sábado, 14 de janeiro de 2017

A MODERNIDADE DE MARMELO E SILVA

É sempre uma honra poder juntar a minha voz aos que reconhecem na obra de José Marmelo e Silva um dos escritores mais notáveis da literatura portuguesa do século XX, cuja escrita jamais ficou condicionada pela patine do tempo, afirmando-se (é o que nós vemos hoje) como um processo narrativo inovador, actualizado e actualizante, surpreendente na forma como rompeu fronteiras temporais e projectou o seu mundo ficcional como matéria de fecunda inquietação criadora nos nossos dias.
É disso que logo à tarde, às 15 horas, vou falar em Espinho, na Biblioteca Municipal José Marmelo e Silva. No fundo, lembrar que o autor de Adolescente Agrilhoado é um escritor que, de forma tão límpida e inteligente, rompeu o cerco das ideias e dos dogmas, ou dos tabus, para fazer dos seus livros matéria de ousadia e de inquietação comum, dando também expressão a temáticas proibidas, a sexualidade e a condição da mulher, que se tornam pura coincidência da literatura e nessa relação arterial o autor lhes dá dimensão intemporal.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

MEIO MILHÃO!

Há muitos sonhos dentro da escrita e quando ela assume a condição de imediata, imersa na narrativa da actualidade, configurada ao olhar sobre as palavras e as coisas, então os sonhos cruzam-se com múltiplas realidades numa respiração arterial sobre a vida. Notícias do Bloqueio é, desde o início, um território aberto à contingência do pensamento em voz alta. Às vezes, são instantes de indignação sobre o mundo, a denúncia da desumanidade tornada lei, a crónica alimentada de pequenos detalhes da condição humana, a tentativa da escrita poisar dentro do real, que é o espaço onde a vida se consome. Mas Notícias do Bloqueio é, também, uma introspecção cultural, às vezes a poesia, outras o desafio da crónica na expressão drummondiana que é um espaço aberto onde cabem poemas, fragmentos de memória, comentários avulso sobre os dias que passam (ah! o tempo...), textos de diários improváveis que morrem na sua efemeridade e ausência de intimismo. Notícias do Bloqueio é, porventura, tudo isso, a síntese possível do respirar de muitas ideias e leituras, a procura daqueles universos que existem à volta dos livros. Por que estou eu hoje a falar nisso? Apenas para celebrar a leitura e, aí, sim, um verdadeiro mundo de leitores que traduz uma realidade planetária. Notícias do Bloqueio ultrapassou o meio milhão de visualizações. É qualquer coisa, penso eu agora, imaginando essas centenas de milhares de rostos que não se conhecem que, dia a dia, partilham ideias, palavras, sonhos. Em tantos países e tão diversas latitudes, é a viagem da Língua que prossegue. A "palavra, voa!", como dizia João Guimarães Rosa. Reparto, em mais de meio milhão de instantes, o pão das minhas palavras, que escrevo como um interminável romance de amor.  Mais de meio milhão de visualizações. A leitura reproduz-se, como se reproduzia a esperança no poema de Egito Gonçalves que deu nome ao blogue: Notícias do Bloqueio.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

HISTÓRIA DE UM LIVRO QUE ABALOU O REGIME



Há anos, num suplemento que publiquei no JF sobre o 25 de Abril, penso que nos 35 anos da Revolução desencadeada pelo MFA, contei a história de um livro proibido, Escritos Políticos, de Mário Soares. Acho que é bom lembrar o acontecimento, agora que Soares nos deixou, como preito de memória. Penso que devemos seguir o velho ensinamento de Gide: "Tudo está dito já, mas como ninguém ouve, é preciso repetir sempre!". 

