quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

HISTÓRIAS DA INFÂMIA NA INFORMAÇÃO

A ACTUALIDADE DO TRAÇO DE ZÉ DALMEIDA
Há anos que se vem escrevendo na imprensa doméstica uma espécie de história portuguesa da infâmia, tomando eu aqui de empréstimo a alusão ao livro de Borges. Não é só a degradação do interesse público, que era questão primordial do fazer jornalismo, ou a indiferença às causas que colocam a condição humana no fio da navalha, ou a prática de não garantir o direito à informação numa selecção cuidada da realidade, ou a ausência dos desígnios de expressão cultural, como marca identificadora na reportagem e na crónica. É o afastamento de tudo isso mais os interesses espúrios dos cavalheiros de negócios que tomaram conta da informação, a sua submissão aos poderes, o analfabetismo reinante nos universos do mando, a aposta na precariedade e a instalação do medo dentro das redacções. Há uma selva no panorama da imprensa que os que ainda lêem jornais descobrem todos os dias. Mas a selva, com os seus contornos de ausência de valores, de vale tudo (até chincar olhos!) estende-se, em Portugal, ao universo total da informação. Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar, dizem os versos de Sophia que o Fanhais cantava, quando a liberdade era proibida.
Há muito se instalou uma deriva de direita no mundo da informação. Estes dias têm sido particularmente vivos na exemplificação da inquinação reinante. O director do "Público", David Diniz, que transitou do "Observador" para a TSF e desta para o "Público", que foi ao Congresso dos Jornalistas dizer que a Imprensa portuguesa estava óptima e se recomendava, procede no jornal do senhor Belmiro deAzevedo a uma clara limpeza, à esquerda. Ora, um dos traços identificadores deste diário era a qualidade da opinião, assente num carácter plural que garantia uma clara expressão democrática, de que a informação é causa e efeito.
Tudo isso se vai, gradualmente, diluindo, numa espécie de estratégia da aranha. Assistimos, nos últimos tempos, ao afastamento de colaboradores que faziam parte do rosto do jornal, como José Vítor Malheiros, Alexandra Lucas Coelho ou Paulo Moura, enquanto outros são arredados da edição de papel e remetidos para o on-line que, aliás, parece ser o destino do jornal.
As notícias inquietantes surgem de vários quadrantes. Por exemplo, o veto a João Paulo Guerra para Provedor da RDP. É preciso dizer que João Paulo Guerra tem uma história dentro do jornalismo, com um papel fundamental antes e depois do 25 de Abril, fez escola na forma de fazer crónica e reportagem no mundo dos sons, tem uma biografia cultural e cívica que prestigia o jornalismo e a cultura portuguesas.
Um amigo meu, também indignado sobre esta notícia, dizia-me que João Paulo Guerra sempre praticou o desassossego e o que estes tipos hoje querem é silêncio, a paz dos cemitérios é que é boa! Seja como for, a exclusão de João Paulo Guerra é um sintoma de um certo Portugal e de uma certa impunidade que costuma morrer no esquecimento. Por isso, penso eu, Adelino Gomes punha um dia destes o dedo na ferida, questionando:
"Sabemos que o voto é secreto. Mas, precisamente pelas razões que este texto tão bem aponta, os cidadãos têm o direito de saber os fundamentos de tão "bizarra decisão". João Paulo Guerra é uma figura maior da História da Rádio em Portugal. Se os autores do veto não partilharem com a cidadania os motivos que os levaram a votar contra o convite que lhe foi dirigido pela Administração da RTP - uma atitude que só os dignificaria - , considero que o Conselho de Opinião deve providenciar no sentido de apurar tais razões e torná-las públicas. De forma a que todos fiquemos a par do perfil que a actual maioria deste órgão entende dever ser o do provedor da rádio pública".

domingo, 22 de janeiro de 2017

O PRIMARISMO DE TRUMP

Não me lembro de uma repulsa tão grande face à eleição de um Presidente dos EUA, como a que está acontecendo, um pouco por todo o lado, depois que Trump (certamente o criador do trampismo - de trampa - na política), ocupou com armas, bagagens e estupidez a Casa Branca. É certo que o clamor da indignação, que envolve certamente um misto de insegurança e de repulsa pelo carácter xenófobo, populista e nacionalista do ideário de Trump, é sobretudo um grito colectivo de consciência, pois o desastre da eleição do presidente americano começou muito antes, quando as contradições do partido democrata lhe abriram caminho por uma espécie de terra de ninguém. Olham-se, por isso, as manifestações colectivas, os gestos e as palavras de protesto e respira-se o duro sentimento de assistirmos a um choro sobre o leite derramado. 
Seja como for, quem assistiu às cerimónias da posse - e, sobretudo, ao vazio e à pobreza de um discurso que não era outra coisa senão a retórica de apelo aos sentimentos mais primários -, não pode deixar de exprimir perplexidade e inquietação, um fundo desassossego,  pela irracionalidade que Trump transporta consigo, pela boçalidade de um pensamento inquinado, o que pode levar o mais comum dos mortais a interrogar-se:
-- Ninguém saberá do que esta besta é capaz! 
Depois, há nos seus actos e atitudes uma dimensão de hipocrisia, que nasce da velha "teoria" de que a política é uma arte para enganar tolos. Veja-se: ainda decorria o ritual público da posse, ainda ele não aquecera o lugar, e já os serviços da Casa Branca se apressavam a dizer que Trump assinara seis despachos de reversão da política de Obama, entre os quais os que visam abandonar a política de redução de energias poluentes, o plano para a defesa do clima e da água, e - helas - o Obamacare, o programa de acesso à saúde, de que estavam (e passarão a estar) excluídos milhões de americanos! Todavia, no discurso presidencial, esgotou a palavra povo, a quem disse que devolvia o poder e daria tudo... Como exemplo de hipocrisia em política, não poderá haver melhor! 
Inquietante é sabermos que o país mais poderoso do mundo vai ser governado por um sujeito assim. Que utiliza o patriotismo como narcótico contra o pensamento livre. Que, seguramente, nunca leu o que Samuel Johnson escreveu em 1774 para avisar que, às vezes, o patriotismo é "o último recurso de um canalha" que tantas vezes o exibe para "ocultar os seus próprios interesses".