Ficção


Ilustração de João Lourenço


Os olhos do medo

Fernando Paulouro Neves *
A primeira pancada atingiu-a de surpresa e um fiozinho de sangue escorreu-lhe do canto da boca. Gosto adocicado. À segunda, esquivou-se como pôde.

Desviou o rosto do punho que lhe caía em cima e que raspou na quina do armário. Ele fez um esgar de dor e de surpresa, parou por um momento para olhar o golpe na mão e ela aproveitou a momentânea pausa no combate para rodopiar no espaço minúsculo em que se acoitara, ao canto, e esgueirar-se à roda da mesa da cozinha. Mal teve tempo para equacionar a surpresa do que lhe estava a acontecer. Outro golpe, o terceiro, atingira-a em cheio na face, uma dor aguda quase a deixara sem sentidos. Ele voltou à carga, agarrou-a pelos cabelos, parecia agora segurar matéria inerte. Amedrontou-se com o peso morto que tinha entre as mãos e deixou-a cair, desamparada, no chão. Estaria morta? Lentamente, o pânico começou a tomá-lo, o medo rodeava-o por todos lados. Imóvel, petrificado pela brutalidade. Fugiu dali, a correr. Uma porta bateu, com estrondo.

Eulália ouviu vagamente uma porta que se fechava. E horas depois – quantas ? – despertou do torpor de sofrimento e abriu outra vez os olhos para o mundo. Os sinais da agressão marcavam-lhe o corpo, mal abria um dos olhos, dilatado pelo hematoma, continuou deitada no chão à espera que as forças voltassem. Demorou a recompor-se, e, depois de algumas tentativas, conseguiu finalmente equilibrar-se e ficar de pé. Doía-lhe o corpo todo, mas a dor maior ia até ao fundo da alma. Pensava na infra-humanidade a que a violência remete um ser humano, a pessoa feita quase objecto sem assomo de dignidade. Eulália percebeu, então, na pele, o domínio da irracionalidade, o universo de absurdo que a vida (vida?) podia ser. Tudo fora o epílogo de uma outra espécie de morte anunciada. Morte em sentido cívico e social, já se vê. As frequentes discussões, a ciumeira acéfala, a teimosia dele em querer obrigá-la a deixar o emprego para ficar em casa, contrastavam com a afirmação de liberdade de Eulália, que não abdicava do direito de dispor de si, de construir, na vida de todos os dias, a sua própria biografia, a sua história de vida. Ele amplificou a retórica da ameaça, estilizou a ofensa verbal, começou a perder a cabeça sempre que ela voltava mais tarde do emprego. Até que.




