sábado, 4 de fevereiro de 2017

VIDA E MORTE DAS PERSONAGENS

Volto sempre ao texto antigo de Mário Vargas Llosa que se interrogou, no ensaio à volta de Como se faz uma novela, sobre o carácter ontológico que pode ser o exercício da escrita, como aquilo que ele chamou um deicídio. Essa morte de Deus não era outra coisa senão o desafio ao Criador que era o próprio acto de criar realidades. A construção de uma novela implica a exposição, pelo narrador, dos seus fantasmas interiores. O que levou Vargas Llosa a dizer que, ao contrário da mulher que faz streap-tease para expor as suas belezas, o ficcionista mostra os seus demónios mais profundos.
Voltei a discorrer sobre o tema porque li um curioso texto no "El Pais" sobre uma questão que, penso eu, assalta sempre aqueles que respondem, pela escrita, ao desafio de criar realidades e personagens.
Fazia-se uma pergunta: "as personagens nunca morrem... ou morrem?". Ainda por cima, tratava-se de comentar a ressurreição de Pepe Carvalho, o lendário detective de Vásquez Montalbán, pelas mãos de outro escritor, Carlos Zanón, para a editora Planeta.
A jornalista cita exemplos (do Poirot de Agatha Christie ao James Bond, de Ian Fleming, do Philip Marlowe de Chandler ao Mr. Holmes de Conan Doyle) e diz que é uma prática que se tornou comum na novela negra.
A notícia de que o detective Pepe Carvalho vai voltar em 2018 causou-me um certo mal-estar. Fui seu leitor compulsivo (e quantas saudades tenho dele!), frequento com regularidade o autor de Os Mares do Sul,  do Quarteto de Buenos Aires ou de Os Pássaros de Bangkok, cidade onde morreria no aeroporto vítima de enfarte. Manuel Vásquez Montalbán era único e "uma presença irrepetível na literatura", como assinalou António Munoz Molina. Nesse sentido, as personagens não morrem. E, talvez por isso,  Andrea Aguilar lembrasse que "a personagem que buscava o seu autor na obra de Pirandello, já o advertira: "Quem teve a sorte de nascer como personagem vivo, pode rir-se até da morte. Não morrerá nunca."
As personagens são uma espécie de filhos e os seus criadores, muitas vezes, não admitem expropriações ou aproveitamentos. Haja em vista o que aconteceu com o nosso Eça de Queirós. No grande romance Os Maias, Eça ridicularizou um certo tipo de retórica poética através da personagem Alencar, que é uma caricatura soberba de um poeta sem qualidades. Pinheiro Chagas julgou ver na composição de Alencar uma ataque ao seu amigo Bulhão Pato, e reagiu com veemência. A resposta de Eça é uma peça de antologia. Ele pediu a Pinheiro Chagas: faça o favor de se retirar de dentro das minhas personagens!
Penso que Vásquez Montalbán era capaz de dizer o mesmo a Carlos Zanón.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

EUGÉNIO DE ANDRADE, MEMÓRIA DE CASTELO BRANCO

FOTO DE MARIA NICOLAU FILIPE
Hoje, às 18 horas, estarei no Museu Tavares Proença Jr, em Castelo Branco, para falar do meu livro A Materna Casa da Poesia. A sessão não é mais do que um pretexto do coração para uma "festa" à volta da poesia de Eugénio de Andrade. Por isso, o acontecimento terá música da ESART (o professor João Raimundo ao piano) e canto, leituras paralelas de poemas por Manuel Costa Alves e Gonçalo Salvado, "As Mães" por Adelino Pereira.
O lugar da sessão, o Museu Tavares Proença Jr. é um espaço simbólico muito especial. Falo dele no livro no tempo em que António Salvado era director e Eugénio ali veio, pois era o tempo em que o Museu irradiava intensa luz cultural. É bom por isso ter lá o poeta António Salvado para falar de A Materna Casa da Poesia, e poder dar-lhe um abraço, lembrando o que foi a sua acção à frente do Museu Tavares Proença Jr.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

NO TEMPO EM QUE...

