sexta-feira, 31 de março de 2017

O MUNDO DE ONTEM. E O DE AMANHÃ?

No tempo em que se assinalam os 60 anos da criação da União Europeia, então sob a forma de Mercado Comum Europeu, no contexto de uma crise que leva os mais cépticos a vaticinarem a própria desagregação do projecto europeu, é bom ler O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig. O livro, reeditado recentemente pela Assírio & Alvin, tem na capa a indicação de que se trata de "recordações de um europeu". Não é apenas um livro admiravelmente escrito, num tom de sobriedade memorialística que chega a ser comovente, o que já seria muito; é sobretudo a observação arguta de alguém que, vivendo a realidade de duas guerras que tornaram o século XX num tempo dos mais sombrios da História (Max Gallo), faz a narrativa da substância do tempo, com perplexidades e inquietações que parecem não ter fim. A dimensão cultural da Europa está muito presente nas recordações de Stefan Zweig, mas há nesta sua reflexão a radiografia de uma Europa em que, apesar das evidências de desumanidade que se vinham inscrevendo na realidade, não parecia plausível a ascensão de Hitler ao poder absoluto que viria ensanguentar o velho continente.
"Afinal que violência poderia ele exercer num Estado em que o direito estava firmemente consolidado, em que a maioria parlamentar estava contra ele e em que cada cidadão considerava asseguradas a sua liberdade e igualdade perante a lei, de acordo com a constituição que tinha sido solenemente jurada?" - escreve Zweig. Mas logo falaram os acontecimentos: "Foi então que sobreveio o incêndio do Reichstag: o Parlamento foi extinto, Goring soltou as suas hordas, de uma penada o Estado de Direito foi suprimido na Alemanha. As pessoas, horrorizadas, ficaram a saber que havia campos de concentração em pleno período de paz e que nas casernas tinham sido instaladas câmaras secretas onde inocentes eram executados sem julgamento e sem qualquer processo"(...).
O escritor evoca esse tempo, em que os dias se incendiaram de terror e a crueldade se tornou numa máquina que alimentava os dias, quando explica o livro, à volta do seu eu, e as suas circunstâncias. Diz ele: "lavrámos o catálogo de todas as catástrofes imagináveis de uma ponta a outra (e mesmo assim ainda não chegámos à derradeira folha). No que me toca, fui contemporâneo das duas maiores guerras da humanidade e vivi mesmo cada uma delas em duas frentes distintas, uma na frente alemã, a outra na antialemã. No período anterior à guerra conheci a forma e o grau mais elevados de liberdade individual e, depois, o seu mais baixo nível desde há centenas de anos. Fui festejado e proscrito, livre e subjugado, rico e pobre. Todos os lívidos corcéis do apocalipse tomaram de assalto a minha vida, revolução e fome, desvalorização da moeda e terror, epidemias e emigração; vi crescer e alastrar sob os meus olhos as grandes ideologias de massas, o fascismo na Itália, o nacional-socialismo na Alemanha, o bolchevismo na Rússia e, sobretudo, a maior de todas as pragas, o nacionalismo que envenenou a flor da nossa cultura europeia. Fui à força testemunha indefesa, impotente, do inimaginável retrocesso da humanidade a uma barbárie que há muito se pensava esquecida, com o seu dogma consciente e programático de anti-humanismo. Estava-nos destinado, tantos séculos passados, ver de novo guerras sem declarações de guerra, campos de concentração, torturas, pilhagens em massa e bombardeamentos sobre cidades indefesas, tudo bestialidades que as últimas cinquenta gerações nunca chegaram a conhecer e que as vindouras, assim o espero, não voltarão a tolerar".
Foi longa esta transcrição, mas necessária. Talvez ela nos ajude, agora que em Roma se juntaram os governantes da Europa (que nos parecem hoje tão pequeninos e efémeros: apenas à altura duma Europa dos pequeninos!), a percebermos a importância do projecto europeu, virtualizador de uma Europa dos Cidadãos e factor de Paz. É nisso que é preciso pensar quando os nacionalismos acéfalos e xenófobos (que já um dia "envenenaram a flor da cultura europeia") voltam a levantar a cabeça e a chegar ao poder. Pensemos nisso, lendo "O Mundo de Ontem", de Stefan Zweig. Para que os sinos não dobrem por nós.

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