Mais tarde, muito mais tarde, a memória regressava sempre à reconstituição topográfica do drama, angústias de longa duração que voltavam, grudadas à alma como uma lapa, visita de todos os momentos, às vezes fragmentária, outras como um filme em câmara lenta, lavrando uma e outra vez as feridas psicológicas que, por serem interiores e intransmissíveis, não cicatrizavam nunca, pois mais abertas são as feridas na dor que o pensamento fabrica. E ela lembrava-se, então, dos instantes da violência sofrida, que pareciam eternos, e de como a certa altura deixara de proteger o rosto com as mãos, abandonando qualquer atitude de defesa pessoal, enfrentando-o apenas com o olhar, como se um espelho imaginário lhe devolvesse a imagem do ódio. Sim, era isso – olhar apenas, ver a violência em estado puro, decifrar o grão de areia que bestializa as pessoas e as transforma em fazedoras de infernos, mesmo que às vezes sejam climatizados e domésticos.
Lembra-se bem, Eulália, da vontade que se apossou dela, uma força interior de que nem sequer suspeitava, que lhe fez levantar o rosto e olhar, olhar apenas, sem uma palavra ou um gesto, indiferente à agressão iminente. Eram os olhos e só os olhos que falavam. Olhou-o bem nos olhos, fixou-os, entrou por eles dentro como dizem que fazem na selva os caçadores, quando ficam sozinhos diante das feras. Desejou esse confronto visual, rosto contra rosto, para, num olhar que misturou nas suas águas angústia e medo, mostrar toda a perplexidade de que um olhar é capaz, quando alguém descobre que afinal desconhece o outro, sobretudo se o outro for o companheiro de muitos anos (pensava ela : de uma vida).
Naquele momento, nunca mais esquecido, tudo à sua volta lhe pareceu estranho. Foi como se a realidade, o que estava a acontecer, o instante e a hora exacta da súbita violência, fossem pura imaginação, coisa que jamais poderia fazer parte da rotina de um quotidiano até então vivido sem sobressaltos. O que era isto que lhe estava acontecer ? Tudo lhe parecia absurdo. O respirar ofegante do medo, o barulho da loiça a estilhaçar-se no chão, as cadeiras arrastadas, os restos de comida espalhados ao acaso – despojos avulso de uma guerra doméstica, sinais de um combate oculto entre quatro paredes. Tudo tão rápido, sombras de sombras, gritos sufocados, gestos de medo, palavras amordaçadas em silêncios de vergonha.
Sombras de sombras que passam e ninguém vê, pensou outra vez Eulália. A indiferença é o veneno que corre e vai matando lentamente. Toda a gente sabe e finge ignorar, era ela a falar para si, pensando em voz alta, lembrando-se que também sucedera com ela pensar que essas desgraças da violência doméstica só acontecem aos outros, coisas de gente pobre, de margem ou de mau vinho, quando afinal a brutalidade física e psicológica infligida às mulheres está muitíssimo bem distribuída por todas as classes sociais, é o á-bê-cê dos dias, fenómeno traumático transversal a toda a sociedade.
Quantas vezes, quantas ?, conhecera já estes rituais de violência, no registo dos jornais, que depois as televisões amplificam, o sangue a correr por sobre os “brandos costumes”, fatalidades que a vida (ou a morte) encerra, mortes físicas e mortes psicológicas para todos os gostos. Quantas vezes, quantas ?, essa factualidade mórbida, que se tornava notícia de horário nobre quando havia “últimas consequências”, mortes violentas, mulheres decapitadas ou assassinadas à frente dos filhos, desfechos fatais em que às vezes morriam todos, a começar pelo agressor que, depois da obra feita, se suicidava. Crónica de costumes de arrepiar, todos os dias alimentada pelos quotidianos cinzentos de pessoas sombras de sombras.
Eulália olhava agora a realidade com outros olhos. Percebera que a violência doméstica, que vivera dramaticamente, estava cada vez mais presente na sociedade. Muitas vezes, à noite, enquanto fumava um cigarro, gostava de olhar da varanda da casa a imensa paisagem urbana que se estendia no horizonte, milhares de casas e ruas, luzes que acendiam e apagavam, e pensava nos dramas ocultos dentro das paredes das casas da cidade grande, dos choros e dos gritos, e os versos de uma canção do Zeca vinham então ao seu encontro como se a poesia estivesse a querer cantar cidades futuras, e cantava só para si :
a cidade é um chão
de palavras pisadas
e uma lágrima furtiva abria um sulco no rosto porque pensava na comum humanidade que poderia ser a felicidade dentro da cidade, se a urbe fosse um chão de palavras amadas, onde “o puro pássaro”, como um dia pediu um poeta, o Ruy Belo, para o seu país futuro, fosse possível. As luzes da cidade, por momentos, pareciam mais intensas na noite escura. Eulália poisou os olhos num horizonte de luz e descobriu no céu inalcançáveis estrelas, que brilhavam, brilhavam. Por um instante, a palavra esperança voou sobre o clarão da cidade. Eulália sorriu e recomeçou a chorar. As feridas continuavam abertas.

*Escrito para assinalar o Dia Internacional Para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, com ilustrações do artista plástico João Lourenço, numa iniciativa editorial realizada pela COOLABORA.



