terça-feira, 7 de março de 2017

ANQUILOSE UNIVERSITÁRIA

Professora Rosa Berganza, fonte: El Pais
Tem sido pouco comentado, por cá, o escândalo que envolve a Universidade Rei Juan Carlos de Madrid, mas seria certamente de proveito e exemplo que o caso merecesse reflexão, e, porventura, mergulhando na fatalidade dos interesses espúrios nacionais, sempre de raiz corporativa, se pudesse advertir logo à entrada, como se faz na ficção, de que "qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência". 
O "El Pais" tem dado expressão informativa à questão, desde que se provou que o Reitor Fernando Suarez, certamente magnífico como são por inerência todos os reitores, tinha praticado plágios em abundância, como comprovou a informação pericial da Universidade de Barcelona. O problema é que esse acontecimento destapou um conjunto de situações que, saindo do silêncio impune, veio mostrar a anquilose moral de uma Universidade. 
O diário espanhol publicou uma entrevista com Rosa Berganza, candidata a Reitora, que é uma radiografia impiedosa sobre o funcionamento daquela instituição universitária e sobre o ambiente cúmplice que a rodeia. O título não podia ser mais claro: "A minha universidade funciona como uma rede clientelar no mais puro estilo mafioso". 
A catedrática de Comunicação Política denúncia o que chama "rede clientelar de familiares" da URJC. O jornalista questiona sobre o surpreendente silêncio que pairou na Universidade sobre a questão dos plágios. A Professora esclarece que é preciso viver por dentro para perceber. "Neste processo quem mais se mobilizou foram os estudantes (recolheram 75 mil assinaturas) que produziram um trabalho mais crítico e independente que o professorado, que guardaram um silêncio vergonhoso." Porquê? - interroga Rosa Berganza, e responde: "O nosso sistema funciona como uma rede clientelar, montada arduamente pelo actual e anterior Reitor, com umas práticas ao mais puro estilo mafioso de amedrontamento quando se levantam vozes críticas ou de não permitir o diálogo nem o espírito crítico." E noutro passo: "É um sistema aparentemente democrático, mas que não funciona como organização democrática em absoluto. Tudo se compra com prebendas, a gestão não é transparente. Há poucas decisões iguais para todos. As regras do jogo não são iguais para todos, negoceiam-se individualmente com o Reitor. Exerce o "tu, sim, tu não", "a ti dou-te isto, a ti isto..." Compra o silêncio das pessoas e actua com muito pouca transparência." 
Um dos casos mais graves é o que a Professora Rosa Berganza denuncia: "Há um sistema clientelar que favorece a colocação de familiares de forma indiscriminada." E quando o jornalista lhe pede que aprofunde a questão, ele responde: "Não estou falando de algo marginal. É muito perigoso dizer uma percentagem, mas é uma política habitual de contratação, é como se ser familiar fosse um mérito que conta e pontua muito mais. Com 1 600 professores e 1 300 funcionários de Administração e Serviços é muito fácil estabelecer as genealogias. O que vivemos aqui dentro escapa a toda a normalidade de uma organização democrática e pública. Para começar o Reitor colocou sua mulher. Poderíamos ver caso a caso todas as figuras importantes da universidade e aí a percentagem seria quase um pleno total. Obviamente, é mais fácil que entrem sobretudo familiares de gente que ocupa postos de poder. Não quero que se entenda que não se possa ter nenhuma relação de parentesco, pode haver pessoas de valia que passem todos os filtros oficiais. O que empesta o ambiente é que seja tão descarado."
História de proveito e exemplo, volto a repetir. Nesta universidade de Madrid, diz a coragem da Professora, há silêncios, medos e a lógica clientelar que é sempre uma forma perita de trazer gente pela trela. Mas o caso reflecte ainda outra coisa: que chega sempre o dia em que o livro do esquecimento se fecha e o silêncio se parte. E tudo fica claro.

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