sexta-feira, 19 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 6, Uma bomba no Palácio do Planalto!

Manifestação "Fora Temer! Diretas já". BH, 18/05
Andava o cronista aspirando, no brouhaha quotidiano, a euforia do triunfo do Atlético, no Mineirão, ainda para mais sobre os argentinos do Godoy Cruz, por 4-1, percebia uma espécie de felicidade no ar, e desejou que os Ipês começassem subitamente a florir, semeando de cores a paisagem. Regressou ao concreto do dia, e,   apurando depois os ouvidos e os olhos ao noticiário nacional da "Globo News", eis que a surpresa tomou conta das palavras e das coisas: uma verdadeira "bomba" sacodia a narrativa da informação imediata. 
Ficámos, então, a saber, segundo matéria revelada por um jornalista do "Globo", Lauro Jardim, que os irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da poderosa JBS, no âmbito de uma delação premiada, apresentaram uma prova, em áudio,  mostrando como o Presidente da República, Temer, tentara obstruir a Operação Lava Jato. Temer foi gravado dando o aval para comprar o silêncio do deputado Eduardo Cunha, preso desde Outubro do ano passado, e que, como presidente do Congresso, foi o verdadeiro pivôt na escalada para o "impeachment" da Presidente Dilma Roussef. 
Sabe-se que no diálogo entre o Presidente Temer e Joesley Batista, que ocorreu em Março, no Palácio do Jaburu, o segundo contou que estava dando uma mesada a Cunha e ao doleiro Lúcio Funaro, presos em Curitiba, para que ambos não falassem nada que prejudicasse o governo. Temer terá dito: "Tem que manter isso, viu?" 
Estes factos fazem parte de uma investigação articulada com os investigadores da Operação Lava Jato e a Procuradoria Geral da República e desenham múltiplas conexões, desde o ex-assessor, muito próximo de Temer, filmado recebendo malas de dinheiro rastreado até ao comprometimento do senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, também envolvido com a JBS, no recebimento de milhões. Neto de Tancredo Neves (figura respeitada do Brasil: Tancredo deve dar voltas e reviravoltas no túmulo!)), ancorado a Minas Gerais, a gravidade da sua conduta levou já o Tribunal Federal a determinar o seu afastamento do cargo de senador, enquanto a irmã foi hoje detida pela polícia, enquanto ele aguarda vez. Ao observador distante tudo isso parece um filme negro, onde os artistas regressam sempre ao leit-motiv do crime: a corrupção, as ligações perigosas da política à economia, a crise do sistema político e dos partidos. Mas no dia-a-dia da sociedade brasileira a banalidade desse polvo político, que envolve a classe político-partidária, todos os dias vem à superfície, agora, sobretudo, com a figura da "delação premiada", em que muitos visados criminalmente, às vezes já condenados a pesadas penas, tentam salvar a pele ou atenuar as penas delatando, delatando, delatando...
Esse é o ambiente que o país vive. Ainda não tinha cessado o clamor da audiência de Lula, em Curitiba, respondendo ao juiz Moura, e o impacto da divulgação dos vídeos em que os "marqueteiros" Mónica Moura e João Santana, em delação premiada, visam incriminar Lula e Dilma pelo Triplex e pela alegada Caixa 2 do PT, e já a bomba de Temer e adjuvantes explodia no coração do Planalto. 
O rio das anedotas sobre Temer tornou-se um mar, cujas ondas vão e vêm nas redes sociais ou no implacável blog de Gregório Duvivier, "Blog do Kuelho", em que ele diz que "o Temer é uma espécie de mordomo maçon e satanista" e que é perito a usar "a chatice para alcançar o que quer"... O que é certo é que, dizem de todos os quadrantes, Temer e o seu governo estão à beira do abismo. E todos estão à espera que o Presidente dê um passo em frente! 
Nas ruas, volta a ecoar a exigência colectiva: "Directas, já!" E enquanto discutem à boca pequena ou com ela no trombone as implicações constitucionais, o quadro aponta para a renúncia do Presidente ou os pedidos de "impeachment" no Congresso, que, aliás, já começaram. Há um ano, Temer estimulava a concretização do "impeachment" de Dilma vendo nisso a possibilidade de ocupar a cadeira presidencial sem ir a votos. Agora, a máscara de impoluto Presidente (adeus, reformas!), o ar seráfico de quem tinha no folgado controle do Congresso o seguro de vida, tudo parece um castelo de cartas a cair. 
Hoje, na edição brasileira do "El Pais", Juan Arias publica uma excelente crónica, com o título "É urgente um novo Brasil", em que coloca a exigência de uma mudança radical no "país continente", que "já parecia ter chegado ao futuro e descobriu que estava andando para trás". Ele reclama, então, uma República Nova, na medida em que se "esgotou a imaginação para reinventar a política que transformou em um negócio", enquanto há "uma nova geração que não se conforma em continuar sofrendo sob os escombros e quer começar a construir algo de novo". Diz ele, citando a parábola bíblica: "os mortos que enterrem os mortos". Porque "o que está morrendo é uma maneira de governar de costas para a sociedade pensando apenas em tirar proveito dos privilégios que o poder oferece".
Quem será o arquitecto do Brasil Novo? - pergunta Juan Arias. Não sabe ele, nem ninguém. O cronista de Notícias do Bloqueio  não acredita, aliás, em homens providenciais e desconfia deles pelo saber da História remota ou próxima.  Mas gostou de ler que o Brasil precisava de um Mandela, ele que foi capaz de, no país do Apartheid, enterrar a arma do ódio e fazer triunfar o diálogo. O problema é que Mandela pertence àqueles fenómenos singularíssimos que são raros no tempo longo da História.