MORTE NA MINA


Fernando Paulouro Neves

Ainda hoje, tantos anos passados, Alfredo Rodrigues pensa naquela noite gélida e de como a morte e a tristeza se abateram subitamente sobre ele e os seus companheiros. Lembra-se, como se fora agora, daquele instante, ao mesmo tempo breve e para sempre, quando, depois de sair da “chaminé” da mina, olhou para o lado e viu o Fernando morto, o saco com as pedras caído, sangue, muito sangue no chão branco, e os homens da segurança a rodearem-nos com as espingardas automáticas apontadas à cabeça. Ele fora o segundo a sair do respiradouro e depois dele veio também o Alberto e o António. Atiraram a matar ao primeiro, o Fernando. Eles safaram-se, sabe-se lá porquê, uma pequena circunstância de Deus.  Quis correr para o camarada que caíra naquela posição, deitado sobre si e assim ficara, meio curvado, que dizem ser a postura que se aprende desde criança inicial, como medida protectora. O segurança travou-lhe o gesto, dizendo-lhe que não com a cabeça, e, com a arma apontada, mandou-o erguer as mãos. Levantou-as: o mesmo gesto maquinal que fazia ao regressar da faina no interior da mina, trabalhador de delito-comum, para ser revistado. A companhia fazia sempre este exame de apalpação e revista, à procura de pedras de minério, de uma ou outra lasca de ouro, o que era raro, quase como sair o euromilhões, em busca das matérias que às vezes os mineiros traziam coladas ao corpo.
Agora, estava outra vez de braços levantados e olhava ao seu redor. A noite (diziam sempre que era a noite mais longa), tinha abraçado tudo, e a neve que começara a cair ao início da tarde já nessa altura tapara as arestas do cimo da montanha esventrada e igualizara a paisagem, como se o horizonte à volta, árvores, os montes fantasmáticos das escombreiras, aldeias cheias de luzes, longe uma iluminação mais densa, as cidades: uma “breve arquitectura da melancolia”. Ouvia-se o vento a assobiar, sinos na noite e a música aquática do rio, lá ao fundo. Um estranho silêncio cercava tudo, até o quadro de morte que os envolvia, pareciam figuras imóveis e Alfredo Rodrigues, por um momento, chegou a pensar numa imagem fugidia de cinema, quando o frio e a neve tornavam as figuras estátuas de gelo, hirtas e imóveis, presas do tempo e da eternidade. Assim viu os os homens que continuavam a apontar-lhes as armas e um sorriso rápido percorreu-lhe a face.


Passaram-se já quantos anos? – interroga-se Alfredo. Às vezes, o número certo do tempo falhava, mas todos os anos, neste dia, as recordações de tristeza redobrada poisam na memória e ensombram sempre a festa matricial, o universo da família reunida, a gritaria e as brincadeiras dos netos vindos por uns dias de França, a alegria efémera ou prolongada, a ilusão de felicidade, os sentimentos com verniz de alegria que nestas alturas parecem sempre um postal ilustrado.
E as recordações, vêm com pezinhos de lã, como a neve soprada pelo vento (“o vento é bom bailador”, lembra-se sempre daquele verso) que desafiava a noite ao cimo da montanha, breve toque de fantasia para amenizar o drama.
Alfredo Rodrigues lembra-se... lembra-se do lume que crepitava na lareira e fazia subir um calor que se espalhava pela cave e fazia esquecer o frio e a neve que batiam nas vidraças. Os mineiros davam os últimos retoques na operação, antes de partirem para a serra ao encontro da “chaminé” da mina. Estavam os quatro, outro sabia, mas esse apenas facilitara no subterrâneo das galerias para que eles pudessem ir deixando alguns cristais na zona abandonada, no lugar exacto por onde subia a velha “chaminé”. Era por ela, um túnel escavado na vertical, para o céu, onde cabia à vontade o corpo de um homem, lembrei-me agora disso quando vi o salvamento dos mineiros chilenos, era por esse diâmetro à escala humana que eles, nessa noite, desceriam para depois trazerem os cristais até à superfície.
Todos conheciam a topografia da mina como a palma das mãos, palmilharam vezes sem conta as galerias na sua história trágico-terrestre, participavam desse universo subterrâneo que juntava um longo inventário de profissões perigosas, aquelas que nos anos 60 se diziam pertencer aos homens que morriam cedo.




