quinta-feira, 27 de abril de 2017

AMIGOS E "EMPENHO DO CORAÇÃO"

Sessão no Paul (foto de Maria Nicolau Filipe)
Nestes dias de emoções fundas, em que o "empenho do coração" fala sempre mais alto, voltei a ter aquela sensação única que é o universo de amigos a multiplicar-se em alegria, à volta de coisas felizes que acontecem na minha comum biografia. A notícia da atribuição do Prémio Eduardo Lourenço transformou-se numa plataforma de amizade, num registo de apreço colectivo que eu tomo e partilho como resultado de uma acção cultural e cívica ou da expressão de resistência em relação a tudo o que é essencial ao respirar deste nó de terra interior que é a nossa casa comum.
Ao mesmo tempo, coincidindo praticamente com o anúncio do galardão, a Casa de Cultura José Marmelo e Silva decidiu assinalar, também, aquilo que tenho feito nestes 50 anos de escrita, talvez iniciado com palavras que não viram a luz do dia, cortadas pela Censura. Foi para mim um momento alto, que a amizade do Nelson Oliveira Marmelo e Silva criou e pôs de pé, a que se associaram os presidentes das Câmaras da Covilhã e do Fundão, Victor Pereira e Paulo Fernandes, e onde a fraternidade das palavras foi um traço-de-união nas intervenções de Arnaldo Saraiva e de César António Molina. Houve, também, a música do grupo de Bombos de Lavacolhos, sonoridades fortes e ancestrais da terra fundanense, as adufeiras do Paul, com o talento e a voz magnífica da Leonor Narciso, a reinventar a riqueza da música tradicional, e a espantosa leitura que o actor do Teatro das Beiras, Fernando Landeira, fez de alguns textos meus. Foi um clima especial o que se viveu no Paul, no dia 23, momentos que fazem sempre lembrar os versos do Eugénio como gratidão sentida: "os amigos amei/despedido de ternura fatigada".
Voltando ao Prémio Eduardo Lourenço eu tive oportunidade de dizer que o considerava, pelo nome do patrono, uma honra intransponível, e por ser iniciativa do Centro de Estudos Ibéricos, instituição relevantíssima da Ibéria. Fiquei feliz, não o escondo, pelas palavras do júri, que o atribuiu por unanimidade: "O Júri reconheceu a projecção cultural e ibérica do jornalista, escritor e cronista e a sua notória vocação cultural e cívica desenvolvida ao longo dos últimos 50 anos, no "Jornal do Fundão", orgão de referência na história da imprensa nacional, onde foi jornalista, chefe de Redacção e Director. Protagonista de um jornalismo fortemente literário, que tantas vezes lhe permitiu contornar a censura pela finura da escrita, Fernando Paulouro Neves representa muito bem a ligação entre os dois lados da raia ibérica, vividos e defendidos ao longo de uma vida de resistência. Regional, mas sempre com relevância global, mostra que o mundo precisa da reflexão vinda dos pequenos lugares. Partilha as beiras agrestes e a perspectiva que elas transmitem, com o próprio Eduardo Lourenço; em ambos o pensamento não se imagina sem o vento da raia e a vivência dos locais que o futuro ameaça abandonar, mas que ambos acreditam que se mantarão relevantes e até indispensáveis."
Então, estou grato a todos os amigos e corporizo num gesto de gratidão, pela sua simbologia colectiva, as palavras amigas de felicitações do Senhor Presidente da República. A todos, digo: bem hajam!
E aos meus Leitores, razão de ser da escrita, dizer-lhes que irão, nestes três meses, ter crónicas minhas a partir de Minas Gerais, terra do grande Carlos Drummond de Andrade.