segunda-feira, 15 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 4, A Viagem da Língua

"Tanto mar", diz a canção do Chico Buarque, e quando pisamos chão do Brasil, eis o milagre da Língua a acontecer, as suaves sonoridades das sílabas do fazer falar, a alquimia inventada das palavras de cristal, a construção da Língua desde Camões, a escrita e a fala comuns edificadas dum lado e do outro do Atlântico, essa "jangada de pedra" que foi e vai pelo mundo numa viagem planetária que parece não ter começo nem fim. Penso nesses construtores da Língua, que fizeram dela um organismo vivo, um bicho que caminha no tempo, como dizia o Aquilino, e logo essa aventura descobre nomes outros, muitos, como o Machado de Assis ou o Camilo e o Eça, o Pessoa, o Manuel Bandeira e o Drummond, o Mário de Andrade e o Guimarães Rosa, o João Cabral, a Sophia e o Eugénio de Andrade, o Vinicius e o Chico e o Tom Jobim, o Zeca Afonso, o Caetano Veloso e a Bethânia, sei lá, tantos nomes, tanto mar, tanta poesia, palavras que voam e tocam o coração da gente. Então, essa aventura da Língua é o meu "espanto de todos os dias". E o poema surgiu como perplexidade do instante.

Que força é esta
que poisa na fala
e nos embala
na viagem desta Língua
tão doce e musical?
Que força é esta
que se faz comum
este falar coraçãomente
(tu é que sabias, João Guimarães Rosa!)
que pulsa arterialmente
no quotidiano da gente?
Que força é esta
que faz da invenção verbal
novas pátrias idiomáticas
como quem reparte o pão
e mata a fome a um irmão?

Belo Horizonte, 15 de Maio/17


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