Antes de partirem para a missão, Alfredo Rodrigues pediu que esperassem um pouco.
-- Vou tranquilizar a mulher e os garotos. – explicou, enquanto avançava para casa. – Tenho de prometer que regresso a tempo da ceia de Natal.
Era véspera de Natal, a noite boa e longa. À hora a que chegaram à “chaminé” da mina, não se via vivalma, a quietude da neve era o limite assegurado da tranquilidade.
-- Foi bem escolhido o dia ou a noite! – sorriu Fernando. – A esta hora até os seguranças estão no agasalho da lareira.
Não havia tempo a perder. Pelas cordas lançadas na “chaminé” desceram à mina, um após outro, levavam com eles apenas os sacos que haviam de encher de cristais. Tudo parecia fácil.
Logo se despacharam.
-- Vai tu primeiro, Fernando! – mandou Alfredo Rodrigues, que era o líder.
Subiu, esforço após esforço, até ao cimo. Fernando transpôs a boca da “chaminé” e viu o céu numa neblina de branco, que é sempre assim quando está a nevar. Fez sinal para os outros que já cá estava fora.
Olhou a paisagem. Encheram-se os olhos de infinito branco, até onde as luzes alcançavam. Daqui a nada, estou em casa, para a consoada.
Foi quando os seguranças saíram da sombra e dispararam. Os outros estavam à boca da “chaminé”.  Alfredo Rodrigues sabe que só aquele que não os acompanhou podia ter dado com a língua nos dentes. Que traidor! A delação é bem um veneno português.
Não lhe sai da cabeça a imagem desse dia, depois de tudo ter acontecido. Outra vez a abrir os olhos para a memória. Em casa de Fernando, todos estavam à mesa, à espera, beberricando e mastigando guloseimas, ele deve estar a chegar.


Tantos anos depois, na ceia da noite boa, a cadeira de Fernando continua vazia.


O SEGA-VIDAS

Fernando Paulouro Neves



Há, na praia, uns metros de areia que ninguém ocupa. Mesmo no pino do Verão, quando o espaço é escasso, há uma terra de ninguém, um baldio votado ao desprezo e ao silêncio, como aqueies lugares maninhos e estéreis onde, às vezes, apenas se eleva uma figueira do diabo. Não foi assim sempre. Mas os que viram e os que contaram depois aos outros anatematizaram o lugar como uma maldição, ou melhor, uma referência topográfica da morte. Os homens dos alugueres dos toldos, como quem edifica uma “alminha”, à beira da praia, sinalizaram o local com as nuvens da desgraça. “Ali onde o ferro despedaçou o homem!” – dizem alguns ainda hoje. É verdade que lá puseram uma cruz, mas no Inverno seguinte o mar logo a levou, como se quisesse sepultar definitivamente a memória do acontecimento.



O dr. Robalo acabou de entrar no elevador. Leva sobre o peito uma pasta negra e sobe ao décimo andar para ocupar o novo gabinete. Chefe dos Recursos Humanos! A secretária abre-lhe a porta. É um espaço amplo, envidraçado, de onde se pode olhar a cidade, até ao rio. Magnífica vista! Passeia a mão pelos sofás, olha a mesinha baixa e acaba afundando-se na fofice de um deles. Fecha os olhos por um momento e pensa nas invejas que a sua promoção desencadeara. “Quantas sacanices foi preciso fazer!”, pensou, como se tivesse um rebate de consciência. Levantou-se e caminhou pela alcatifa. Bateu com os nós dos dedos sobre o tampo da secretária, num pequeno batuque de vitória, e sentou-se na cadeira giratória como quem ocupa um trono. “Director dos Recursos Humanos!”, disse baixinho, e logo se pôs muito direito ajeitando o nó da gravata que ficara demasiado solto. A mesa de trabalho tinha os artefactos necessários. Ao lado, os telefones, e mais para a direita o computador, último modelo. Respirou fundo, e, como se quisesse passar um segredo a si próprio, exclamou:
-- Chegaste ao topo, Robalinho!
Quem conhecia o seu percurso profissional sabia que a promoção fora o culminar de uma longa biografia de subserviências e de fidelidade canina aos administradores, que gostavam da sua bajulice e do ódio que destilava contra os trabalhadores, que prejudicava, sempre que podia, em favor do grande conglomerado empresarial. À boca pequena, chamavam-lhe o Fuinha e pelos corredores e nos refeitórios corriam peripécias da sua história que retratavam um quotidiano miserável, como se a vida, para lá do seu lado funcionário, não tivesse tempos de lazeres e alegrias.
-- Este não sofre, nem goza! – dizia o motorista que todos os dias o levava da empresa para casa e da casa para a empresa.
Mas logo alguém acrescentou:
-- Quem? O Fuinha? Ele gosta de fazer sofrer… E até goza, olá se goza… Goza que se farta!



