terça-feira, 9 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 1, Belo Horizonte

Arquitectura de Niemeyer

No doce Outono mineiro, o cronista aprende o respirar da cidade, a sua topografia cultural, a modernidade da sua tipologia urbana e vêm-lhe à ideia as cidades imaginárias, do Italo Calvino, ancoradas à metáfora viageira de Marco Polo, como espaços de trocas e de pertença, de sonhos e de afectos. O cronista caminha pela emblemática Praça da Liberdade, finge ignorar apelos reaccionários a hipotéticos desejos de "intervenção militar, já!", e prefere ver a cidade com a dimensão onírica de utopia com que o escritor italiano nos ensinou a olhar o chão comum das urbes. O cronista olha à volta, como se quisesse trazer para dentro de si, para a sua memória imediata, a identificação de Belo Horizonte, fixa o urbanismo levantado para o céu, na geometria surpreendente da arquitectura, e nessa verticalidade encontra a ousadia do sonho de Niemeyer inscrita na paisagem. Há, nesta confluência de olhares, o elogio de uma cidade (ou de um país?) enquanto jovem, e pensa para si o cronista que o poema sinfónico de Dvorak sobre o Novo Mundo podia muito bem sobrepor-se à realidade sincrética de Belo Horizonte, onde as linhas da cidade não escondem, é verdade, o rosto da desigualdade, de que o morro, com a polifonia das suas cores e das suas sonoridades, é o grande elemento simbólico. O cronista sabe que são efémeras estas impressões pois tem presente a recomendação do poeta mineiro, Wagner Merije, de que "uma cidade demora uma vida inteira para ser amada", e, também, de que "uma cidade demora uma vida inteira para ser poema". Cada cidade tem a sua arte poética à flor da rua e Belo Horizonte oferece abundante caligrafia de cores, desde a exuberância dos verdes ao cromatismo que se levanta do chão e viaja pelas fachadas altivas, filtrado por uma luz que parece ser magia dos instantes, do sol e das sombras que caminham pelas horas da vida. O cronista fixa esses detalhes da crosta dos dias, mas não resiste  a juntar-se ao conjunto escultórico da Biblioteca Central, como se fizesse pausa para bater prosa entre os escritores Fernando Sabino e Otto Lara Resende (e aqui o cronista recorda que Otto Lara Resende também esteve no Fundão nos anos 60, nas iniciativas culturais heróicas do "Jornal do Fundão"), sob o olhar de Elio Pellegrini e Paulo Mendes Campos.
No Ponto de Encontro
entre Fernando Sabino e Otto Lara Resende

O cronista devia dizer, logo a abrir, que pisar chão de Minas Gerais e sua capital, é uma emoção funda. É como caminhar por aqueles territórios que se fazem nossos pela leitura. O cronista guarda colecções de um jornal chamado "Suplemento Cultural de Minas Gerais" e lembra o que aprendeu nessas páginas amarelecidas pelo tempo, onde conviviam poemas e textos de Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa ou Murilo Mendes. Por esse tempo, o cronista vivia aventuras similares às do "Suplemento Cultural de Minas Gerais", na materialização de outros suplementos culturais que deram brado. No suplemento brasileiro, meu privilégio e meu prazer de leitura não se descobria apenas a identificação de uma nova literatura, mas obtinham-se lá, também, boas chaves de leitura para autores como Octávio Paz e Cortázar, Ezra Pound, T.S. Eliot, Barthes, Lorca, Borges ou Robert Frost. O "Suplemento de Minas Gerais" e o "Jornal do Fundão" lutaram e sobreviveram a Censuras (no Brasil a ditadura militar, em Portugal o salazarismo). Curiosamente, encontrei num estudo sobre o jornal brasileiro (da autoria de Fabrício Marques e Mariana Novaes) uma referência à censura (que é um tema que ando investigando) que me tocou especialmente. É uma afirmação de Jaime Prado Gouvêa (1969): "A Censura era um desafio. Driblar o censor era ótimo, um quase-golo. E nos dava a certeza de que alguém estava lendo nossas coisas, nem que fosse para nos ferir".
O cronista regressa, outra vez, ao chão poético de Belo Horizonte, para perceber sentimentos contraditórios de poetas. Carlos Drummond de Andrade, que aqui viveu na década de trinta, escreveu com "empenho do coração" sobre Belo Horizonte, poemas e crónicas. O último poema de Drummond sobre a cidade, de 1976, é uma despedida magoada do poeta. O poema, muito citado, aliás, intitula-se "Triste Horizonte" e começa assim:

