terça-feira, 16 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 5, As Cores da Cidade


(ao António Valdemar, que foi amigo de Pedro Nava e me envolveu no seu fabuloso memorialismo)

Está um tempo bom para nos fazermos à cidade, caminhar pelas ruas de Belo Horizonte, onde Steiner gostaria de andar, tenho a certeza, para descobrir na topografia da urbe nomes que são parte inteira da história e da cultura da capital mineira e estacionar nos botecos proseando. Palmilhar as ruas, visitar o universo colorido dos mercados - o Mercado Central, lugar que evoca originais reminiscências rurais, é hoje uma babel de trocas, onde tudo se oferece e está ao alcance dos desejos consumistas - ou ir ao encontro de outros mercados afluentes e centros comerciais exuberantes. 
O lugar das trocas não poucas vezes resvala para a flor das ruas, onde camelôs de circunstância, com as suas vendas e o seu linguajar, dão um colorido genuíno à cidade. Aos domingos, o mercado popular amplia-se ocupando boa parte da larga Avenida Afonso Pena. 
No "Contorno", por onde quer que se vá, ganha-se mais um pouco a ideia de pisarmos chão de uma cidade pensada com régua e esquadro, num urbanismo rasgado, de prédios altos e avenidas largas, desenhadas com mão de futuro. Pedro Nava, verdadeiro Mestre de memorialismo, dá-nos conta da transformação e crescimento de Belo Horizonte, em "Balão Cativo", com um pormenor e um rigor de observação que, no intimismo da narrativa, nos deixam a sensação da sua escrita captar a substância do tempo. 
Fui, talvez por isso, fazer um aceno ao Ponto de Encontro, como se quisesse dizer olá! ao poeta Carlos Drummond de Andrade e a Pedro Nava. Lá estão os dois, no bronze idealizado por Léo Santana. Ali, entre a Rua Goiás e a Rua da Bahia, espaço de tão fundas memórias culturais, convergiram muitos sonhos jornalísticos e literários daquela geração modernista que, na primeira metade do século XX, abalou a tradição literária de Minas Gerais. E outra vez Pedro Nava falando da Rua da Bahia: "Não a Rua da Bahia de hoje. A de ontem. A dos "anos vinte". A de todos os tempos, a sem fim no espaço, a inconclusa nos amanhãs. Nela andarão sempre as sombras de Carlos Drummond de Andrade, de seus sequazes, cúmplices, amigos, acólitos, satélites". 
Devo confessar que a leitura do livro de Humberto Werneck, com o surpreendente título "O Desatino da Rapaziada", que é uma narrativa fantástica sobre jornalistas e escritores em Minas Gerais, me despertou a curiosidade sobre este universo mágico dos anos 20 e sobre o pulsar cultural de Belo Horizonte no fluir do tempo que veio depois. O inventário de nomes é fabuloso, parece estarmos face a um território predestinado para o exercício da poesia e da prosa. 
Humberto Werneck faz a história desse fio de tempo e conta-o como se estivesse a escrever um romance, captando o tempo e os lugares, colhendo histórias saborosas e acontecimentos que ficaram colados à história de Belo Horizonte e do Brasil. E nós, que o lemos, temos às vezes a sensação de lá termos estado também, de tal forma que, ao poisarmos outra vez na realidade, ficamos com pena desse sonho ter acabado. 
"O Desatino da Rapaziada" começa, aliás, com o Drummond, ou não fosse ele figura epigonal da narrativa! Explica Werneck: "A história que aqui se vai contar começa no ano de 1921, no instante em que a mais famosa de suas personagens, um adolescente magrinho, de óculos, entra numa redacção de jornal, na rua da Bahia, em Belo Horizonte". Era o "Diário de Minas". No fio inicial da história, conta o autor, pedindo eu licença por me deter mais tempo neste particular: "Mas estamos ainda no começo, no moço de óculos em quem já é possível reconhecer Carlos Drummond de Andrade. Tem dezoito anos e, não faz muito, foi expulso do Colégio Anchieta, de Nova Friburgo, no estado do Rio, por "insubordinação mental". Quatro anos mais tarde a pena azeda de um literato belo-horizontino, por detrás de pseudónimo, vai descrevê-lo como "aquele mocinho esgrouviado, que tem cara de infusório". Será visto, nessa época, como o líder de um grupo de jovens escritores "futuristas", cujos desmandos poéticos vinham perturbar a parnasiana harmonia da paisagem literária das Minas Gerais. Razão deveriam ter os padres de Nova Friburgo em chamá-lo de "anarquista".
Esse tempo cristalizou em versos de Drummond:

O Diário de Minas, lembras-te, poeta? 
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira 
uma página de: Viva o Governo 
outra - doidinha - de modernismo.

"O Desatino da Rapaziada": cinquenta anos de história literária, acontecimentos divertidos das vivências de ilustres escritores, estimulante confronto de ideias. Havemos de voltar, de certo, a Werneck e ao seu "O Desatino da Rapaziada" porque dentro do livro estão contidos tempos essenciais, como no capítulo "Sob as Asas de JK", quando fizermos crónica da Pampulha.

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