domingo, 12 de março de 2017

O VALOR DA LÍNGUA

Ilustração sobre o Espanhol no mundo (Fernando Vicente)

Estranho país é o nosso que não se cansa de enaltecer a Língua portuguesa, numa retórica celebratória e ditirâmbica, para depois a maltratar e lhe conferir, no âmbito das políticas gerais, um carácter de subalternidade. É isso, porventura, que explica a forma como, desde sempre, têm sido tratados os grandes construtores da Língua, os escritores e poetas, desde Camões. Jorge de Sena falou um dia dessa estupidez de longa duração, como se fosse marca genética da história, caricaturando um país que dizem ser de poetas e onde se fala muito em Camões, mas quase matou o épico à fome.
Nos últimos tempos, não têm faltado discursos sublinhando o interesse económico da Língua portuguesa, assinalando a sua importância estratégica no mundo globalizado. 
É facto que é uma das seis Línguas mais importantes, com mais de 244 milhões de falantes, e uma notável capacidade de implantação a nível planetário. Mas basta pensarmos na inépcia política, ao longo dos tempos, sobre o ensino da Língua nas comunidades portuguesas para pensarmos na visão redutora que tem condicionado uma problemática de indiscutível interesse nacional. 
A Língua é um óptimo assunto para patrióticas tiradas, daquelas de encher o ego, e, sobretudo, para citar o verso do Pessoa: "a minha pátria é a Língua portuguesa". Mas quanto ao resto, ao essencial e concreto da política para a internacionalização da Língua, é quase silêncio. Esse silêncio só é quebrado quando surgem matérias como o Acordo Ortográfico. Então, elevam-se os clamores, a coisa atinge dimensão polémica que, às vezes, configura o que Mário Mesquita caricaturou: as polémicas à portuguesa parecem touradas à espanhola! 
Vim ao encontro deste tema porque li que em Espanha se realizou uma longa investigação, que produziu 14 volumes, sobre O Valor Económico do Espanhol. A complexidade do estudo abarca desde a vantagem da Língua na reprodução de investimentos em áreas que vão da indústria editorial às energias renováveis, analisa as vantagens no plano da globalização de uma Língua milenária, aberta ao mundo, e, sobretudo, responde ao desafio da dimensão quantitativa -- mais de 420 milhões como primeira e segunda Língua -- ser plasmada numa realidade qualitativa, num adequado processo de internacionalização. Uma nota do estudo assinala o facto de, no programa universitário "Erasmus" a Espanha ser o país de destino mais procurado, no conjunto dos 32 países que o integram. 
É importante perceber esta prioridade espanhola. Não para ficarmos a dizer, como fazemos tantas vezes, que "en España es diferente", mas sobretudo para fazer alguma coisa no sentido da pátria planetária da Língua portuguesa ser assumida na dimensão estratégica, que é indiscutivelmente uma das suas singularidades. Se calhar, até olhando para a realidade que Herberto Hélder tão bem assinalou, quando escreveu sobre as potencialidades de uma língua comum luso-castelhana assente num falar arterial que vai por cima das fronteiras em busca de um espaço tão vasto como a Ibero-América e os países da Lusofonia.

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