sábado, 11 de fevereiro de 2017

OLHAR A NEVE


Olhar a neve
que desce da Serra
e poisa tão leve
na alvura da paisagem
fazendo da terra
um manto original
de fantasia.
A brancura limou
a miragem na planura
dum mundo elemental
semeando instantes
de magia.
É tudo breve,
regresso à memória
 da infância brincada,
ao cenário das batalhas
com bolas de neve,
à história feliz
do boneco à beira da estrada
com um chapéu velho
na cabeça e
a cenoura no nariz
- um pinóquio a brincar.
Neve: imobilidade fantástica
tempo suspenso
na ternura dum olhar.

Fernando Paulouro Neves
Covilhã 11.2.16

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

TZEVATAN TODOROV, OS HOMENS E OS OUTROS

Uma das coisas que o pensador Tzvetan Todorov, que faleceu ontem em Paris, aos 77 anos, nos ensinou foi a aprendermos a olhar o outro como medida de todas as coisas. Talvez essa compreensão de uma humanidade em louvor da condição humana, sem margens ou amputações, nos leve sempre a pensar em Rimbaud e no seu célebre "Je est un autre". Mas no caso de Tzevetan Todorov, que foi aluno brilhante de Roland Barthes, professar de várias universidades, pensador de dimensão global e construtor uma obra ensaística referencial sobre o nosso tempo, o ensaísta, que venceu o Prémio Príncipe das Astúrias em 2008, foi um dos observadores mais lúcidos da desordem das sociedades contemporâneas: "humanista de alento crítico, dedicou a sua obra a estudar a alteralidade, a barbárie, os limites da liberdade individual e o espírito de insubmissão ante circunstâncias adversas" (Álex Vicent, "El Pais", 7.2.2017). 
Todorov escapou da Bulgária para uma formação intelectual feita no caldo cultural de Paris dos anos sessenta. Gostava de se classificar como um "auto deslocado" e essa condição, penso eu, conduziu-o a eleger como matéria primordial de reflexão a alteridade e a explicar que "cada indivíduo é multicultural e as culturas não são monolíticas." Em 2010, numa entrevista ao "EL Pais", ele antecipou a crise civilizacional que aí vinha, com deslocados de outro tipo, os refugiados, ao sublinhar que "este medo aos imigrantes, ao outro, aos bárbaros, será o nosso primeiro grande conflito no século XXI." Porque "o medo dos bárbaros é o que arrisca a converter-nos em bárbaros." 
O pensamento de Todorov é, também, um contributo notável para a questão crucial que é, nos dias de hoje, a memória histórica. O seu livro Insubmissos é uma introspecção a figuras, cuja confrontação com o tempo é a história da relação com a crueldade na vida concreta do século XX. Estão neste caso Pasternak, Stalin, Soljenitsine, Mandela, Germaine Tillion (nome grande da Resistência Francesa contra a ocupação nazi), Malcom X. 
No fundo trata-se de uma inquietação que ele exprime através da escrita. "Escrevo contra o ódio e a favor da compaixão", explicou Tzevatan Todorov. Autor de A Experiência Totalitária e, entre muitos outros,Introdução à Literatura Fantástica ou Nós e os Outros, o ensaísta foi, sobretudo, um homem comprometido com os problemas do nosso tempo, acrescentando-lhes uma qualidade de reflexão que é um longo processo de consciencialização da realidade social na sua dimensão inclusiva.
Quando o distinguiram com o Prémio Príncipe das Astúrias, lembrou que "o estrangeiro não só é o outro, nós próprios o fomos ou seremos,ontem ou amanhã, no alvor de um destino incerto: cada um de nós é um estrangeiro em potência." E advertiu: "Pela maneira como percebemos e acolhemos os outros, os diferentes, pode medir-se o nosso grau de barbárie e civilização. Os bárbaros são os que consideram que os outros, porque não se parecem com eles, pertencem a uma humanidade inferior e merecem ser tratados com desprezo ou condescendência. Ser civilizado não significa ter feito cursos superiores ou ter lido muitos livros, ou possuir uma grande sabedoria: todos sabemos que certos indivíduos com essas características foram capazes de cometer actos de absoluta perfeita barbárie. Ser civilizado significa ser capaz de reconhecer plenamente a humanidade dos outros, ainda que tenham rostos e hábitos distintos dos nossos; saber pormo-nos no nosso lugar e olharmo-nos a nós próprios como se fossemos de fora. Ninguém é definitivamente bárbaro ou civilizado e cada um é responsável pelos seus actos."

