terça-feira, 14 de março de 2017

SABER COLHER A LUZ

Deus pode ter descansado ao sétimo dia e ter chamado Heine para criar as nuvens, mas se houve recurso a poetas para colocar alguma alegria na criação do mundo, então penso que eles se devem ter dedicado por inteiro à Primavera, escolhendo um tempo especial para a transformação da natureza, pintando de flores e cores a paisagem, para os olhos se extasiarem e matarem a sede de beleza. Eu gosto de ver a antecipação da Primavera e o dia 14 de Março abre-me especialmente o coração a essa realidade solar. O sol já tocou a terra e um rosto se abriu em sorriso grácil, como as magnólias brancas, à entrada da Covilhã. Respira-se a renovação da vida nas mutações cromáticas e há um fio temporal que nos põe a pensar que a transformação da realidade é uma metáfora objectiva da esperança. Agora, o sol voltou a poisar nos campos e os pássaros cantam de novo porque o vento deixou de ventar os altos ramos. Quem se aventurar por esses caminhos, vê a explosão do branco das macieiras e pereiras e os roxos dos pessegueiros, como se nos estivessem a avisar que não tarda muito temos aí a neve branca das cerejeiras. Na serra, a combustão das flores e dos verdes é mais lenta, mas também de lá de cima se abrem os olhos a horizontes tão vastos, com planícies e montanhas azuis, que o imaginário dispara sonhos surpreendentes que cavalgam o olhar à desfilada. Volto a um texto de Vergílio Ferreira, que é também antecipador da estação florescente. E aqui o deixo, como se a Primavera já me tivesse tocado ao batente para ter atenção ao olhar:

"A luz, a luz. A Primavera enviou já a sua mensagem e só é preciso estar atento para a não perder. Não é a luz sumarenta do Outono ou a luz pesada do Verão.É uma luz nítida e ainda fria dos gelos do Inverno. Recorta as coisas pelo seu limite e elas emergem inteiras do seu ser. Essencialidade da vida, é a altura de lavarmos nela as mãos e o olhar. Entender aí a nossa relação com elas e sermos nós também na inteireza do que somos. Aprender a ver o mundo na sua estrita realidade sem um ver que nos cegue como o fogo do Verão a a moleza outonal. Aprender o limite dos excessos de nós para conhecermos a alegria que nos não cansa ou a melancolia que tem pacto feito com a morte. Existir uma vez ainda no recomeço de existir. E saudar a vida ainda, como se pela primeira vez".

É esse sentimento primordial que se colhe, como quem abraça uma flor. É o coração da terra a respirar. 

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