrade diz

São como um cristal, 
as palavras. 
Algumas, um punhal, 
um incêndio. 
Outras, 
orvalho apenas 

Secretas vêm, cheias de memória. 
Inseguras navegam: 
barcos ou beijos, as águas estremecem. 

Desamparadas, inocentes, 
leves. 
Tecidas são de luz 
e são a noite. 
E mesmo pálidas 
verdes paraísos lembram ainda. 

Quem as escuta? Quem 
as recolhe, assim, 
cruéis, desfeitas, 
nas suas conchas puras? 

Este espectáculo tem tido um acolhimento fantástico por todo o país. Para o Zé Rui Martins "os inúmeros espetáculos realizados não provam mais nada que não seja o prazer de fazer de cada palco um espaço de relação emotiva com audiências que saboreiam um duo com muita gente dentro. Teatros, bares, bibliotecas, escolas, hospitais e espaços não convencionais têm acolhido este espetáculo que se ajusta a audiências distintas, procurando estreitar distâncias entre o público e a declamação teatral musica." 20 Dizer tem outra virtualidade. Mostra, como diz João Luís Oliva, que "a palavra também não tem pátria" pois é "ela própria, pátria, uma das muitas pátrias dos nossos afectos". Podemos dizer que em 20 Dizer, a palavra voa por cima de fronteiras, como um dia mandou João Guimarães Rosa (Voa, palavra), ele que inventou uma palavra belíssima que foi o respirar do que se passou em palco: coraçãomente!
Neste breve aceno ao Zé Rui Martins e ao espectáculo, fica a gratidão de ver incluído nele um poema meu, inédito, que se cruza com o admirável mundo de Mia Couto.

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