Sentado na sua secretária, o dr. Robalo inclinou-se para trás e as costas da cadeira cederam ao peso, suavemente, moldando-se ao corpo. Avaliou o espaço da mesa, abriu e fechou as gavetas, voltou a reclinar-se. Alguns minutos depois, retirou da pasta uma moldura com um retrato de uma mulher belíssima e duas crianças felizes.
-- Isto dá bom tom à liturgia do grupo! – murmurou, enquanto colocava a fotografia em lugar bem visível. – Estes tipos ligam formalmente muito à família…
O sorriso desvaneceu-se quando pensou que ele não fazia parte dessa fauna a quem as mulheres vinham comer à mão. A figura não ajudava nada. Ele bem sabia que os trabalhadores, quando virava costas, exclamavam: “Meia Leca!”, “Fuinha!”. E um dia ouvira mesmo elevar-se de um grupo a ofensa vexatória:
-- Cara de cu à paisana!
Ainda se voltara sorrateiramente à procura do autor da infâmia, mas só percebeu um grupo difuso de pessoas e alguns sorrisos matreiros. Pensou abrir acção disciplinar contra incertos, mas logo viu que cairia no ridículo com a tipologia verbal da participação. Aguentou essas como outras ofensas.
Os trabalhadores não o suportavam. A sua condição de seminarista frustrado acompanhara-o sempre e criara nele uma espécie de timidez que o fazia desagradável ao convívio. Na Faculdade, os colegas lançavam a suspeição de ser bufo da pide. E não era? A dúvida pairou sempre. Mas agora isso até parecia uma medalha: a delação é apontada como virtude do poder. Tantos anos depois, ele não esconde uma raiva sem limites contra o dia em que o país se libertou. Rosna, lança impropérios aos capitães de Abril, destila ódio de estimação aos trabalhadores. “Uma corja!”
Foram essas “qualidades” que o fizeram trepar na empresa. Era um chefe. A fidelidade fizera o resto: pontapé para cima!
E agora ali estava ele a comandar os recursos humanos, no último piso do labiríntico edifício. Tinha o mundo a seus pés, as fichas dos funcionários, alguns segredos do templo. Anotava, com o seu próprio punho um ficheiro paralelo, inventava códigos onde não faltavam segredos de alcova, sobretudo do “staff” sénior. Tinha os seus informadores ou gente que gostava da devassa e se comprazia na cumplicidade sórdida das velhacarias.
-- Tenho muita gente na mão! – pensou, num flash-back às pulhices anotadas. – Se um dia se metem comigo....
Levantou-se da secretária e foi até à enorme janela. Bela vista! Mas logo regressou ao centro do gabinete. Era ali o epicentro do seu poder. Recostou-se outra vez, encheu o peito de ar e voltou a olhar a fotografia. Lá estava a família virtual: a mulher muito bela e as duas crianças felizes.
-- Bem boa! – exclamou ele fechando os olhos. – Quem ma dera!
A família era apenas uma mentirinha para consumo. Não tinha, nem fazia tenção de ter. Retirara a foto de uma revista estrangeira, com boas cores e excelente papel, e, num acto de ilusionismo sobre a realidade, criara um universo familiar fictício, mais de acordo com o seu novo estatuto social, para pôr na montra do seu gabinete.