Estava convencido de que a contingência de fazer anos -- ainda não há receita para suspender, para efeitos de futuro, o calendário! -- nos atirava nostalgicamente para os versos de Pessoa: "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos". E assim se arrumava uma questão que, sendo pessoal, traz sempre consigo o sinal da amizade. Bem sei que o dia 31 de Janeiro, pela carga de memória revolucionária que simbolicamente carrega, não é fácil de diluir na banalidade dos dias que fazem o ano, mas fiquei sinceramente surpreendido com o volume das mensagens telefónicas, de e-mails ou via Facebook. Neste último espaço, cerca de cinco centenas, com palavras amigas, incentivos à escrita, estímulo aos dias claros de felicidade. Mentiria se dissesse que tanta cópia de amizade não me comoveu e até me inquietou pela responsabilidade que este universo de escrita imediata comporta. São amigos de perto e de longe: uns que conheço de velho e persistente companheirismo; outros que se juntam a mim pelas palavras. A todos, por igual, estou gratíssimo, ciente de que a amizade é um valor primordial que nos ilumina a vida.
Por isso, talvez o melhor recurso de gratidão seja recorrer aos versos do poeta, à arte poética de Eugénio de Andrade, para dizer com ele o poema que ele dedicou aos Amigos:

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava 
porque partia
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria --
por mais amarga.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A DOIS AMIGOS QUE PARTIRAM

Não vale a pena repetir o belíssimo poema de Auden, quando, face à morte de um amigo, manda desligar os relógios, calar os sinos, os pianos e o latir dos cães. Nestes dias que passam, dois amigos da mesma geração do colégio e de todas as aprendizagens, o Fernando Nabais e o Vasco Afonso, partiram. Todos amigos comuns. E essas notícias tristes, que chegam sempre com aquela carga de irremediabilidade e de ausência que nos deixam atónitos, remetem-me sempre para Whitman porque na expressão da dor dos seus versos ele busca o silêncio. E o silêncio é a grande reserva íntima de cada um, total e absoluta, de onde emerge aquela fala interior profunda que nos põe em confronto com a vida.
No meu caso, esse falar vai agora ao encontro da memória para uma lembrança fugaz de acontecimentos e imagens, vivências e camaradagens, sei lá, aquilo que cimenta o universo da convivialidade, que é o fluir do tempo da vida.
Os dois amigos que partiram, tão diferentes nos percursos de vida, tinham uma coisa em comum: bondade. O Vasco era um benfiquista sorridente e o Fernando um leão dos autênticos, um pouco à António Silva de O Leão da Estrela, para quem a bola era um pretexto de conversa alegre. Quem conheceu o Vasco sabe como ele gostava de partilhar alegria com os amigos e de chutar para canto qualquer tipo de chatice que pudesse ensombrar a conversa. Era uma pessoa de que todos gostavam muito.
O Fernando Nabais foi um economista distinto que deixou a marca do seu saber por onde passou, do Ministério da Energia à Caixa Geral de Depósitos. Mas nunca alardeou essa condição e sorria quando eu lhe dizia que os economistas no governo em tempo de troikas e mesmo fora delas (às vezes travestidos de grandes especialistas financeiros) eram a desgraça deste país. Ele respondia-me: "Eles, os economistas, e os outros!" Era um fundanense na verdadeira acepção da palavra, comentava as desgraças colectivas da terra e fazia ironia à volta de piruetas de políticos domésticos, mas nunca tratava a realidade humana com desdém ou indiferença. O Fernando Nabais era de uma grande cordialidade. Gostava de partilhar a mesa, e, à volta dela, no Verdinho do sr. Pires, seu poiso habitual quando vinha ao Fundão, a conversa era sempre fraterna e animada. Fazia parte da tribo dos homens bons. 
Volto à lembrança do poema de Auden, não já à procura de silêncio, antes dissolvendo a dor de ver partir dois amigos tão jovens num aceno de palavras tintas de lágrimas.