quarta-feira, 1 de março de 2017

FERNANDO TABORDA, O PALCO E A VIDA

Fernando Taborda num dos seus filmes
O sentimento do mundo próximo ficar mais pobre e triste pela morte de um amigo tornou-se hoje muito nítido, quando, na página da Helena Pato, tropecei na notícia do falecimento do Fernando Taborda, em Coimbra. Eu incluí-o sempre, juntamente com o irmão Júlio, que foi admirável professor de Literatura, no universo afectivo das pessoas muito especiais, desde que pude partilhar o seu convívio, no mundo também muito especial de meu irmão Zé César.
Penso que a vida, na multiplicidade de imagens e situações, de imaginários excessivos e de acontecimentos insólitos, foi sempre para o Fernando Taborda uma espécie de grande teatro do mundo, e que ele muitas vezes pensava dariam grandes espectáculos se fossem transportados para o palco. Ele, que foi professor do Ensino Primário, como os pais, e bancário, foi sobretudo um grande actor. Essa aventura cumpriu-a em Coimbra e viajou sempre com ele, pela vida fora, como grande paixão. Era, do mesmo passo, um grande contador de histórias, gostava do exercício da ironia que praticava muitas vezes como látego contra a vidinha triste e paroquial da sociedade portuguesa. Eu gostava de o ouvir contar histórias da Aldeia Nova e das guerras contra a Aldeia de Joanes ou de acontecimentos do Fundão, que ele descrevia em conversas muito visuais. A paixão pelo teatro vem, seguramente, desse tempo das récitas académicas, e lembro-me bem de ele, há anos, me ter contado:
-- O teu tio Armando é que me topou. Um dia, chamou-me para me dizer premonitoriamente: Óh, Fernando!, andas para aí a estudar para seres professor, mas tu nasceste para o Teatro...
E tinha razão. O Fernando Taborda revelou-se como actor de mão cheia na Bonifrates e em outros grupos de Coimbra. Um dia, em Lisboa, penso que n' A Barraca, estava no palco a mimar um personagem que tinha uma crise cardíaca, um avc. Estava a fazer aquilo tão bem que só um médico amigo, que estava na primeira fila, percebeu que era ele que estava a sofrer essa situação. Levaram-no para o Hospital e lá se safou. Quando ficou melhor e voltou ao palco, semanas depois, os amigos quiseram dissuadi-lo. Diziam-lhe que o teatro era perigoso e lhe podia dar outro, mais fatal. Ele sorria. Um amigo foi peremptório:
-- Escusam de estar com essas coisas. Eu acho que ele tem a ideia do Molière: a grande glória de um actor é morrer no palco, a representar!
Eu próprio lhe atirei com essa, mas ele dizia que estava em plena forma. Continuou a fazer teatro e não morreu certamente no palco, em plena função, como gostaria. Mas o Fernando Taborda, fundanense que nunca veio ao Fundão representar, teve uma biografia cheia de sucessos e todos reconheciam nele esse talento de grande actor, só possível de alcançar quando alguém se entrega na totalidade aos personagens, numa espécie de dádiva aos deuses.
O Fernando levava para o palco essa força sublime, capaz de se meter por inteiro na pele da condição humana. Levou esse saber para o cinema, em curtas e longas metragens de jovens cineastas, vimo-lo em filmes como "Paloma", "Vida Tramada", "O Voo da Papoila", "Embargo", "Humilhados e Ofendidos, "Cego para Ver", "Esquece Tudo o que te Disse", entre outros. Hoje, quando deparei com a notícia, como se quisesse ver ainda o Fernando Taborda a representar, para me despedir dele, fui ver imagens da sua filmografia. Lá está ele, a representar a vida!



2 comentários:

  1. O Prof. Taborda era Prof. Metedólogo nas Escolas Anexas do Magistério Primário de Coimbra até aos anos de 1969/71, pelo menos. Eu como aluno, assim tantos outros, partilhávamos o seu desencanto com a situação política vigente e dizia-nos que brevemente iria deixar o ensino porque não aguentava mais. Entretanto ensaiou a nossa peça de teatro da festa de final de curso; intitulava-se "A Gota de Mel", muita arriscada na altura porque questionava o motivo das guerras.
    Passado pouco tempo fomos fazer-lhe uma visita. Onde? No antigo Banco Borges e Irmão, no Largo da Portagem em Coimbra para onde tinha ido trabalhar.
    Dizia que era do Fundão e contava histórias do teatro que era representado nas colectividades onde também eram lidos e representados os "àpartes"

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