O dr. Robalo exultava com os despedimentos. Um sega-vidas. Eram momentos de grande alegria quando recebia instruções do topo para desencadear o que eles chamavam a cura de emagrecimento: despedir trabalhadores. Agora, com a desculpa da crise, tinha luz verde para todas as patifarias. Procurava os ficheiros e os olhos brilhavam quando identificava as vítimas. Esfregava as mãos de contente.
-- Toma lá a merda da indemnização, e vai-te embora!
Era a sua vala comum. E punha-se a imaginar, com um gozosinho que o percorria todo, a densidade dos dramas familiares, as lágrimas, o lar-doce-lar transformado em inferno. Gostava especialmente dessa prática predatória quando o Natal se aproximava. O sadismo tomava conta dele e apressava os despedimentos, media com sorrisos interiores o ar de infelicidade dos homens e mulheres, quando a realidade da perda do emprego lhes caía em cima e subitamente se abria a porta a infernos quotidianos de onde, muitas vezes, não havia saída possível. O que isso representa em sofrimento, às vezes a precária unidade social da família estilhaçada, por inteiro, não é passível de avaliar pelos outros. Ele, no entanto, avaliava, como se fosse um barómetro para medir a infelicidade alheia.
- São as minhas boas-festas de Natal! – dizia ele olhando a lista dos estragos.
Não esquecera o que tinha acontecido no último Natal. No gabinete, ao canto, mandara instalar uma árvore com luzinhas e muitas bolas coloridas, cumprindo a ordem da administração, que mandava alegrar o ambiente, mas ele não escondia que este tempo o aborrecia, sobretudo porque falava demais numa coisa que ele não tinha, nem queria ter: família. Talvez essa obsessão tenha fabricado nele o gosto de ser impiedoso e insensível aos argumentos humanos e pessoais das pessoas quando lhes indicava a porta da rua. Não lhe viessem com lágrimas de desgraças familiares, dos filhos e das doenças, nem com o choradinho do Natal. Queria lá saber! E, quando saíam, tantas vezes em pranto, olhava para a árvore incendiada de luz e cor, e dizia, com a voz aflautada, enquanto riscava mais uns nomes:
-- Odeio esta palhaçada!  


O Natal era um tempo efémero que os bons sentimentos esgotavam rapidamente e o calendário logo entrava na roda do ano e o dr. Robalo na sua rotina do mal.
A sua maior obsessão era a necrologia. No conglomerado empresarial, o grupo herdara trabalhadores envelhecidos de outra empresa, antiga e com muitos anos, que fazia páginas amarelas e outras coisas, ficando com a obrigação de lhes atribuir migalhas de complementaridade de reforma. Desobrigavam-se de outras solidariedades dando nota do desenlace da vida em três linhas de corpo 7, e, às vezes, um anúncio com fotografia e cruzinha.
Ele praticava o garimpo dessa e de outras necrologias, na pesquisa da morte dos velhos funcionários que era preciso abater ao efectivo. Ponto final nas obrigações sociais. Assinalava as notícias, ou os anúncios, a grosso marcador vermelho, e assim cultivava esses cemitérios de papel, repletos de cruzinhas, agradecimentos e missinhas.
Andou anos nessa obsessão necrófila que, a bem dizer, nunca mais o largou.
-- Parece que lhes sinto o cheiro – dizia ele, esfregando as mãos, depois de pôr em dia a contabilidade mórbida.


