quarta-feira, 10 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 2, O Homem das palavras insubmissas


(para a Isaura, com um beijo)

Há notícias que nos chegam tintas de lágrimas, ampliadas de tristeza pela distância, que tocam fundo o coração da gente pois assim é a ferida aberta pela partida de um Amigo, pelo adeus a um companheiro de jornada de palavras. E palavras de honra. O BB, o nosso Armando Baptista-Bastos, deixou-nos aos 83 anos. O coração cansou-se decerto do internamento hospitalar doloroso, do tempo suspenso, da premonição do fim - e parou de bater. É a certeza dessa ausência, como sensação de irremediável, que agora me toca, neste fim de tarde de Belo Horizonte, quando o sol parece rir-se da morte e ainda ilumina a vida de luz nos detalhes do quotidiano. 
Olho para o instante, meço o peso das palavras, e penso sinceramente que o BB não apreciava a liturgia das palavras post-mortem, ele que sempre gostou de celebrar, no jornalismo e na literatura, a vida e a capacidade do homem se fazer a si próprio pela liberdade e pela insubmissão às servidões dos poderes. 
Como quem afasta o cálice da tristeza, vou então ao encontro da vida de palavras do BB na sua demanda de um mundo mais justo e fraterno e na afirmação, que nele foi um compromisso muito forte de, pensando ou escrevendo a realidade, acrescentar alguma coisa ao tempo que lhe coube em sorte. Então, eu penso que o BB cumpriu bem esse desígnio. Ele amava o jornalismo, e, no livro de todos os dias que eram as suas crónicas, as suas reportagens, as suas notícias, inscreveu um estilo, um fazer, uma cultura, que transformou a sua escrita numa referência. 
O BB diluiu a fronteira entre o jornalismo e a literatura através de uma escrita originalíssima, que transformava as reportagens em grandes narrativas ou fazia da crónica um género superior do fazer literário, registando os detalhes da cidade como espaço privilegiado de observação social. Começou no "Século", foi nome de proa do "Diário Popular", esteve ligado a uma experiência de jornal de jornalistas, "O Ponto".   
O seu nome tem uma ligação forte ao "Jornal do Fundão", onde, em finais dos anos cinquenta, dirigiu o polémico Suplemento de cinema, "Bastidores"', que a Censura se viu obrigada a calar. Foi um companheiro leal, que me acompanhou sempre em mil projectos, designadamente quando dirigi o JF. O BB foi muito mais do que isso: um amigo solidário em demandas de defesa da liberdade de expressão, um verdadeiro camarada das letras, sempre atento ao que fazia no jornalismo e na literatura. Prefaciou livros meus ou apresentou-os, escreveu palavras que guardo rente ao coração. Falava do jornalismo como uma grande paixão e lembro-me de ele ter escrito para o JF um texto memorável de elogio aos jornais, que intitulou "Catedral de Papel". Ele dizia mal da profissão, que tinha salários miseráveis, que era péssima, que originava muitas cirroses fatais. Mas depois de escrever tudo isso, o texto acabava convidando os jovens: 
- Éh, Malta! Juntem-se a nós!
Era assim o BB: sempre a favor do contra. Não escondia a inquietação pela selva que é o território da Informação. Parece que o estou a ouvir: "As Redacções dos jornais são hoje lugares mal frequentados!" Estou longe, não tenho os seus livros à mão, mas a memória conduz-me à sua escrita tão musical: ao "Secreto Adeus", à "Elegia para um Caixão Vazio", verdadeira metáfora literária de um país chamado Portugal, "Bicicletas em Setembro" ou "Viagem de um Pai com um Filho pelas Ruas da Amargura". "As Palavras dos Outros" é um notável livro de crónicas.
O BB! Frontal até dizer chega, na crítica aos desmandos dos figurões da política e dos negócios, afectuoso na afirmação de um princípio irrecusável: para os amigos, tudo - para os outros, cumpra-se a lei! O BB! Vou ter saudades da sua voz firme a dizer que isto está uma grande chatice (ele acrescentava outro qualificativo) e a invectivar, com palavras do Aquilino, para a exigência de se estar sempre a favor do contra: 
- Não os deixes estrebuchar!

1 comentário:

  1. Grande Fernando. Um destes dias vou aí visitar-te ou encontramo-nos sabe-se lá por onde. Que bem que o Armando nos tratou sempre, até na hora da saída. Abraço amigo. Ftordo

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