quinta-feira, 16 de março de 2017

PARABÉNS, MESTRE CARGALEIRO!

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Quando penetro no mundo fantástico do Mestre para encher os olhos do fascínio das cores na invenção de cidades líricas e imaginárias, no seu sonho desmedido de criação, penso sempre na metáfora de Borges e digo para mim que a obra de Manuel Cargaleiro se reflecte nas linhas do seu rosto, no olhar bom de águas límpidas, na sabedoria de umas mãos e de um espírito que foram capazes de transfigurar a realidade em coisas belas, criando mundos outros, que é desafio só ao alcance dos que se libertam, pela genialidade, das coisas banais e menores.
É esse sentimento que de novo reencontro, quando quero dar um abraço de palavras a Mestre Cargaleiro, no momento dos seus 90 anos, como quem lhe agradece toda a arte que nos deu, para iluminar o tempo e nos mostrar que há uma humanidade nova na aventura criadora do Homem, e, no meu caso pessoal, um tributo de gratidão à amizade e companheirismo que tem sido a marca de muitos encontros e iniciativas no âmbito cultural. Este aceno grato de palavras tem outra raiz profunda: o lugar de Castelo Branco e da região na obra do Mestre e a circunstância do universo museológico de que esta cidade é o centro, um equipamento cultural à escala europeia, que Joaquim Morão foi capaz de edificar e que nos honra, a todos, cidadãos deste território do Interior.
De facto, Castelo Branco tornou-se destino da obra de Manuel Cargaleiro e lembro-me bem de Mário Soares, quando veio aqui apresentar o meu livro, Crónica do País Relativo (primeiro volume) me ter confessado a sua admiração pelo acervo de obras do artista e pela alta qualidade do Museu, impressões a que depois deu expressão num artigo publicado no “DN”.
Estamos perante uma obra de dimensão internacional, com âncoras muito precisas em Paris e em Vietri-Sul-Mare, Itália, e essa singularidade do homem que há 90 anos nasceu na pequena aldeia de Chão de Servas, em Vila Velha de Ródão, tornado referência da pintura moderna (veja-se a exposição realizada em Paris em que Cargaleiro é o único artista vivo de um conjunto de 25 pintores mundiais – está lá também Vieira da Silva – considerado determinante na arte contemporânea dos últimos cem anos), e é essa articulação que é preciso fazer, no plano documental da divulgação, para que o Museu Cargaleiro seja cada vez mais vivo.
Sempre me fascinou essa relação arterial entre o lugar originário de pertença e uma obra que depois viajou pelo mundo. Regresso, por isso, a um ensaio que escrevi sobre a obra do Mestre (“Assim Nasce a Alegria”, in Manuel Cargaleiro, Vida e Obra, Catálogo do Museu Cargaleiro, Castelo Branco) em que falava de traços identificadores e contextuais da sua pintura: “É de Goethe que me lembro, pela transparência da luz, tão essencial à arte e à poesia, sempre que mergulho no mundo fantástico de Manuel Cargaleiro. Cores e luz. A luz que caminha desde os primeiros raios da manhã até ao pôr do sol e quando poisa nos instantes do dia se dissolve em mil imagens cristalinas, oferendas de uma espécie de mistério de mineralização das coisas. Cores: explosão cromática em busca de outras mil alegrias para memória futura. Temos então um mundo elemental, matriz de uma arte que se desdobra em louvor do tempo e da vida (…).”
Lembro-me bem de uma tarde, em Castelo Branco, em longa conversa de roda livre com o pintor, ele ter regressado aos prazeres da memória e à infância, à emoção do tempo inicial, e me ter dito quanto esse território de afectos ficara preso à sua obra, ao imaginário das cores, às plantas, às vivências, ao conhecimento do mundo. O seu rosto iluminou-se num sorriso largo:
-- Sim, as cores da Beira estão sempre presentes nos meus olhos. A terra faz parte do coração…
(Artigo publicado na edição de hoje do jornal Reconquista)

Ler mais sobre Cargaleiro: http://www.fernandopaulouro.com/search?q=cargaleiro



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