Habituados ao convívio e à prática dos direitos elementares, desde o 25 de Abril de 1974 (já lá vão quase trinta e cinco anos), alguns se lembrarão ainda da liberdade de expressão como delito comum e de um universo asfixiante da cultura configurado aos arcaísmos mentais da ditadura; outros, das novas gerações, que cresceram em plena democracia, olham para essas realidades absurdas, porventura inacreditáveis, como velha arqueologia, e precisam de fazer um exercício largo de imaginação para perceber os mecanismos da repressão e da intolerância que se viviam em Portugal.
Esse desfasamento temporal de conhecimento, que provoca tanta indiferença, radica em boa parte na forma como a memória não só não foi democratizada socialmente (e aqui há sempre que apontar a responsabilidade que a escola tem nessa transmissão), como, em muitos aspectos, tem sido apagada ou adulterada.
Nesse aspecto, vale a pena lembrar as dificuldades e os perigos que a publicação de um livro representava. A palavra insubmissa, mesmo em tempo de censura, quando os leitores -- como um dia disse Augusto Abelaira sobre a Censura brutal imposta ao Jornal do Fundão -- se transformavam em detectives das palavras,  era a luz que guiava o pensamento, uma espécie de reserva moral que alimentava a resistência e abria ao cidadão a matéria do sonho e da utopia. 
É do maior interesse lembrar, por isso, o que foi a saga da publicação, em 1969, do livro de Mário Soares, que punha em causa frontalmente o regime, desmistificando o carácter repressivo da ditadura, mau grado a ilusão da primavera marcelista, então ainda no apogeu. Este facto confere ao livro de Mário Soares a maior importância, como pensamento autónomo sobre a sociedade portuguesa, numa batalha pela democratização e pela exigência de um Estado de Direito em Portugal. Soares contou que ninguém se dispunha a imprimir o livro e foi António Paulouro que o fez na Tipografia do Jornal do Fundão, já então muito vigiada pela PIDE. O livro foi, pois, composto e impresso na então Tipografia do “Jornal do Fundão”. Era preciso fazê-lo no maior segredo para evitar a sua apreensão pela PIDE. Escritos Políticos foi composto linha a linha na Linotype, passou à impressão e, depois, ao acabamento e foi distribuído pela Editorial Inquérito, propriedade de Eduardo Salgueiro, que prestou assinaláveis serviços à cultura portuguesa. O editor foi o próprio autor, o Dr. Mário Soares.
Fazer um livro destes era uma saga, um acto de coragem, um risco assumido no fio da navalha. Um dos compositores da obra, Jerónimo Clemente, agora revisor no Jornal do Fundão, recorda esse tempo assinalando que, “sentado à linotype o compositor tinha sempre preparado um texto inócuo alternativo, para colocar por cima do original que estava a ser composto, sempre que alguém estranho ou que levantasse suspeitas entrava na tipografia”. 
À distância de 40 anos, Jerónimo Clemente recorda outro livro muito importante que se fez na tipografia do JF, para as Edições Europa-América, de Lyon de Castro, outro editor de rara coragem, o Dicionário Crítico de Algumas Palavras Correntes, de António José Saraiva, que a PIDE só viria a apreender mais tarde nas livrarias, já com muitos livros vendidos. “Era preciso muita atenção”, diz Jerónimo Clemente, “que os tipos, às vezes, entravam aos coices, sem avisar, pela porta de serviço da oficina”.  Quando o livro ficou pronto, foi Maria Barroso quem o veio buscar ao Fundão, à noite, num dia cinzento. Veio com cautelas redobradas, Mário Soares tinha, um ano antes, 1968, sido deportado para S. Tomé. 
Há dias, o Dr. Mário Soares dizia-me que este livro era particularmente relevante na história da democracia portuguesa por conter documentos (por exemplo o texto “À Nação”, de Dezembro de 1968), subscrito por centenas de democratas da área socialista, que é já uma afirmação do futuro Partido Socialista. No prefácio de Escritos Políticos, Soares lembra o seu percurso assinalando a intervenção cívica que “desde 1942, ano em que, recém-chegado à Faculdade de Letras, com os meus dezassete anos, comecei activamente a participar no longo calvário colectivo da Oposição ao actual regime”. E logo acrescenta: “Desde então, silenciado quase sempre, combatido com armas desiguais, preso, perseguido, caluniado, deportado, privado dos meios normais de contacto com o público, fui – apesar de tudo isso – procurando afirmar sempre as minhas ideias – conforme pude – temperadas no acendrado amor pela terra-pátria e no apaixonado interesse pelos problemas essenciais da gente portuguesa, com independência, não isenta de certo risco, com manifesto desinteresse pessoal e com idealismo, uma vez que nunca pretendi mais do que participar – como homem livre e em igualdade de condições com os meus compatriotas – na vida pública do meu País. Como, de resto, tem acontecido, em circunstâncias ainda bem mais difíceis, a milhares de outros oposicionistas...” 
Ideias (“Mas Excelentíssimos senhores, é possível viver sem ideias?”, perguntara Antero, a propósito da proibição das Conferências do Casino), o pensamento como liberdade livre, uma batalha sem fim em que este livro se inscreve. É preciso lembrar.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES

MÁRIO SOARES POR JÚLIO POMAR

Na biografia das figuras da História, há sempre a tendência para dissolver os percursos de vida nos grandes momentos da vida colectiva, nas decisões que influenciam o futuro, em tudo aquilo afinal que é a superestrutura da personalidade política no que toca ao exercício do Poder.
No caso do Presidente Mário Soares, figura marcante da história portuguesa contemporânea, que agora nos deixou, a dimensão humana é sempre inseparável e primordial na afirmação da comum humanidade que, nele, é parte inteira da sua condição cidadã. É verdade que os grandes combates cívicos pela liberdade, as grandes causas em louvor dos direitos humanos, a percepção das questões essenciais que fazem o caminho do progresso e da felicidade, se projectam, no seu caso, nas linhas de uma acção de resistência contra todas as formas de limitação da dignidade, contra todas as maneiras peritas de amputar a liberdade, pois as suas "avenidas do diálogo", como dizia o seu amigo António Sérgio, tinham sempre o sentido de o Homem como a medida de todas as coisas.
Soares fez dessa leitura do concreto da política um  magistério para o seu compromisso temporal com a vida, na perspectiva de uma dinâmica de esperança em que a transformação da realidade era sempre possível.  À boa paz da conversa, em tempos sombrios  da actualidade, quando os dias pareciam fechar-se totalmente na neurose do pessimismo, ele furava o bloqueio da descrença como se fosse um jovem e afirmava uma certeza absoluta: "Isto vai mudar, não tenha o meu amigo, a mínima dúvida!" Ele sabia colocar esse "frémito de esperança" no meio da névoa, como diria Carlos de Oliveira, poeta que ele tanto amava, e um dia em que a prosa fluía livre disse-lhe que nessa exaltação da esperança ele parecia um marxista convicto como nas célebres teses  que mandavam sobretudo alterar a realidade. Ele sorriu e disse que a demissão e a indiferença eram uma espécie de morte.  Era certamente aí, nessa filosofia da política, que entroncava a proclamação que ele tomou como uma espécie de a-bê-cê da sua forma de fazer política: Só é vencido quem desiste de lutar!"
A sua vida foi, por isso, um eterno recomeço, num persistente combate de ideias. Mário Soares e as suas circunstâncias: a dimensão contraditória de estratégias de uma vida, a complexidade de situações limite na sociedade portuguesa, uma sublime intuição política que lhe permitiu, muitas vezes, ter razão antes do tempo.
Quem teve a sorte de conversar com ele, de o ouvir discorrer sobre a Europa e o mundo perceberá facilmente tudo isso. Lembro-me bem de ter proclamado o direito à indignação e de fazer dessa bandeira um tempo fundamental da cidadania. Essa prática foi uma prática constante na sua acção cívica, desde os tempos da luta contra a ditadura, como nos anos recentes da intervenção no Iraque ou das cedências ao capitalismo selvagem do furioso neo-liberalismo, em que a Europa, com desgosto, dizia ter embarcado. Poucos levantaram com tanta veemência a voz contra a Troika e a imposição da pobreza, poucos afirmaram tão forte o grito numa palavra: basta! 
O dr.Mário Soares era um homem de Cultura. Aprendia-se muito com as suas histórias, o seu convívio com escritores e artistas, as memórias das suas relações de afecto com grandes criadores ou políticos de dimensão mundial, como Mitterrand, Olof Palme ou Willy Brandt. A literatura e a poesia, como o ensaísmo e a história, eram paixões que se desprendiam naturalmente das suas falas.
Um dia, o Eugénio de Andrade escreveu sobre Soares: "Gosto dele, apesar de ser Presidente da República!" Soares gostou. Olhava para a crítica com bonomia e gostava das caricaturas de que era alvo privilegiado. Contou-me um dia: "Eu fiz uma exposição de caricaturas sobre mim, no Palácio de Belém. Estava cá o Presidente Henrique Cardoso e levei-o a visitar a exposição. Ele ficou ao mesmo tempo fascinado e espantado: Isto é único! Que grande lição de liberdade!"
Não esqueço que o dr. Mário Soares, no meio de uma agenda carregadíssima, quis vir a Castelo Branco apresentar o primeiro volume de "Crónicas do País Relativo. Portugal, Questão Que Tenho Comigo Mesmo". Foi uma sessão cultural. Distinguiu-me sempre com grande amizade. E escreveu palavras amáveis sobre mim na coluna que teve no "Diário de Notícias".
A liturgia pós-mortem, incomodava-o, a ele que amava a vida. Então, aqui deixo este aceno de palavras vestido de saudade. Palavras que tomam a forma de um cravo vermelho, como aqueles que ele tanta vez empunhou contra o salazarismo, breves bandeiras da liberdade.