"Por que não vais a Belo Horizonte? a saudade cicia e continua branda: Volta lá./ Tudo é belo e cantante na coleção de perfumes das avenidas que levam ao amor, nos espelhos de luz e penumbra onde se projectam os puros jogos de viver. Anda! Volta lá, volta já./E eu respondo, carrancudo: não./ Não voltarei para ver o que não merece ser visto, o que merece ser esquecido, se revogado não pode ser./ Não o passado cor-de-cores fantásticas, Belo Horizonte sorrindo púber e núbil sensual sem malícia, lugar de ler os clássicos e amar as artes novas, lugar muito especial pela graça do clima e pelo gosto, que não tem preço, de falar mal do governo no lendário Bar do Ponto (...)"

O cronista, nesta aproximação a Belo Horizonte quer dissipar o pessimismo drummondiano, e poisar "coraçãomente" (Guimarães Rosa) no labirinto da cidade. Então, apropria-se das palavras de Pedro Nava, como quem quer deixar um abraço feito de palavras. Assim:

"Belo Horizonte, que lindo nome! Fiquei a repeti-lo e a enroscar-me na sua sonoridade. Era refrescante. Continha fáceis ascensões e aladas evasões. Sugeria associações cheias de nobreza na riqueza das homofobias. Belorofonte. Laocoonte. Carente. Era bom de repetir - Belorizonte, Belorizonte, Belorizonte - e ir despojando aos poucos a palavra das arestas de suas consoantes e ir deixando apenas suas vogais ondularem molemente. Belo Horizonte. Belorizonte, Beoionte. Fui à nossa sala de visitas e apliquei no ouvido a concha mágica que me abria os caminhos da distância. Ouvi seu ruído helénico e o apelo longínquo - beoiooooo - prolongado como silvo dos trens que subiam de Caminho Novo acima, dobrando o canto dos apitos na pauta das noites divididas".

O cronista respira fundo e escreve: Belo Horizonte!

5 comentários:

  1. Como é bom voltar a ler uma crónica sua, amigo Fernando!
    Já tinha saudades.
    Um abraço.

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  2. que maravilha... abração

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  3. Grande abraço ao nosso cronista!Esperamos pelas próximas,
    com o mesmo afecto...

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  4. Que bacana achar seu blog, blog do meu novo amigo presencial em Belo Horizonte. Que bom ter você aqui, olhar sensível sobre a cidade, o Brasil, companhias para um café. Numa dessas conversas, sobre as estátuas dos escritores, você me fez investigar e descobrir que a "praça do encontro", onde estão as estátuas de Drumond e Pedro Nava, felizmente ganhou esse nome para ter la as estátuas, em substituição ao de um apoiador da ditadura que dava nome ao lugar (na verdade um largo na esquina da rua Bahia com rua Goiás). Por outro lado, você está sendo testemunha de nosso retrocesso, os grupos que pedem a volta dos militares em nosso cartão postal, com uma obra do Niemeyer ao fundo, um comunista!! E sinais da volta do AI5 por todos os lados: o Congresso cercado pela policias, o povo não pode entrar, a mídia oficial (aqui chamamos de PIG- Partido da Imprensa Golpista) criou a triste "guerra de Curitiba", tristes tempos. Bem vindo ao Brasil, que vc não vê na GloboNews!!

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