Ainda hoje, quando chega ao gabinete, avança para os jornais diários, arrumados a um canto da secretária, e não resiste à febre da morte. Logo os olhos, com sofreguidão, caem na necrologia e percorrem com gula a publicidade obituária. Já há pouco pessoal a abater, morreram quase todos, mas ele ainda é capaz de assinalar um ou outro nome, por suspeita, e questionar a secretária:
-- Oh, D. Alice! Veja-me lá se este gajo ainda pertence aos nossos recursos humanos!
Uma pequena diversão. Agora, tem outras caçadas a fazer. Analisa as faltas, sempre à espera de alguma injustificada, compulsa os processos disciplinares à procura de uma justa causa (“essa inutilidade da legislação laboral que felizmente está ser liquidada!”), anda a medir a produtividade dos “dispensáveis” que já chegaram aos 50, na esperança de varrer a “velhada”. E ri-se quando ouve as notícias dos doentes terminais que não conseguem obter a reforma.



Olhou outra vez para a fotografia e colocou-a na pequena estante, a balizar códigos e dossiês, em lugar de menor visibilidade.
-- Se não desse nas vistas, era já para o lixo! – pensou, enquanto largou um qualificativo pouco agradável. – Bolas para a ideia da família ilustre!
Saíra-lhe o tiro pela culatra. É que no outro dia, um dos “bosses” viera ao seu gabinete e ficara com o olhar preso à fotografia. E, no meio da conversa, pegando na foto, disparou:
-- Que família admirável! Oh! Robalo, leve a sua mulher e os miúdos a jantar lá a casa, no fim-de-semana. A minha mulher há-de gostar de os conhecer… Fica já combinado, não admito recusa.
Ele corara. Gaguejou uma desculpa.
-- Este fim-de-semana não pode ser. Já temos um compromisso…
Estava com um ar estranho, com suores. O outro temeu que lhe estivesse a dar alguma coisa.
-- Não se sente bem? Veja lá, se é preciso chamar o médico…
Disse que não. Era uma indisposição, coisa leve.
Quando o presidente saiu, não se conteve, de raiva:
-- És uma besta! Trazes para aqui a fotografia de uma gaja tão boa e agora estás lixado… Eu bem vi o olhar guloso do tipo…-- exclamou, depois de um longo silêncio. – Onde é que agora vou arranjar uma família para levar a casa do gajo?
Logo começou a engendrar uma desculpa. “Para já, vou meter férias a ver se isto cai no esquecimento, e depois, quando voltar, digo que me separei e ponto final. Divórcio litigioso, de faca na liga e tudo…”


Foi de férias. Uma chatice no meio da sua solidão. Lá ia para a praia apanhar sol porque a pele bronzeada era um bom cartão de visita, dava uma certa ficha. Cumpria o ritual da areia, ficava ali horas a fio de papo para o ar. Os dias passavam. E ele já ansiava por regressar ao seu gabinete e prosseguir a saga de sacanices, sobretudo agora que tinha condições para despedimentos maciços com a desculpa do agravamento da crise e das instruções da Troika. Eles iam ver!
Nesse dia, chegou tarde à praia. Estendeu a toalha. Tirou os jornais do saco e gastou os olhos pelas gordas. Caminhou por aquele território de palavras até que uma gradual sonolência o obrigou a fechar os olhos. Passou pelas brasas, mas regressou aos jornais. Corria uma aragem fresca. A suavidade da brisa era agradável. Transformava-se quase sempre em vento forte, às vezes passageiro, outras mais teimoso, bulindo incessantemente com a areia.
Nessa tarde foi tudo muito rápido. O vento soprou furioso. Remoinhou numa fatia de areia e levantou os chapéus de-sol que cobriam de cores o local. Fez força, soprou tanto que até levou pelo ar, aspirado por um funil de vento, um dos chapéus mais antigos e pesados, com cabo de aço e espigão de ferro. Subiu no ar como um balão e andou uns metros no céu até que caiu, vertical, no peito de um homem, que estava sozinho, estirado na areia. O espigão de ferro, afiado na ponta como bala perfuradora, cravou-se no coração do veraneante.
Um mar de gente rodeou a vítima.
-- Está morto! – confirmaram os socorristas.
Ao lado, caídos, os jornais. Alguém notou que estavam abertos nas páginas da necrologia. Num deles, um anúncio estava assinalado com marcador vermelho. Tinha um grande ponto de interrogação sobre o nome e um rosto.

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