terça-feira, 16 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 5, As Cores da Cidade


(ao António Valdemar, que foi amigo de Pedro Nava e me envolveu no seu fabuloso memorialismo)

Está um tempo bom para nos fazermos à cidade, caminhar pelas ruas de Belo Horizonte, onde Steiner gostaria de andar, tenho a certeza, para descobrir na topografia da urbe nomes que são parte inteira da história e da cultura da capital mineira e estacionar nos botecos proseando. Palmilhar as ruas, visitar o universo colorido dos mercados - o Mercado Central, lugar que evoca originais reminiscências rurais, é hoje uma babel de trocas, onde tudo se oferece e está ao alcance dos desejos consumistas - ou ir ao encontro de outros mercados afluentes e centros comerciais exuberantes. 
O lugar das trocas não poucas vezes resvala para a flor das ruas, onde camelôs de circunstância, com as suas vendas e o seu linguajar, dão um colorido genuíno à cidade. Aos domingos, o mercado popular amplia-se ocupando boa parte da larga Avenida Afonso Pena. 
No "Contorno", por onde quer que se vá, ganha-se mais um pouco a ideia de pisarmos chão de uma cidade pensada com régua e esquadro, num urbanismo rasgado, de prédios altos e avenidas largas, desenhadas com mão de futuro. Pedro Nava, verdadeiro Mestre de memorialismo, dá-nos conta da transformação e crescimento de Belo Horizonte, em "Balão Cativo", com um pormenor e um rigor de observação que, no intimismo da narrativa, nos deixam a sensação da sua escrita captar a substância do tempo. 
Fui, talvez por isso, fazer um aceno ao Ponto de Encontro, como se quisesse dizer olá! ao poeta Carlos Drummond de Andrade e a Pedro Nava. Lá estão os dois, no bronze idealizado por Léo Santana. Ali, entre a Rua Goiás e a Rua da Bahia, espaço de tão fundas memórias culturais, convergiram muitos sonhos jornalísticos e literários daquela geração modernista que, na primeira metade do século XX, abalou a tradição literária de Minas Gerais. E outra vez Pedro Nava falando da Rua da Bahia: "Não a Rua da Bahia de hoje. A de ontem. A dos "anos vinte". A de todos os tempos, a sem fim no espaço, a inconclusa nos amanhãs. Nela andarão sempre as sombras de Carlos Drummond de Andrade, de seus sequazes, cúmplices, amigos, acólitos, satélites". 
Devo confessar que a leitura do livro de Humberto Werneck, com o surpreendente título "O Desatino da Rapaziada", que é uma narrativa fantástica sobre jornalistas e escritores em Minas Gerais, me despertou a curiosidade sobre este universo mágico dos anos 20 e sobre o pulsar cultural de Belo Horizonte no fluir do tempo que veio depois. O inventário de nomes é fabuloso, parece estarmos face a um território predestinado para o exercício da poesia e da prosa. 
Humberto Werneck faz a história desse fio de tempo e conta-o como se estivesse a escrever um romance, captando o tempo e os lugares, colhendo histórias saborosas e acontecimentos que ficaram colados à história de Belo Horizonte e do Brasil. E nós, que o lemos, temos às vezes a sensação de lá termos estado também, de tal forma que, ao poisarmos outra vez na realidade, ficamos com pena desse sonho ter acabado. 
"O Desatino da Rapaziada" começa, aliás, com o Drummond, ou não fosse ele figura epigonal da narrativa! Explica Werneck: "A história que aqui se vai contar começa no ano de 1921, no instante em que a mais famosa de suas personagens, um adolescente magrinho, de óculos, entra numa redacção de jornal, na rua da Bahia, em Belo Horizonte". Era o "Diário de Minas". No fio inicial da história, conta o autor, pedindo eu licença por me deter mais tempo neste particular: "Mas estamos ainda no começo, no moço de óculos em quem já é possível reconhecer Carlos Drummond de Andrade. Tem dezoito anos e, não faz muito, foi expulso do Colégio Anchieta, de Nova Friburgo, no estado do Rio, por "insubordinação mental". Quatro anos mais tarde a pena azeda de um literato belo-horizontino, por detrás de pseudónimo, vai descrevê-lo como "aquele mocinho esgrouviado, que tem cara de infusório". Será visto, nessa época, como o líder de um grupo de jovens escritores "futuristas", cujos desmandos poéticos vinham perturbar a parnasiana harmonia da paisagem literária das Minas Gerais. Razão deveriam ter os padres de Nova Friburgo em chamá-lo de "anarquista".
Esse tempo cristalizou em versos de Drummond:

O Diário de Minas, lembras-te, poeta? 
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira 
uma página de: Viva o Governo 
outra - doidinha - de modernismo.

"O Desatino da Rapaziada": cinquenta anos de história literária, acontecimentos divertidos das vivências de ilustres escritores, estimulante confronto de ideias. Havemos de voltar, de certo, a Werneck e ao seu "O Desatino da Rapaziada" porque dentro do livro estão contidos tempos essenciais, como no capítulo "Sob as Asas de JK", quando fizermos crónica da Pampulha.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

CARTA DE MINAS GERAIS 4, A Viagem da Língua

"Tanto mar", diz a canção do Chico Buarque, e quando pisamos chão do Brasil, eis o milagre da Língua a acontecer, as suaves sonoridades das sílabas do fazer falar, a alquimia inventada das palavras de cristal, a construção da Língua desde Camões, a escrita e a fala comuns edificadas dum lado e do outro do Atlântico, essa "jangada de pedra" que foi e vai pelo mundo numa viagem planetária que parece não ter começo nem fim. Penso nesses construtores da Língua, que fizeram dela um organismo vivo, um bicho que caminha no tempo, como dizia o Aquilino, e logo essa aventura descobre nomes outros, muitos, como o Machado de Assis ou o Camilo e o Eça, o Pessoa, o Manuel Bandeira e o Drummond, o Mário de Andrade e o Guimarães Rosa, o João Cabral, a Sophia e o Eugénio de Andrade, o Vinicius e o Chico e o Tom Jobim, o Zeca Afonso, o Caetano Veloso e a Bethânia, sei lá, tantos nomes, tanto mar, tanta poesia, palavras que voam e tocam o coração da gente. Então, essa aventura da Língua é o meu "espanto de todos os dias". E o poema surgiu como perplexidade do instante.

Que força é esta
que poisa na fala
e nos embala
na viagem desta Língua
tão doce e musical?
Que força é esta
que se faz comum
este falar coraçãomente
(tu é que sabias, João Guimarães Rosa!)
que pulsa arterialmente
no quotidiano da gente?
Que força é esta
que faz da invenção verbal
novas pátrias idiomáticas
como quem reparte o pão
e mata a fome a um irmão?

Belo Horizonte, 15 de Maio/17