quinta-feira, 23 de março de 2017

UMA LEMBRANÇA DAS CALDAS


Aquele senhor que tem um nome impronunciável e que preside ao Eurogrupo é talvez o melhor retrato da anquilose em que a União Europeia navega. Esse senhor, que gosta de dizer que é social-democrata, celebrizou-se na ferocidade com que falava dos países do sul, como se essa condição geo-política fosse uma maldição que era preciso castigar. O sujeito, quando aparece nas televisões, à ilharga de microfones ou em conferências de imprensa, ri-se muito, mas todos sabemos que, às vezes, o riso é próprio dos parvos, embora estes possam ter maior grau de responsabilidade. 
Com tipos deste calibre, não admira que o partido trabalhista holandês - o partido cujo emblema traz na lapela - ainda nas recentes eleições legislativas tenha obtido um resultado miserável. Se calhar, chateado com o comportamento eleitoral dos holandeses, e vendo o lugar no Eurogrupo a fugir-lhe debaixo dos pés, o político de nome impronunciável quis desopilar o fígado (decerto mal tratado por excesso de vinhos, aguardentes e licores!) , e , numa entrevista a um jornal alemão, saiu-se com esta: "Na crise do euro os países do Norte mostraram solidariedade para com os países do Sul. Como social-democrata, a solidariedade é para mim extremamente importante. Mas quem a pede tem também deveres. Não posso gastar o meu dinheiro todo em bebidas e mulheres e depois disso ir pedir a vossa ajuda. Este princípio vale para o nível pessoal e também europeu". 
Levantou a bojarda um clamor de protestos de governos e no próprio Parlamento Europeu lhe foram às orelhas. Mas não vale a pena perder muito tempo com ele: pertence àquela linhagem que tem alvará da estupidez! Quem lhe respondeu foi Ferreira Fernandes, na crónica que publicou no "Diário de Notícias" sobre "o pequeno holandês". Faço minhas as suas palavras e também eu lhe endosso um artesanato das Caldas para consumo pessoal: 
"Ah,o que o noticiário de ontem me trouxe de arte e luxúria! Passeei-me pela Holanda, quando ela era grande e não só entreposto de impostos dos outros. Rembrandt em autorretrato, uma mão pousada no nadegueiro da sua mulher Saskia e outra levantando o cálice. Mulheres e copos. Vermeer é mais vinho branco, límpido como as suas sedas. Frans Hals, em Jovem e a Sua Amada, faz ambos de maçãs de rosto tão vermelhas que só pode ser do tintol que o rapaz levanta em glória. Já Gerard der Borch, pintor dos ricos, só tem garrafas de cristal trazidas por criados. Jan Steen, pintor de tascas (bordeeltjes, cenas de bordel ou tabernas, são mesmo um género da grande pintura flamenga), no óleo Vinho Holandês, com uma bêbada de seio nu e coxas ao léu, homem com a mão marinhando pela perna dela e um querubim, nem 6 anos, já abotoado ao copo. Gabriel Metsu vai com a mulher, Isabelle de Wolf, para a taberna e pinta o casal agarrado, entre si e ao vinho. Copos e mulheres... E eu, confesso, não gastei o meu dinheiro num curso rápido sobre a pintura holandesa. Limitei-me a ler uma brochura da Académie Amorim, fundação de Américo Amorim, um homem do Sul da Europa, grato ao vinho e à cortiça. A brochura chama-se O Copo de Vinho na Pintura Holandesa na Idade do Ouro, porque os verdadeiros europeus estão gratos à grande Holanda. Já para responder a Jeroen Dijsselbloem, um curso rápido de arte portuguesa chegava: um caralho das Caldas para ti, pequeno holandês."