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

VIDA E MORTE: MISTÉRIO E DUALIDADE

No outro dia, ao falar de Vida e Morte da Literatura, Arnaldo Saraiva mostrou bem como essa dualidade temática se transformou num alimento primordial da criação literária, às vezes diluindo-se numa realidade inseparável, feita de perplexidades e espantos. Daí, certamente, o facto de ele ter começado por lembrar a genial obra do seu amigo João Cabral de Melo Neto, criador do célebre auto Morte e Vida Severina, que muito antes de Abril veio ao Fundão, a convite de António Paulouro.
De facto, na aventura de o homem se fazer a si próprio, essa reflexão ontológica sobre a relação da vida com a existência cósmica de cada um é uma imemorial interrogação poética e literária. Lembro-me sempre daquele pensamento de Vergílio Ferreira que é uma síntese perfeita dessa questão: a vida é um fio de luz entre dois pontos escuros, o nascimento e a morte. E o Eugénio de Andrade tem um poema em Os Sulcos da Sede, o seu último livro, em que os versos reflectem a inevitabilidade da morte com uma ponta de saborosa ironia:

Eu sei: tu querias durar. 
Pelo menos durar tanto como o tronco 
da oliveira que teu avô 
tinha no quintal. Paciência, 
querido, também Mozart morreu. 

Andava eu à volta destas coisas, tinha acabado de escrever um texto de ficção sobre a morte fingida, para o livro praticamente pronto, Fellini na Praça Velha, quando li no "El Pais" uma curiosa matéria sobre "A morte em aforismos", de Jorge Wagensberg. O autor sublinha estarmos face a uma inquietação que nunca nos abandona, desde há centenas de milhares de anos, quando o primeiro homem olhou para as estrelas porque sabia que também ia morrer. Talvez o melhor, diz ele, seja assumir a vida como um jogo de azar que vale a pena jogar. "Por este caminho, a reflexão nunca deixa de recomeçar".
De facto, "temos muito pouco tempo para estar vivos e todo o tempo do mundo para estar mortos, pois que pena, porque há muitas maneiras de estar vivo e só uma de estar morto". Daí, talvez, a velhíssima locução latina: primeiro viver, depois filosofar!
E agora, vamos lá então a descobrir "a morte em aforismos".
1. Não há maneira de encontrar consolo frente à certeza de que um dia vamos morrer, nem sequer pensando na baixíssima probabilidade que chegámos a nascer.
2. A probabilidade de voltar a nascer depois de morto é colossalmente pequena, mas não é nula como ilustra o facto de já termos nascido uma primeira vez.
3. Agora já não tem remédio, mas a morte necessária é uma inovação imposta pela reprodução sexual.
4. Uma bactéria aspira à eternidade convertendo-se a tempo na sua própria descendência
5. Se a medicina logra um dia curar doença, já ninguém se atreverá a cruzar uma rua, porque uma coisa é perder a vida e outra, muito diferente, é perder a eternidade inteira.
6. Por simetria: já sei onde estarei depois de morrer -- mais ou menos onde estava antes de nascer.
7. Uma pessoa acaba de morrer de todo quando morre o último que o conheceu em vida.
8. A frase mais frequente nas lápides dos cemitérios, nunca te esqueceremos, descansa sobre a hipótese tácita de que só morrem os outros.
9. Os que prometem a glória no Além em troco do sacrifício na Terra não necessitam de livro de reclamações.
10. A morte é a mais surpreendente de todas as notícias previsíveis.
11. Viver envelhece, envelhecer humilha e a maior humilhação é morrer.
12. Morreu e depois algo se apagou retrospectivamente no olhar de todas as fotografias que dele haviam tirado ao longo da vida.
13. Pensar na vida gera tanta perplexidade como pensar na morte.
14. Jazer é grátis, qualquer outra coisa é arquitectura.
15. Todo o real é pensável (hipótese da ciência), mas todo o pensável não tem que ser real (hipótese da literatura), logo a imaginação é maior que a realidade inteira (tese cientifico-literária).
16. A invenção do inferno: viver é baixar um instante da eternidade com o alto risco de arruiná-la irreversivelmente.
17. A uma expressão se pode dar a volta para que melhore o seu som sem que mude o seu significado, por exemplo, vida eterna em lugar de morte eterna.
18. Ganhou a vida eterna e se dispunha a desfrutá-la com ilusão, quando compreendeu que se ia aborrecer e que na eternidade já não se morre nunca.
19. Temos muito pouco tempo para estar vivos e todo o tempo do mundo para estar mortos, pois que pena, porque há muitas maneiras de estar vivo e só uma de estar morto.
20. Epitáfio: lamento não estar em condições de ler este epitáfio.