sexta-feira, 12 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 3, Museus e Memória


O Museu de Artes e Ofícios, Praça da Estação 
Uma das notas que se colhe do quotidiano de Belo Horizonte é a dinâmica cultural e a sua capacidade de oferta. 
A modernidade de uma cidade é inseparável da afirmação da sua capacidade criadora, e esta em que estou, tão pródiga em sinais de futuro, exprime essa singularidade, não só no rasgo da sua arquitectura (sempre a iconografia do Niemeyer ao encontro dos nossos olhos!), mas no acesso a uma multiplicidade de bens culturais, que vão do cinema alternativo e da música (a Filarmónica de Minas Gerais tem programa cuidado e público certo), a todos os outros segmentos da criação, como a literatura e a poesia (uma atenção especial às Bibliotecas) ou à arte, no sentido mais amplo. A tudo isso, não é estranho o pulsar vivo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com mais de 50 mil alunos, estimulante sede de um conhecimento cada vez mais nómada, que vai por aí, ao nosso encontro, por cima de todas as fronteiras.
Nesta emergência de equipamentos culturais urbanos, há uma área muito importante, pois se prende com a memória e a sua preservação (e democratização, como queria George Duby), que é o património museológico. Belo Horizonte (e Minas Gerais) têm notáveis Museus, que aliam a acervos valiosíssimos uma dimensão pedagógico-didáctica, valorizadora das novas tecnologias, indispensável à compreensão dos tempos que, nos Museus, estão dentro do registo temporal longo que é a dicotomia passado e presente.
Há, em Belo Horizonte, uma geografia de Museus que é preciso percorrer para ficarmos mais aptos a proceder à "identificação de um país". O Museu de Artes e Ofícios (MAO), fica na Praça da Estação, bem no coração de Belo Horizonte. A Praça, ponto de passagem de milhares de pessoas no garimpo dos dias, respira horizontes largos, toda aberta ao sol e aos jovens que ali confluem bebericando em alegre convivialidade, sobretudo aos fins-de-semana. Os edifícios que acolhem o MAO, de belíssima traça, sóbrios na expressão cromática, convidam a entrar para um reencontro com a História. Foi o que fizemos. É uma longa viagem aos arcaísmos da vida comunitária e à lenta afirmação do homem no domínio da natureza e das técnicas. Espaços que são um louvor ao trabalho, um elogio às mãos e ao espírito, que conduzem sempre à interrogação brechtiana - quem construiu Tebas? - sobre os verdadeiros construtores da história na sua dimensão colectiva: quem fez, quem arrastou as pedras ou edificou as muralhas da cidade?
No labirinto documental, impressionou-me uma imponente balança do século XVIII, trazida da Baía, para ser utilizada na venda de escravos a peso. Olhei o pesado mecanismo e não deixei de pensar que uma coisa não pesou ela: as lágrimas da escravatura! Pecados que o império colonial português teceu... Tudo isso se aprende no Museu de Artes e Ofícios, que abriu ao público em 2006, e é motivo de atracção grande na cidade. Na Praça da Liberdade e imediações encontramos outros espaços museológicos e culturais imperdíveis. É o caso do Centro Cultural do Banco do Brasil, com uma monumental mostra internacional de pintura sobre "A Figura Humana no acervo do MASP", e, muito perto, o "Memorial Minas Gerais Vale", que é uma atractiva viagem à história de Minas e às suas por vezes obscuras raízes identitárias.
O Museu de História Natural e Jardim Botânica, UFMG
Mais longe, fica o Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, no meio de um edílico bosque, com diversificada área expositiva, em que sobressai o acervo arqueológico. Aqui, há que sublinhar o entusiasmo com que o Professor João Renato, botânico de renome, e o Professor Gilberto Costa, geólogo de curiosidade cultural multifacetada (que dirige o espaço), falam daquele património natural e também da história de Minas Gerais. Devo confessar, aliás, que tanto o Professor João Renato Stehmann como a Professora Maria Teresa Alves, têm sido uma âncora fantástica de amizade e incansáveis na descodificação de Minas aos curiosos viajantes. Mas foi muito bom trocar ideias com o Professor Gilberto Costa, grande especialista em cartografia (organizou o monumental catálogo "Roteiro Prático de Cartografia: Da América Portuguesa ao Brasil Império"), para perceber a tipologia da ocupação do território e sua formação económica.
O viajante repete para si próprio: já se sabe que Belo Horizonte é uma cidade nova. E acrescenta outra constatação: talvez por isso tenha a marca genética tão evidente de uma sensibilidade especial para olhar o passado e poder caminhar em direcção ao futuro.

1 comentário:

  1. Fernando, obrigada por suas palavras de carinho. Que olhar sensível para a cidade, a minha casa! Amizade retribuída, sempre de braços abertos.

    ResponderEliminar